
Na medicina consideramos que algo está anormal quando há um aumento ou uma redução de uma determinada substância, como um hormônio, ou um também de um comportamento, como por exemplo a alimentação. É claro que para ser considerado uma doença se faz necessário que este aumento ou redução prejudique a vida da pessoa, caso contrário, não será considerada como uma doença.
No caso do sono, atualmente, temos critérios para diagnosticar os seus distúrbios e por isso temos uma classificação internacional dos distúrbios do sono. Temos por exemplo as insônias, que estão relacionadas a uma redução ou incapacidade de iniciar, manter o sono, mas também temos a hipersonias, onde as pessoas apresentam um excesso de sono. Já as parassonias são o aparecimento de comportamentos anormais enquanto estamos dormindo, o que inclui os pesadelos, terror noturno, sonambulismos etc.
Sonho épico
Em um recente artigo científico, coordenado pelo pesquisador francês Pierre A. Geoffroy do Institute for Cellular and Integrative Neurosciences da Universidade de Strasbourg, França, há uma descrição de uma nova proposta de distúrbio de sono que é uma condição clínica emergente chamada de hiperonirismo, que também é conhecida como sonho épico. Este distúrbio é caracterizado por uma atividade onírica excessiva, contínua e exaustiva. Através do estudo de quatro casos, os autores demonstram que esses pacientes sofrem de fadiga diurna severa e prejuízos cognitivos, sentindo que o cérebro nunca descansa durante a noite.

