A ciência como porta-estandarte do setembro AmarElo Coluna do Jucá

quinta-feira, 5 setembro 2019

O suicídio é um problema de saúde pública em escala global cujos efeitos se fazem sentir não apenas sobre as vítimas e seus familiares, mas sobre toda sociedade

O mês de setembro é marcado pelas campanhas de prevenção ao suicídio. O amarelo, cor-símbolo desse mês, é uma espécie de porta-estandarte das campanhas de conscientização. O suicídio é um problema de saúde pública em escala global. Seus efeitos e as formas de lidar com ele são muito diferentes, dependendo do local em que a pessoa está. Sob essa perspectiva, engana-se quem pensa que o atentado contra a própria vida afeta apenas o indivíduo que o pratica. Afeta famílias. Afeta a sociedade.

Para se ter dimensão da gravidade e amplitude desse problema, cerca de 800.000 pessoas morrem anualmente. Apenas nos EUA, mais de 47.000 pessoas se suicidaram no ano de 2017. Destas, 51% fizeram uso de arma de fogo. Em território americano, o suicídio é a segunda principal causa de morte de pessoas com idade entre 10 e 34 anos. Considerando-se toda a faixa etária, ele aparece como a décima principal causa de morte, de acordo com dados do panorama global sobre o suicídio publicado na revista Science.

Os seres humanos desenvolveram defesas naturais contra o suicídio? Fonte: N. CARY/SCIENCE/doi:10.1126/science.aaz2157

Ainda de acordo esses dados, a Groenlândia tem a taxa mais alta de suicídios do mundo, embora vivencie o decréscimo mais rápido dessa taxa. Já a Dinamarca, outrora uma das líderes mundiais desse ranking sombrio, é tida, hoje, como exemplo pelas iniciativas bem-sucedidas de prevenção ao suicídio. Esses dados também mostram que os homens são muito mais propensos a morrer por suicídio do que as mulheres. Esse panorama global apenas reforça o quão desafiador é combater esse problema.

 

Diante desse cenário, qual o papel da ciência? A depender de quem olha para os números, ela pode ser vista diante das lentes do fracasso ou do sucesso. Nunca esqueci quando numa aula de Fisiologia Humana, ainda na época da graduação, um colega perguntou para a professora o que era a memória. À época, fiquei tão intrigado diante daquela pergunta inesperada, instigante e inteligente, que nem lembro o que a professora respondeu. Mas lembro que fiquei consternado ao tentar imaginar quão complexas poderiam ser a mente humana, a química cerebral e a neurobiologia.

O suicídio é um problema de saúde pública em escala global

Não tenho a pretensão de tentar responder à questão proposta anteriormente. Outra mais factível e inevitável de se fazer, contudo, é a seguinte: à medida que avançarmos em campos científicos como da mente humana, da química cerebral e da neurobiologia, estaremos mais propensos a responder o que leva um indivíduo a querer encurtar a própria vida? Dentre os vários textos publicados na Science, na semana passada, na secção dedicada ao suicídio, um deles (Os seres humanos desenvolveram defesas naturais contra o suicídio?) parece bem pertinente para a questão proposta aqui.

A autora, Elizabeth Culotta, advoga a favor do psicólogo evolutivo Nicholas Humphrey, professor Emérito da London School, e dos esforços da biologia evolutiva e da neurobiologia na tentativa de oferecer pistas para combater o suicídio. O ponto alvo em torno dessa questão reside na pergunta retórica lançada logo no início do texto, a qual remete a Charles Darwin, em um trecho de A Origem das Espécies, que diz o seguinte: “A seleção natural nunca produzirá em um ser algo prejudicial para si mesma”. Nicholas Humphrey, contudo, defende que a Seleção Natural não necessariamente atua sempre nesse sentido. Aplicando um olhar evolutivo aos dados epidemiológicos e às culturas humanas, ele concluiu que o suicídio é provavelmente o subproduto trágico de uma adaptação vital – o cérebro humano sofisticado.

Confesso que é uma questão interessante e igualmente intrigante. E como adverte o próprio Humphrey, tais argumentos podem até certo ponto colidir com a visão médica de que o suicídio é causado principalmente por doenças psiquiátricas. Elizabeth Culotta ainda menciona algumas concepções do psicoterapeuta Clifford Soper, o qual comunga de ideias semelhantes às de Humphrey, como a que diante de uma situação de dor agonizante, uma mente sofisticada pode pensar na morte como uma fuga. O texto menciona ainda que o suicídio é único e generalizado entre os seres humanos, tendo sido relatado em todos os tipos de sociedade humana, tão variados quanto grupos de caçadores-coletores e nações industrializadas. E exemplifica até o caso de um poema egípcio de 4000 anos de idade que menciona o suicídio, assim como registros históricos de todas as épocas desde então.

O rapper Emicida, em parceria com a drag queen Pabllo Vittar e a cantora não-binária Majur levantaram a bola do setembro amarelo com o sucesso AmaRElo Fonte: Google

O texto adverte que muitos especialistas se manifestam com cautela sobre essas possíveis defesas naturais, uma vez que essas ideias ainda precisam ser testadas. Outros, por sua vez, consideram-nas como marginalizadas diante do cerne do problema. Eles chegam, inclusive, a discordar veementemente de que o comportamento suicida é resultado de uma condição humana natural. O fato é que a ciência ainda tem um longo caminho a percorrer e, em especial, a explorar sobre a evolução do suicídio no intuito de responder a determinadas perguntas, como a proposta. E tudo isso, a despeito das possíveis falhas nos comportamentos altruístas e de defesa antissuicidas, os quais possivelmente também não são à prova de falhas.

Entender a mente humana e prevenir que pessoas incorram em suicídio são desafios prementes. Esse problema de saúde pública não discrimina por gênero, por cor, por beleza, por classe social ou econômica, por questão ideológica, ou ainda pelo IDH da região onde se vive. Ele afeta a nossa espécie. Ponto. Apesar disso, somos Sujeitos de Sorte – como compôs o grande poeta Belchior e, mais recentemente, cantou o rapper Emicida, em parceria com a drag queen Pablo Vittar e a cantora não-binária Majur − haja visto a capacidade tão singular das nossas mentes de viajar pelos confins do universo para apreciar tudo o que é passível de ser apreciado.

Referências

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Leia o texto anterior: Não aproveitar as oportunidades perdidas também é um problema

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

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