Engenheirar é construir soluções para problemas por meio da aplicação do arcabouço de conhecimentos construído pelas ciências exatas. Um país que negligencia sua engenharia está fadado a ser prateleira de produtos importados, que vão das vacinas aos aparelhos celulares, das grandes obras aos pequenos componentes eletrônicos.
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E se um dos pés da engenharia está na academia, com acesso direto aos laboratórios de física, química, biotecnologia (entre outros), o outro pé precisa estar firme na indústria, pois a ponte que a engenharia constrói parte da necessidade do mundo real que se alimenta dos dados ofertados pela ciência para conceber suas soluções.
Um país com base industrial enfraquecida tende a formar engenheiros com viés bancário: eles estão acostumados a fazer provas e resolver problemas de livro, muitos datados do século passado. Estes estudantes concluem suas graduações sem desenvolver um simples projeto e não conseguem entender, minimamente, os conceitos de protótipo e de produto.
Toda essa dificuldade é ainda mais reforçada pelos altíssimos índices de evasão. São problemas de formação nas disciplinas básicas (química, física e matemática) que resultam em elevada taxa de reprovação já no primeiro período do curso, apontando para a necessidade de atualização na própria matriz curricular.
Engenharia não pode negar a tecnologia
Aliás, como o conceito de engenharia avançou dentro da universidade e como mudou no mundo nestes últimos 50 anos?
Por ter cunho tecnológico, um curso de engenharia não pode negar a própria tecnologia. Parece básico, porém ainda não se sabe como lidar com a inteligência artificial. Como aplicar uma prova? Construindo uma gaiola de Faraday, desligando celulares, tomando smartwatches… A informação está tão acessível e fácil de usar que é difícil avaliar o conhecimento de nossos estudantes.
E aqui cabe uma provocação: o que é o conhecimento desejável para um engenheiro?
O isolamento do mundo digital para reprodução fiel dos profissionais de 1970, ou alguém treinado a combinar o que não sabe com o mundo das IAs?
Ora, se engenheirar é conceber soluções e os moldes das provas convencionais em papel e caneta estão em declínio, que tal refazer a avaliação do engenheiro do século XXI? A resposta é simples: foco em projetos. Se o conteúdo está na IA, chegou a hora de nossos estudantes explorá-la e acelerar o processo de produção de protótipos e produtos que não estão lá. Este é o papel da enciclopédia ( a IA) – organizar o conhecimento. E o papel do engenheiro é processar tudo isso e chegar às soluções. É fundamental estruturar a base de novos engenheiros que façam menos provas e tenham muito mais tempo de bancada para praticar engenharia. E, para isso, será necessário fundir disciplinas, dedicar mais tempo de laboratório, ter melhores laboratórios e fazer nossos estudantes explorarem aquilo que a IA não tem: criatividade.
Com isso, melhores índices de aprovação surgirão, pois o futuro de profissionais não será construído por blocos disciplinares, mas sim por práticas que constroem a resiliência e o desejo de ser engenheiro. Como dizia o mestre Paulo Freire: “A alfabetização é mais, muito mais, do que ler e escrever. É a habilidade de ler o mundo.” Transpondo para nosso tema, poderíamos reescrevê-lo dizendo: Fazer engenharia é mais, muito mais, do que colecionar aprovações em disciplinas que não dialogam entre si. É a capacidade de engenheirar desde o primeiro dia do curso.
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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência










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