No artigo os autores destacam que, embora as avaliações objetivas do sono costumem ser normais, a experiência subjetiva de excesso de sonhos, que os autores chamam de “transbordamentoonírico“, é debilitante e distinta dos distúrbios de pesadelo convencionais. Diante da falta de reconhecimento nos manuais atuais, os pesquisadores propõem novos critériosdiagnósticospreliminares para identificar a patologia na intersecção entre a psiquiatria e a medicina do sono. O objetivo final é fomentar novas pesquisas sobre os mecanismosneurobiológicos causadores dessa “tirania dos sonhos” e desenvolver tratamentos eficazes para melhorar a qualidade de vida dos afetados.
Este quadro clínico do hiperonirismo tem sido descrito na literatura como “sonho épico”, é um fenômeno clínico emergente caracterizado por uma atividade onírica excessiva, vívida, invasiva e contínua. O resultado desta condição em um sono não reparador e fadiga diurna crônica, sendo frequentemente descrita pelos pacientes como a sensação de que o cérebro nunca para à noite.
Segundo os critérios diagnósticos preliminares propostos, essa experiência de transbordamento de sonhos deve ocorrer pelo menos uma vez por semana durante um mínimo de três meses para ser classificada como um transtorno. Além do cansaço crônico, o hiperonirismo pode causar prejuízos significativos em diversas áreas, incluindo redução da atenção, ineficiência cognitiva, alterações de humor e sofrimento emocional diário. Por vezes, a experiência é tão intensa que o paciente tem dificuldade em distinguir o que foi sonhado de memórias reais da vida de vigília.
Não é pesadelo
Embora possa parecer semelhante a distúrbios comuns do sono, os pacientes diagnosticados com hiperonirismo distinguem claramente a sua experiência dos pesadelos. A diferença fundamental entre eles reside no seguinte:
- Valência Emocional x Frequência: O transtorno de pesadelos é definido predominantemente pelo conteúdo de valência emocional negativa (medo, aflição, terror). No hiperonirismo, a queixa central não é o conteúdo dos sonhos em si, mas sim a sua frequência excessiva, continuidade e natureza invasiva, independentemente de os sonhos serem agradáveis, neutros ou desagradáveis (disfóricos).
- A Origem da Exaustão: Em vez de acordarem aterrorizados por um enredo assustador, a exaustão dos pacientes com hiperonirismo deriva de um esforço cognitivo noturno ininterrupto. Os sonhos não são necessariamente negativos, mas o seu caráter contínuo, implacável e intenso os torna mentalmente exaustivos.
Um detalhe clínico fascinante destacado nas fontes é que as investigações objetivas (como exames de polissonografia) de indivíduos com hiperonirismo costumam apresentar resultados amplamente normais. Isso sublinha um descompasso considerável entre a intensa vivência subjetiva dos pacientes de uma mente que trabalha a noite toda e as medidas convencionais que não conseguem captar as alterações na fisiologia do sono, sugerindo que o transtorno atua na fronteira entre a medicina do sono e a psiquiatria.
Devido à discrepância entre a intensa vivência subjetiva dos pacientes e os resultados frequentemente normais em exames como a polissonografia, o diagnóstico do hiperonirismo é eminentemente clínico. Ele se baseia na avaliação detalhada das queixas do indivíduo, de acordo com critérios diagnósticos operacionais preliminares propostos na literatura para reconhecer o transtorno como uma entidade clínica distinta.
Esses critérios de avaliação são divididos em quatro domínios principais:
- Sintomas Noturnos: O paciente deve apresentar queixa recorrente de atividade onírica excessiva, ocorrendo pelo menos uma vez por semana durante um mínimo de três meses. Os sonhos precisam ser descritos como prolongados, vívidos, invasivos e contínuos, independentemente da sua valência emocional (se são agradáveis, neutros ou disfóricos). Um critério opcional de apoio é a dificuldade do paciente em distinguir o conteúdo dos sonhos de memórias reais da vida de vigília (o que os autores chamam de “transbordamento” dos sonhos para a vida desperta).
- Consequências Diurnas: É obrigatório o relato de sono não reparador e fadiga diurna que não possam ser justificados por tempo insuficiente na cama. Esse cansaço crônico deve estar associado a prejuízos em pelo menos uma das seguintes áreas: atenção, memória ou concentração; regulação emocional e estabilidade do humor; ou funcionamento psicossocial e ocupacional.
- Critérios de Exclusão: O médico deve garantir que os sintomas não sejam totalmente explicados por outras condições. Deve-se excluir o transtorno de pesadelos (onde a emoção negativa predomina sobre o excesso de frequência), o transtorno comportamental do sono REM (pois no hiperonirismo não há a “encenação” comportamental e física dos sonhos), a narcolepsia, a hipersonia idiopática e as parassonias provocadas de forma isolada pelo uso de medicamentos.
- Avaliação de Comorbidades: Reconhece-se que o hiperonirismo pode ocorrer de forma simultânea a outros transtornos psiquiátricos (como ansiedade e depressão) ou distúrbios do sono (como insônia ou apneia). Contudo, para o diagnóstico ser firmado, a queixa de atividade excessiva de sonhos deve representar um problema autônomo e clinicamente significativo, não se resumindo apenas a um sintoma secundário a essas outras doenças.
Protocolos de tratamento
Em decorrência de ser um distúrbio de sono novo, as opções terapêuticas atuais para o hiperonirismo ainda são bastante limitadas. Como o transtorno está apenas começando a ser definido clinicamente, ainda não existe um tratamento estabelecido que seja universalmente eficaz para interromper o excesso de sonhos.
Atualmente, as orientações são para que os médicos adaptem estratégias usadas para outros distúrbios, como o transtorno de pesadelos, mas os resultados clínicos costumam ser mistos ou insatisfatórios:
- Terapias Comportamentais e Psicológicas: A Terapia de Ensaio de Imagens (IRT – do inglês Imagery Rehearsal Therapy) e outras intervenções psicoterapêuticas direcionadas mostram eficácia para pesadelos e estão sendo avaliadas para o hiperonirismo. Outra sugestão e a Terapia Cognitivo-Comportamental para Insônia (TCC-I), o que reduziu o impacto emocional e a fadiga diurna. As intervenções comportamentais como a terapia de restrição de sono também se mostraram ineficazes em alguns casos.
- Abordagens Farmacológicas: O uso de medicamentos como a prazosina é sugerido como uma possibilidade para avaliação futura. Além disso, a modulação farmacológica do sono REM é considerada uma via potencial para o tratamento, embora seja ainda uma área pouquíssimo estudada.
Em resumo, embora as terapias disponíveis possam ajudar a aliviar algumas condições associadas, como ansiedade ou insônia leve, elas frequentemente falham em suprimir a própria atividade onírica contínua do hiperonirismo, o que ressalta a necessidade de mais pesquisas para o desenvolvimento de tratamentos direcionados.

A Medicina do Sono baseada em ciência é assim, dinâmica e sempre apresentando novidades e novos desafios. Aqui descrevemos o hiperonirismo, também conhecido como sonho épico, e que em decorrência dos transtornos diurnos provocados está sendo proposto como um novo tipo de distúrbio do sono. É claro que necessitamos de novos estudos. Todavia, se você se tem um sono não reparador e fadiga diurna e que esse cansaço crônico deve estar associado a prejuízos na sua atenção, memória ou concentração, ou no seu estado emocional e estabilidade do humor, é importante que você questione seu médico sobre um possível hiperonirismo. Se você é médico, coloque o sonho épico como uma possível patologia dentro da sua lista de diagnóstico de distúrbios do sono.
Dormir e sonhar é necessário e saudável, mas o excesso pode ser um sinal de alerta. Afinal, como dizia Paracelso (1493–1541), um médico suíço-alemão, frequentemente considerado o “pai da toxicologia”: Sola dosis facit venenum (que em português fica: o que faz a dose é o veneno).
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John Fontenele Araujo é professor titular aposentado da UFRN e professor colaborador da UFDPar.










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