Ao acessar o site da Faculdade de Enfermagem Nova Esperança de Mossoró (Facene), o leitor verá um banner que informa que o curso de Medicina tem nota máxima no MEC, com o algarismo 5 em destaque. No entanto, na avaliação feita pelo Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed), os estudantes desse curso obtiveram nota 2. Trata-se da mesma faculdade em que, recentemente, um adolescente participou da festa de formatura dos futuros médicos usando um uniforme nazista.

Realizado pelo Ministério da Educação (MEC), o Enamed avaliou 351 cursos de Medicina em todo o país. Os resultados revelam como está a formação de médicos no Brasil. A prova com 100 questões de múltipla escolha foi aplicada em outubro do ano passado, em 200 cidades. Do conteúdo das provas constaram as matérias previstas nos cursos de medicina: clínica geral, saúde mental, ginecologia e obstetrícia, cirurgia, pediatria e saúde da família.
No Rio Grande do Norte, seis faculdades de medicina foram avaliadas. Duas alcançaram a nota máxima e ambas são da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). A nota 4, ficou para a Universidade Federal Rural do Semi-Árido (Ufersa), a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), ambas em Mossoró e a Universidade Potiguar (UNP), que é privada. O único curso considerado insatisfatório foi o da Facene.
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Nota máxima
O desempenho do curso da Escola Multicampi de Ciências Médicas (EMCM/UFRN), sediado em Caicó, está diretamente ligado à política de interiorização da formação médica implementada a partir de 2014, no contexto do Programa Mais Médicos. Segundo o diretor da unidade, George Azevedo Dantas, o projeto nasceu com o objetivo de reduzir desigualdades regionais históricas no acesso à formação médica. “Estamos falando de um movimento nacional que buscou ampliar vagas, fortalecer o SUS e levar a formação médica para o interior do país, com forte integração à rede de saúde local”, explica.

Ao longo de 11 anos, a EMCM se consolidou como um polo de formação em saúde no Seridó, ofertando não apenas a graduação em Medicina, mas também programas de Residência Médica em Clínica Médica, Cirurgia e Medicina de Família e Comunidade, além de residências multiprofissionais e um mestrado profissional. Para Dantas, a nota 5 no Enamed representa o reconhecimento de um projeto pedagógico inovador, construído coletivamente. “Esse resultado reflete o trabalho cotidiano de docentes, técnicos, estudantes, gestores da saúde e da própria comunidade, que abraçou a Escola e ajudou a construir essa experiência no interior do estado”, afirma.
O coordenador do curso de Medicina mais antigo do Estado, André Gustavo Pires de Sousa, também ressalta o caráter coletivo do resultado. A Faculdade de Medicina da UFRN foi criada há 70 anos, em 1955, em Natal. Ele lembra que menos de 50 dos mais de 350 cursos avaliados no país atingiram a nota máxima. “É um desempenho excepcional, que envolve desde a administração central da universidade até professores, técnicos, estudantes e trabalhadores terceirizados. Cada um teve papel fundamental para que esse resultado fosse alcançado”, avalia.
Sousa aponta que o conceito máximo atribuído pelo Enamed reafirma o papel estratégico da UFRN no desenvolvimento do Rio Grande do Norte. “A universidade devolve à sociedade médicos e médicas com formação sólida, preparados para os desafios do mercado de trabalho e, sobretudo, comprometidos com a saúde e o bem-estar da população”, destaca. Ele acrescenta que o reconhecimento fortalece a credibilidade institucional e garante aos estudantes um ambiente de ensino de alta qualidade.
Quase lá
Além da UFRN, a Ufersa também apresentou desempenho expressivo, alcançando nota 4 no exame. Criado em 2016, o curso integra o conjunto de escolas médicas implantadas a partir da expansão promovida pela Lei do Mais Médicos. De acordo com a vice coordenadora da Comissão de Residência Médica da instituição, Andrea Taborda Ribas da Cunha, o resultado foi recebido com entusiasmo. “Tivemos 89,2% dos estudantes com proficiência, chegando muito perto da nota 5. Consideramos esse desempenho excelente e um forte indicativo da qualidade da formação oferecida”, afirma.

Cunha destaca que o curso adota metodologias ativas, com inserção dos estudantes na comunidade desde os primeiros períodos, o que contribui para um perfil profissional mais humanizado e alinhado às necessidades do SUS. “Nossos alunos vivenciam a rede de saúde desde cedo, compreendem melhor as demandas da população e desenvolvem maior proatividade na resolução de problemas”, explica. Segundo ela, o bom desempenho dos egressos em programas de residência médica em todo o país reforça a efetividade do modelo adotado.
Apesar dos avanços, a diretora aponta desafios permanentes, como a ampliação de campos de estágio, o fortalecimento das parcerias com a rede de saúde e a expansão da pós-graduação em residência médica. A Ufersa, inclusive, teve recentemente aprovado seu primeiro programa de residência médica, em Pediatria, com início previsto para 2027. “Manter a qualidade exige acompanhamento constante, investimentos e adaptação às novas diretrizes curriculares”, ressalta.
A UERN, cuja Faculdade de Ciências da Saúde foi criada em 2004 — a primeira escola médica de Mossoró —, também obteve nota 4 no Enamed. Para a diretora da unidade, Allyssandra Maria Lima Rodrigues, o resultado é motivo de comemoração e responsabilidade. “Temos mais de 625 médicos formados e, nesta avaliação, mais de 90% dos nossos estudantes atingiram proficiência. Isso mostra a seriedade do trabalho que vem sendo desenvolvido”, afirma.

Ela ressalta o fortalecimento institucional da UERN, que atualmente conta com três programas de residência médica — em Ginecologia e Obstetrícia, Medicina de Família e Comunidade e, em breve, Clínica Médica — além de programas de mestrado e doutorado. Entre as dificuldades enfrentadas, ela aponta a disputa por campos de estágio, diante do crescimento do número de escolas médicas no país. “Apesar disso, conseguimos manter a qualidade por meio de parcerias com hospitais municipais, estaduais e federais”, observa.
Nordeste
Dos 351 cursos de medicina avaliados no Enamed, 86 escolas estão localizadas na Região Nordeste. A observação dos números aponta que 16% das instituições nordestinas obtiveram nota 5 (14 cursos); 36%, nota 4 (31 cursos); 17%, nota 3 (15 cursos); e 30%, nota 2 (29 cursos). Esse último percentual equivale a 7,12% do total nacional, índice inferior ao registrado na Região Sudeste, que apresentou 8,26% de cursos com nota 2.

Das 14 notas máximas (5) obtidas no Nordeste, oito são de instituições federais (na Bahia, no Ceará, em Pernambuco, no Rio Grande do Norte e em Sergipe), cinco de instituições estaduais (na Bahia, no Ceará e em Pernambuco) e uma corresponde a uma instituição privada (no Ceará). Percentualmente, esses números repetem-se no plano nacional. Nenhuma instituição sediada nos estados da Paraíba, Alagoas, Maranhão e Piauí obteve nota 5.
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