Um sofisticado laboratório de biomoléculas Coluna do Jucá

quinta-feira, 19 abril 2018
o cultivo de espécies vegetais in vitro alimenta a ideia que podemos controlar esse pequeno laboratório vivo de biomoléculas. (Foto: arquivo pessoal)

Os saberes tradicionais a respeito das espécies vegetais permitem que o homem do campo utilize as propriedades curativas das plantas, mesmo desconhecendo a natureza química das substâncias oriundas dos seus extratos vegetais

São inúmeros os personagens ilustres da flora do sertão nordestino. A título de exemplo, me atrevo a citar alguns poucos nomes: aroeira do sertão (Myracrodruon urundeuva), pinhão-bravo (Jatropha molissima), pau d’arco (Handroanthus impetiginosus), oiticica (Licania rígida), pereiro (Aspidosperma pyrifolium), catingueira (Caesalpinia pyramidalis), macambira (Bromelia laciniosa), velame (Croton heliotropiifolius), mandacaru (Cereus jamacaru) e jurema (Mimosa tenuiflora). A utilização dos recursos vegetais desses personagens da Caatinga na medicina popular é um dos aspectos mais marcantes e fascinantes do sertão nordestino. Por isso, não seria exagero falar que é inestimável o conhecimento tradicional associado às populações da zona rural, a qual muitas vezes carece dos recursos básicos para tratar as mais diversas enfermidades. E são esses saberes tradicionais que permitem que essas populações utilizem com maestria as propriedades curativas das plantas, mesmo desconhecendo por completo a natureza química das substâncias oriundas dos seus extratos vegetais.

Os personagens ilustres, sejam da nossa Caatinga ou da flora de qualquer outro lugar do planeta, mais se assemelham a um laboratório sofisticado, cuja diversidade e natureza química complexa não param de motivar e inspirar a busca por substâncias que atendam a interesses diversos, principalmente medicinais. Nessa perspectiva muitos casos são memoráveis, como o da espécie vegetal Papaver sommniferum, popularmente conhecida como papoula, a partir da qual Friedrich Wilhelm isolou a morfina ainda em 1806. Esse achado é frequentemente descrito na literatura científica como o marco inicial da química de produtos naturais, já que pela primeira vez demonstrou-se que o princípio ativo de uma espécie vegetal poderia ser atribuído a um único composto químico.

A aroeira do sertão é conhecida por sua ampla utilização na medicina tradicional. (Foto: arquivo pessoal)

Mais tarde, veio do outro lado do oceano atlântico – da parte central do continente africano – um dos casos mais emblemáticos de uso tradicional de espécie vegetal cuja natureza química das substâncias era desconhecida. Na década de 1960, o norueguês Lorents Gran atuava como médico da Cruz Vermelha no Zaire, onde hoje é a República Democrática do Congo, quando observou que as mulheres nativas faziam um preparo (decocção) a partir de uma planta (Oldenlandia affinis DC.) conhecida na região como Kalata-Kalata, com a finalidade de acelerar o parto. Era o saber tradicional que indicava que aquele preparo, feito por aquelas mulheres, induzia e potencializava as contrações uterinas. A partir daí uma série de estudos liderados pela equipe do médico Lorents Gran foram realizados na década de 70 com vistas ao isolamento, identificação e propriedades farmacológicas das substâncias responsáveis pelos aspectos medicinais dessa espécie. Como consequência, um peptídeo cíclico, chamado de Kalata B1, foi isolado e suas propriedades uterotônicas foram confirmadas. Os resultados destas investigações foram apresentados em 1973 como uma dissertação na Universidade de Bergen, Noruega, de autoria do médico Lorentz Gran, além de gerarem inúmeros artigos científicos. Desde então, diversas moléculas de natureza similar foram isoladas de outras plantas, não só da família Rubiaceae, à qual pertence a espécie Oldenlandia affinis DC, como de várias outras.

Muda de aroeira do sertão, uma espécie vegetal tão típica do bioma caatinga. (Foto: arquivo pessoal)

Outro caso memorável desse sofisticado laboratório, mas que não guarda relação com propriedades medicinais, é o da sistemina, o primeiro hormônio-peptídeo conhecido em plantas. Até 1991, desconhecia-se que as plantas, assim como animais, pudessem empregar uma molécula polipeptídica sinalizadora, embora já se conhecesse o papel de outras moléculas de natureza distinta atuando com essa finalidade, como: auxinas, giberelinas, citocininas, ácido abscísico e etileno. Na época, Clarence Ryan liderou a equipe que isolou a sistemina das folhas de tomate (Lycopersicum esculentum Mill.), o qual pertence à família das Solanaceae. A caracterização dessa molécula revelou que a sistemina é um polipeptídeo com 18 resíduos de aminoácidos e ativo em concentrações baixíssimas. Esse hormônio-peptídeo é responsável por sinalizar e desencadear o processo genético de defesa das plantas contra herbívoros. Tal descoberta permitiu traçar, pela primeira vez, um paralelo entre o papel regulatório do primeiro polipeptídeo hormonal conhecido em animais, a insulina, e em microorganismos, o fator α. Clarence Ryan, a respeito do tipo e do papel desempenhado por essas moléculas nas plantas, sinalizou que “Quando você encontra uma, é incomum, mas quando você encontra outra, isso sugere que pode haver muito mais por aí”.

Todos esses casos revelam que a incrível diversidade e funcionalidade biológica atribuídas às mais diversas substâncias encontradas nas plantas servem para ligar um sinal de alerta em relação ao corrente processo de extinção e consequente perda de biodiversidade. Isso porque não é difícil imaginar o dano irreparável a esse imenso celeiro molecular representado pela nossa rica, ainda desconhecida e já ameaçada flora. No caso da região Nordeste essa preocupação acentua-se ainda mais, devido às atuais ameaças ao único bioma exclusivamente brasileiro – a Caatinga.

É incrível imaginar a diversidade e a funcionalidade biológica atribuídas às mais diversas substâncias encontradas em uma única espécie vegetal. (Foto: arquivo pessoal)

Tendo em mente todas essas questões, Edward Osborne Wilson, um dos mais renomados biólogos da atualidade, tido por muitos como o “Guru da biodiversidade”, escreveu inúmeros livros sobre esse assunto, entre os quais destaco: Diversidade da vida e A Criação. Neste último, Wilson lança mão de uma estratégia um tanto inusitada: o autor faz um apelo, por meio de cartas, a um pastor que, na verdade, representaria todas as religiões. Wilson acredita que o cerne da questão a respeito da salvação da biodiversidade e, consequentemente, do Planeta, estão no entendimento entre a ciência e a religião, e que não há nada mais prioritário para ambos. Apesar da leitura agradável e do tom conciliador adotado pelo autor, a questão é polêmica, uma vez que a visão acerca da “criação” por parte da ciência e da religião se fundamentam em princípios contrastantes – muito embora não excludentes.

Uma coisa é certa! Como disse uma vez a paraibana, Livre-docente e Professora Titular do Instituto de Química da UNESP, Vanderlan da Silva Bolzani, “O Brasil é o paraíso para se trabalhar com produtos naturais”. Logo, é condição sine qua non preservá-lo para que nunca deixe de ser considerado como tal. Só assim os saberes tradicionais do nosso povo nunca serão esquecidos; pelo contrário: serão, sobretudo, perpetuados.

Referências

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Leia o texto anterior: Carta póstuma a um escritor querido, do mesmo autor

 

Thiago Jucá

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