Indígenas, negros e LGBTs na pauta da Uneal Entrevistas

quinta-feira, 14 dezembro 2017
Cerimônia de colação de grau da turma de professores indígenas da Uneal nos cursos de Ciências Biológicas, Pedagogia, Letras e História

Jairo Campos, reitor da Universidade Estadual de Alagoas ressalta que a instituição foi a primeira do estado a formar no ensino superior uma turma de professores indígenas

A Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) estabeleceu a política multicultural nos últimos sete anos como ponto de partida e de chegada das ações acadêmicas, do ensino, da pesquisa e da extensão, anuncia o reitor da instituição pela segunda vez, Jairo José Campos, que recebeu ameaças morte após anunciar que o Conselho Superior da instituição, aprovou a concessão do título de Doutor Honoris Causa ao ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva.

“Fomos a primeira universidade em duzentos anos de Alagoas que formou a primeira turma de professores indígenas”, destaca o reitor. A Uneal também foi primeira instituição estadual de ensino superior a formar uma turma de professores do campo, também realizou o pioneiro projeto Xangô Reza do Alto cuja pauta discute o respeito à diversidade religiosa, às religiões de matriz africana, as paradas LGBTs do Estado. “Os nossos profissionais vão palestrar, já fui padrinho de paradas gays em Maceió, em Arapiraca, em União dos Palmares e em outros interiores”.

Jairo Campos, Reitor da Uneal

Com uma trajetória percorrida no campo dos direitos humanos, o reitor relata que a Uneal possui vários grupos de pesquisa coordenados por pesquisadores. E as atividades e demandas costumam surgir a partir desses núcleos de pesquisa, conta ele. Como gestor, Jairo José Campos diz entender a importância de chegar junto a determinados povos tradicionais, sobretudo índios e negros, e nesse entendimento, tentar com ações e projetos, corrigir determinadas lacunas e hiatos construídos ou deixados em branco, silenciados junto a determinados segmentos da sociedade. Tudo isso resulta em ações concretas.

Segundo o reitor, nos governos Lula e Dilma Rousseff, houve financiando para muitos convênios de projetos e ações com recursos do governo federal e da universidade, na medida que todos eles tiveram contrapartidas. Hoje, reforça ele,  graças a essa pauta pública, clara, de ações junto a esses povos como reservas de vagas para alunos de escola pública, aprovação de resolução que autoriza o nome social para o público LGBT, a Uneal é reconhecida em Alagoas e no Brasil como sendo uma instituição multicultural, a terceira no país a formar uma turma de professores indígenas. Por muito tempo, explica, esses segmentos da população ficaram fora das políticas públicas.

O conjunto de pesquisas e publicação de livros com esses resultados também têm sido uma constante, especifica o reitor. Junto com o professor Douglas Tenório, historiador de Alagoas,  foram publicados os livros sobre a cultura indígena e a cultura negra em Alagoas com artigos de professores da Uneal, da Universidade Federal de Alagoas e do Centro Universitário Cesmac. Inicialmente foram publicados pela recém-criada editora da Uneal. As duas edições, sobre os índios e os negros tiveram uma segunda edição pela editora do Senado. Os dois materiais foram reimpressos e reeditados.

Na turma, formaram-se indígenas das etnias Xucueu-Kariri, Tingui-Botó, Karapotó Plak-ô, Kariri-Xocó, Koiupanká, Jiripancó e Wassu-Cocal. 

Para o reitor, esse trabalho é importante para contaminar o máximo de pessoas, intelectuais,  e instituições possíveis. Por exemplo, Alagoas recebeu de uma vez só, 80 professores indígenas, formados em Pedagogia, Letras, História e Ciências Biológicas. “A nossa ideia era continuar o ciclo da formação de professores indígenas ofertando as licenciaturas que não foram ofertadas no primeiro momento mas foi quando o governo Temer se instalou, contingenciou recursos, e está esse inferno astral que todo o país tem acompanhado”.

O resultado das ações multiculturais está nas escolas do campo de Alagoas que receberam 60 professores formados com essas especificidades, no levante da autoestima dos povos, por exemplo, das religiões de matriz africana, enumera o reitor. Segundo ele, isso dá uma sensação de estar no caminho certo, colocando a universidade a serviço dos que mais precisam, das parcelas e dos segmentos da população alagoana que historicamente ficou acéfala das políticas públicas. Também traz para a instituição capital político extraordinário, ressalta. “Qualquer luta que a universidade venha a travar estão lá os índios, os gays, os negros, os povos do campo, os movimentos organizados da terra de Alagoas porque eles reconhecem a Universidade Estadual de Alagoas como sendo a única instituição que vem, não só percorrendo esse espaço fazendo pesquisa, pegando informações para a escritura dos nossos papers, dos nossos artigos nos congressos nacionais e internacionais, mas com a devolução de ações concretas”.

No momento em que concedeu a entrevista ao Nossa Ciência, em 17 de novembro, Jairo Campos estava na região de aborígenes, no Canadá, a convite da Universidade de Concordia palestrando para várias universidades, vários programas de pós-graduação, mostrando a experiência da Uneal com a formação de professores indígenas e o avanço da legislação no sentido de reparar essa falta de políticas públicas ao longo dos anos para os povos, sobretudo, os indígenas. No Canadá, ele também teve contatos com gestores indígenas e os próprios índios.

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Silvio Andrade

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