
O jornalismo muda de plataformas, linguagens e rotinas, mas continua sendo construído a partir da experiência humana. Em um cenário marcado pela velocidade das transformações tecnológicas e pela reconfiguração constante do mercado de trabalho, iniciativas acadêmicas capazes de registrar trajetórias profissionais e aproximar estudantes da realidade da profissão ganham relevância ainda maior. É nesse contexto que surge o e-book Jornalistas em Assessorias de Imprensa: Experiências do RN, lançado pela Coleção Jornalismo Potiguar, projeto vinculado ao curso de Comunicação Social – Jornalismo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Resultado do trabalho desenvolvido por 19 estudantes da disciplina Jornalismo Literário, sob coordenação da professora Socorro Veloso, a publicação reúne relatos de profissionais que construíram suas carreiras na assessoria de imprensa, área que, nas últimas décadas, se tornou um dos principais espaços de atuação para jornalistas no Rio Grande do Norte e em todo o país.
Do analógico ao digital: a reinvenção da profissão
Mais do que registrar histórias individuais, o livro digital cumpre uma função acadêmica estratégica: preservar a memória da comunicação potiguar e transformá-la em material de estudo para as novas gerações. Como destaca a apresentação da obra, o projeto nasce da escuta e do diálogo entre estudantes e profissionais, promovendo um encontro entre diferentes gerações do jornalismo.
O prefácio da obra, assinado pelo jornalista Juliano Freire, define o e-book como um “artefato valioso para estudantes de Jornalismo”, capaz de apresentar lições reais construídas a partir da vivência de profissionais que atuam em um campo cada vez mais dinâmico e desafiador. Para Freire, as histórias reunidas no livro funcionam como complemento à formação acadêmica, aproximando teoria e prática. A importância desse registro se torna ainda mais evidente quando observadas as profundas mudanças ocorridas na profissão nas últimas décadas.
Com mais de 40 anos de atuação na imprensa potiguar, o jornalista Iranilton Marcolino acompanha de perto essa transformação. Para Marcolino, a revolução digital alterou radicalmente o fluxo de produção e circulação das notícias. “O fazer do jornalismo passou por uma transformação profunda, do analógico ao digital. O jornalista que viveu essa transição precisou se reinventar, se atualizar e aprender de novo a trabalhar com o público e a notícia”, afirma.

Segundo Marcolino, a mudança também alcançou a assessoria de imprensa. Se antes a atividade estava concentrada no envio de releases e no relacionamento com as redações, hoje exige domínio de múltiplas áreas da comunicação. “Saber atuar no universo digital passou a ser uma necessidade básica. Ter noções de marketing, publicidade, relações públicas e gerenciamento de crise são atributos importantes”, observa.
Mesmo diante das transformações, ele acredita que a essência do jornalismo permanece inalterada. “A responsabilidade social do profissional, o apego às questões éticas e a busca por difundir informação em favor da transformação positiva da sociedade continuam sendo fundamentais”.
A reflexão sobre as mudanças na profissão também aparece no depoimento de Geider Henrique Xavier, assessor de imprensa da Procuradoria Geral do Estado. Para ele, três fatores redefiniram o trabalho jornalístico nas últimas décadas: a tecnologia, a aceleração do tempo e a ampliação da participação do público. “Tivemos o surgimento da internet, que mudou a forma de contar a vida e de se relacionar entre as pessoas. Além disso, toda informação passou a ser produzida para um consumo cada vez mais imediato”, analisa.
Ao mesmo tempo, Xavier ressalta que algumas competências permanecem indispensáveis, independentemente das ferramentas utilizadas. “Permanece a necessidade de construir um repertório pessoal. O comunicador precisa ter embasamento para falar sobre os assuntos, estudar e aprender continuamente”.
A preocupação com a qualidade da informação também aparece nas reflexões do jornalista Wagner Lopes, assessor de imprensa do Ministério Público Federal no Rio Grande do Norte. Com experiência tanto em redações quanto em assessorias, ele observa que a multiplicação das fontes de informação trouxe oportunidades, mas também desafios para o jornalismo profissional. “Atualmente há desafios maiores, mas também possibilidades melhores. O jornalista passou a ter uma fonte inesgotável de informações e novas formas de acesso ao público”, afirma.
Entretanto, o jornalista alerta para uma lacuna cada vez mais presente na rotina profissional: a falta de contextualização. “Hoje faz muita falta a capacidade de contextualização. Sem conhecimento prévio do assunto, muitas vezes o jornalista não saberá sequer fazer as perguntas certas”. Para Lopes, o diferencial do jornalista continua sendo a capacidade de compreender, interpretar e aprofundar os fatos. “Fazer jornalismo, mesmo rápido e direto, demanda muito conhecimento e disposição por trás quando se visa qualidade”.
Os desafios do Jornalismo contemporâneo
A relevância de iniciativas como a publicação da UFRN também encontra respaldo na análise da presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio Grande do Norte (Sindjorn), Ilana Albuquerque. Pesquisadora das transformações recentes do trabalho jornalístico, ela aponta que o mercado vive um período de profundas mudanças estruturais. “O cenário é de reestruturação profunda, precarização acentuada e deslocamento das formas tradicionais de atuação”, explica.

Segundo a representante sindical, as plataformas digitais passaram a influenciar diretamente as rotinas produtivas da profissão. “Métricas de engajamento, SEO (estratégia de Marketing), algoritmos e ferramentas de monitoramento passaram a funcionar como elementos estruturantes da produção jornalística, disputando espaço com critérios como relevância social e interesse público”.
Para Albuquerque, compreender essas transformações é essencial para a formação dos futuros profissionais, o que reforça o valor acadêmico de projetos que aproximam estudantes da realidade do mercado.
Além dos três entrevistados pelo Portal Nossa Ciência, o e-book reúne reflexões de outros profissionais que ajudam, com as suas experiências, a compreender os múltiplos desafios da assessoria de imprensa contemporânea.
A jornalista Ângela Bezerra destaca que o trabalho é fundamentado no relacionamento e na ética. Cione Cruz lembra que o compromisso com a verdade deve prevalecer mesmo diante de notícias desfavoráveis às instituições. Dionísio Outeda chama atenção para a necessidade de uma estratégia ampla de comunicação, enquanto Gustavo Farache reforça a importância do respeito mútuo entre assessores e jornalistas.
As mudanças tecnológicas também aparecem nos relatos de Juliska Azevedo, que compara o ambiente atual a um “oceano onde todo mundo nada ao mesmo tempo”, e de Mônica Costa, que alerta para o desaparecimento das fronteiras entre vida pessoal e profissional provocado pelas redes sociais. Já Maiara Cruz sintetiza uma das dimensões mais humanas da atividade: “Assessoria de imprensa é conectar histórias, é falar de vida real”. Este repórter também relatou a própria experiência de mais de 30 anos de atuação em Assessoria de Comunicação.
Ao reunir essas vozes, a publicação ultrapassa a função de simples registro biográfico. O livro transforma experiências profissionais em conhecimento compartilhado, preserva a memória da imprensa potiguar e oferece aos estudantes uma oportunidade rara de dialogar diretamente com quem construiu e continua construindo a comunicação no estado. Em um momento em que o jornalismo enfrenta desafios relacionados à desinformação, à precarização do trabalho e às constantes mudanças tecnológicas, iniciativas como a Coleção Jornalismo Potiguar reafirmam o papel da universidade como espaço de produção de conhecimento, preservação da memória e formação crítica dos profissionais que irão atuar nas redações, assessorias e demais ambientes da comunicação contemporânea.
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