Celina Turchi: “A ciência se traduz em muito trabalho e também gratificações” Entrevistas

sexta-feira, 18 maio 2018
Foto: Luana França/Nossa Ciência

A epidemiologista da Fiocruz-PE acredita que ciência é lugar de mulher, mas que ainda faltam oportunidades

Em 2016, a epidemiologista goiana Celina Turchi alcançou um dos mais altos patamares da ciência internacional. Ela foi eleita uma das 10 personalidades do ano pela revista Nature, por seu trabalho dedicado a provar a associação entre a microcefalia e a infecção pelo vírus da zika. A pesquisadora do Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães – Fiocruz/Pernambuco e sua equipe ajudaram a nortear o trabalho de prevenção e acompanhamento dirigido a grávidas residentes nas áreas de risco de todo o planeta.

Com pais professores e apreciadores da leitura, Celina sempre leu muito e credita ao contato com os livros o despertar do interesse pela ciência. Mas, foi o ingresso na faculdade de Medicina que a aproximou ainda mais das pesquisas. “Na minha década, e a gente acaba sendo fruto de uma geração, as mulheres estavam começando a entrar nas faculdades de Medicina e esse parecia um desafio importante. Então, acho que foi assim que eu comecei a me interessar pela área das Ciências Biológicas e depois eu percebi que muito mais que o atendimento do dia-a-dia na área médica, eu me interessava pelas perguntas, pelas questões e pelos projetos de pesquisa”, conta.

A pesquisadora lembra que o caminho até o Recife foi longo. Graduada em Medicina pela Universidade Federal da Goiás (UFG), ela fez mestrado em epidemiologia pela London School of Hygiene & Tropical Medicine(UK) e doutorado pelo Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo (USP). Depois de se aposentar da UFG ela veio para o nordeste e hoje atua como pesquisadora da Fiocruz/PE.

“Eu me interessava pelas perguntas, pelas questões e pelos projetos de pesquisa”

Foto: Luana França/Nossa Ciência

“Na London School, conheci um grupo com muitos brasileiros bolsistas, trabalhando na área de doenças infecciosas, alguns eram professores da Universidade Federal de Pernambuco e da Estadual de Pernambuco também. Ao longo desse trajeto de voltar ao Brasil para trabalhar, nós fizemos algumas redes de pesquisa, e realizamos algumas pesquisas juntos. Então, quando eu tive a oportunidade de me aposentar eu já fazia parte de uma rede de pesquisadores e foi por aí que vieram os convites para trabalhar aqui em Pernambuco. Primeiro, eu trabalhei como professora visitante na universidade federal, a gente também montou junto com o Instituto de Avaliação de Tecnologia em Saúde (IATS) uma gestão para avaliação de tecnologia em saúde. E por fim a Fiocruz também oportunizou uma bolsa de pesquisador sênior e foi aqui que eu estava trabalhando com esse grupo quando ocorreram os primeiros casos de microcefalia e tivemos essa possibilidade de atuar em grupo”, relata.

Personalidade da ciência

Em 2016, ao ser eleita uma das 100 personalidades mais importantes da ciência, pela revista Nature, Celina Turchi reforçou a importância do trabalho do grupo de pesquisadores de Pernambuco. Apesar da surpresa, ela ficou muito feliz com o título e por fazer parte desse grupo que se esforçou para conhecer e entender o que estava acontecendo de novo com as crianças que tinham microcefalia no ano de 2015-2016.

“A manutenção de laboratórios, de institutos de pesquisa, a formação de pessoal em todas as áreas, mas principalmente na área das doenças infecciosas, é necessária, faz parte da segurança do país”

Foto: Luana França/Nossa Ciência

De acordo com a pesquisadora, o evento inusitado de epidemia de proporções enormes que se verificou não ser uma epidemia local e evoluiu para uma pandemia, exigiu um trabalho conjunto em busca de uma resposta rápida. “Coube aos institutos de pesquisa junto com os serviços públicos de atendimento e os gestores de saúde terem essa visão para dar uma resposta. E os institutos do Brasil se mostraram com credibilidade para trabalharem neste campo com qualidade, com parcerias internacionais, num curto espaço de tempo. Por esses aspectos eu fiquei muito feliz por esse reconhecimento, mas entendendo que isso é uma rede, é um grupo e que todos nós tivemos a mesma participação”, ressalta.

Para Celina Turchi, esse esforço conjunto que produziu uma resposta rápida é um exemplo de como a ciência brasileira é capaz e merece ser entendida como essencial para o desenvolvimento do país. Segundo ela, a sociedade já entende a importância da ciência e da saúde, principalmente nos momentos de crise. E para produzir resultados rápidos e confiáveis outras ações são necessárias.

Foto: Luana França/Nossa Ciência

“A manutenção de laboratórios, de institutos de pesquisa, a formação de pessoal em todas as áreas, mas principalmente na área das doenças infecciosas, é necessária, faz parte da segurança do país. Nós temos, por experiência e por histórico que a urbanização, as mudanças, a mobilidade populacional, esse novo formato de comunidade ela traz essa possibilidade dessa [microcefalia] e de outras doenças infecciosas que tem esse potencial de difusão. E nós precisamos ter propostas, precisamos ter os institutos prontos para responder a esses eventos que não são tão previsíveis assim e nem sabemos quais serão os próximos”, alerta a epidemiologista.

Ciência é lugar de mulher

No dia 8 de março deste ano, Celina Turchi foi convidada a ir à Câmara dos Deputados, onde nunca tinha entrado. Ela conta que lá viu uma militante com um cartaz onde se lia: “Lugar de mulher é onde ela quiser estar”. Impactada pela frase, a pesquisadora acredita que a ciência sim é um lugar onde a mulher pode estar se ela quiser e se for a vocação, o desejo dela, mas ainda faltam oportunidades.

Foto: Luana França/Nossa Ciência

“As mulheres têm menos oportunidades talvez devido a função familiar que ocupam. É muito comum a gente ver que na linha de vida das mulheres cientistas, elas muitas vezes tiveram que parar porque tiveram filhos, não tinham creches adequadas, então existem esses hiatos. Logo, o histórico de produção científica de uma mulher não consegue ser tão volumoso quanto de um homem devido às características sociais”, opina.

No entanto, o cenário científico vem mudando. A pesquisadora da Fiocruz-PE revela que do ponto de vista de inserção, a universidade e os institutos de pesquisa são locais excelentes, e que as mulheres tem uma capacidade de produção científica, de incorporação nas equipes que tem sido muito valorizada, tanto nos laboratórios de área básica, quanto nas pesquisas de campo.

“O histórico de produção científica de uma mulher não consegue ser tão volumoso quanto de um homem devido às características sociais”

Com olhar otimista, ela acredita que profissionalmente a ciência é uma boa escolha para os jovens que estão ingressando no mercado de trabalho. “A todos que tem o desejo de conhecer áreas ou explorar novos horizontes, a ciência é realmente um campo muito interessante, que possivelmente se traduz em muito trabalho, mas também em muitas gratificações tanto do ponto de vista profissional como pessoal. Eu recomendo”, afirma.

Mônica Costa e Edna Ferreira

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