
O Nordeste voltou a ocupar posição central no debate ambiental brasileiro após a divulgação do Relatório Anual do Desmatamento no Brasil (RAD 2025), produzido pela rede MapBiomas. Embora o país tenha registrado uma redução de 20,6% na área total desmatada em relação a 2024, o menor índice nacional dos últimos seis anos, a região continua concentrando os maiores focos de supressão da vegetação nativa, especialmente na Caatinga e na região do MATOPIBA. O Portal Nossa Ciência leu o RAD 2025 e acompanhou as publicações oficiais dos governos estaduais acerca dos dados do relatório.
Os governos estaduais destacaram avanços em ações de monitoramento e fiscalização ambiental. Entre os estados que participaram da Operação Caatinga Resiste, o Rio Grande do Norte ressaltou a importância da atuação integrada entre órgãos ambientais, Ministério Público e forças de fiscalização para combater o desmatamento ilegal no semiárido. A mobilização ganha relevância diante dos dados do relatório, que mostram que 99,7% de toda a área desmatada registrada no estado ocorreu na Caatinga, reforçando a necessidade de proteção do principal bioma potiguar.
No Maranhão, a Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Recursos Naturais destacou que, apesar de o estado permanecer na liderança nacional em área desmatada, houve redução superior a 50 mil hectares em relação a 2024. Segundo o governo maranhense, o resultado está associado às políticas de prevenção, controle e fiscalização ambiental implementadas nos últimos anos.
Já o governo do Piauí enfatizou o fortalecimento das ações de combate ao desmatamento ilegal, a ampliação dos sistemas de monitoramento e os investimentos em fiscalização e gestão ambiental. O estado aparece em segundo lugar no ranking nacional de desmatamento, mas afirma ter avançado em mecanismos de controle e transparência ambiental.
Os dados mostram que Maranhão, Piauí e Bahia lideraram o ranking nacional de desmatamento em 2025. O Maranhão permaneceu na primeira posição, com 152.294 hectares desmatados, apesar de registrar redução de 29,3% em comparação ao ano anterior. O Piauí aparece em segundo lugar, com 150.001 hectares, seguido pela Bahia, com 110.616 hectares. Juntos, os três estados responderam por uma parcela significativa da perda de vegetação nativa registrada no país.
Além da liderança em área total desmatada, Maranhão, Piauí e Bahia também apresentaram as maiores médias diárias de desmatamento do Brasil ao longo de 2025, evidenciando a continuidade da pressão sobre os ecossistemas nordestinos.
Plantio de commodities
Diversos estudos do MapBiomas, da Embrapa, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), do Observatório do Clima e de universidades apontam que o principal fator associado ao desmatamento no MATOPIBA é a expansão da fronteira agropecuária sobre áreas de Cerrado e, em algumas regiões, de transição com a Caatinga.

A região formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia respondeu por 392.929 hectares desmatados em 2025, o equivalente a 40% de toda a área desmatada no Brasil.
Apesar da redução de 24% em relação ao ano anterior, ainda concentra aproximadamente 70% de todo o desmatamento registrado no Cerrado brasileiro. Nas duas últimas duas décadas, houve aumento do plantio em grandes faixas de terra de soja, milho e algodão, as chamadas commodities agrícolas. Grande parte dessa produção é destinada ao mercado externo, especialmente à China, à União Europeia e a países asiáticos. Embora parte da conversão da vegetação ocorra mediante autorizações ambientais, a região concentra um dos maiores conflitos entre produção agrícola mecanizada e conservação ambiental do país.
Pesquisadores e ambientalistas alertam que a contínua substituição do Cerrado por áreas agrícolas tem provocado impactos sobre a biodiversidade, os recursos hídricos e a estabilidade climática regional.
Considerado como a savana mais biodiversa do planeta, o Cerrado abriga nascentes que alimentam importantes bacias hidrográficas brasileiras, incluindo rios que abastecem partes do Nordeste. Entre os impactos mais frequentemente apontados estão a perda de biodiversidade, fragmentação de habitats, redução da recarga de aquíferos, assoreamento de rios, aumento da vulnerabilidade climática e emissões de carbono decorrentes da supressão da vegetação nativa.
Na Caatinga, 20 mil hectares em uma ocorrência
A Caatinga, único bioma exclusivamente brasileiro e predominante no Nordeste, registrou 128.947 hectares desmatados em 2025. Embora o número represente uma redução de 25,9% em relação ao ano anterior, o bioma concentrou 14.838 alertas de desmatamento, equivalentes a 32,1% de todos os alertas emitidos no país.
O maior evento de desmatamento registrado pelo MapBiomas desde o início da série histórica ocorreu justamente na Caatinga. O alerta foi identificado nos municípios piauienses de Canto do Buriti e Tamboril do Piauí, onde foram detectados 20.834 hectares de vegetação nativa suprimida em uma única ocorrência.
Segundo o relatório, a expansão agropecuária continua sendo o principal vetor de transformação da paisagem no semiárido brasileiro.
Para o Rio Grande do Norte, os dados reforçam um desafio específico: praticamente todo o desmatamento registrado no estado está concentrado na Caatinga. O cenário evidencia a vulnerabilidade do bioma e a necessidade de ampliar políticas de conservação, recuperação de áreas degradadas e fiscalização ambiental.
Situação nos outros estados nordestinos
Embora em menor escala, os demais estados nordestinos, fora do eixo MATOPIBA, continuam registrando perdas de cobertura vegetal. O Ceará aparece entre os dez estados brasileiros com maior área desmatada acumulada em 2025. Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Sergipe e Alagoas registraram ocorrências concentradas principalmente na Caatinga e em remanescentes da Mata Atlântica.
No caso do Rio Grande do Norte, o relatório chama atenção para o fato de que 99,7% do desmatamento ocorreu na Caatinga, o maior percentual entre os estados nordestinos analisados. O dado reforça a dependência do estado em relação à conservação desse bioma para a manutenção da biodiversidade, da segurança hídrica e da resiliência climática regional.
Em Alagoas, praticamente todo o desmatamento identificado ocorreu na porção do território inserida na Caatinga. Em Sergipe, o percentual alcançou 91,6%.
Fiscalização
O relatório também destaca os resultados da Operação Caatinga Resiste, iniciativa coordenada pelos Ministérios Públicos estaduais para ampliar a fiscalização ambiental no semiárido brasileiro.
A ação reuniu órgãos ambientais e instituições de fiscalização de Alagoas, Bahia, Ceará, Paraíba, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Sergipe e Minas Gerais. Durante a operação, foram fiscalizados 324 alertas de desmatamento, identificando 10.434 hectares de vegetação nativa ilegalmente suprimidos. Mais de 8 mil hectares foram embargados e aproximadamente R$ 27 milhões em multas foram aplicados.
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