A Economia dos viéses versus a Business Intelligence (BI) Empreendedorismo Inovador

quarta-feira, 19 fevereiro 2020

Economia, mercado e startups: entenda por que a competitividade se junta a cooperação para gerar a coopetição

Quando jovem, ainda nos bancos da engenharia elétrica no meu querido Leão do Norte, ouvi um piada interessante que falava sobre o choque entre um navio e um iceberg, o qual entrou rapidamente em pique:

  • “Atenção marujos, temos que aliviar o peso do barco!”, exclamou o capitão.

 Sem perder tempo, os sobreviventes começaram a jogar todos os itens móveis ao mar. Trabalho feito, segue diálogo entre capitão e imediato:

  • Missão cumprida, meu capitão. A velocidade de pique diminuiu, mas ainda descendo!
  • Nenhum item dispensável a mais, marinheiro?
  • Não senhor, a não ser que consideremos os corpos de nossos bravos companheiros.
  • Será o jeito então. Convoque o médico, mande que ateste os que já partiram desta, faça as honras militares e providencie o sepultamento no mar desses bravos homens.
  • Sim senhor, replicou o imediato.

O médico então percorre o convés auscultando vítima a vítima, recomendando enfermaria ou sepultamento imediato a seus ajudantes, por meio de duas palavras: “Morto” ou “Enfermo”! Em um certo momento ele grita “Morto”, ao que o auscultado sussurra: “ainda estou vivo, doutor!”. Os ajudantes se entreolham e interpelam o coitado: “você quer saber mais do que o médico, ora, ora?”. Seguindo o médico, o capitão ordena o arremesso do homem ao mar.

Bom, GBB-San, a piada é meio grotesca, mas deve ter algum sentido. Então, como linkar isso aí à rainha da matemática social, a Economia? A resposta é simples, mas não óbvia.

Considere o barco o Mercado, navegando no mar revolto das especulações econômicas. O iceberg é o modelo econômico vigente. Os marinheiros, empreendedores. O médico faz o papel do principal agente neoclássico yuppie do momento. Por estar a par dos povos em ditaduras, da “morte da Terra” clamada pela especialista “em não sei o que” Greta Thunberg, do valor de IPO (inicial público offering) dos unicórnios compradas a “peso virtual” de bitcoins, e por ditar a tendência da bolsa ancorada no coronavírus, tudo que o yuppie diz faz sentido. E aí chegamos à lição da estorinha: por nosso “atavismo cultural inato”, aquela coisa que faz com que sigamos as pessoas em aparentes melhores posições sociais, que falem melhor e mais alto, obedecemos cegamente o yuppie, pois ele é “o cara”, como diria outro yuppie, o Obama. Trocarei atavismo por viés.

Esse papo econômico surgiu da conversa por Whatsapp no último sábado entre o imperador potiguar das planilhas inteligentes, o professor João Montenegro, e este que vos escreve, tendo por base o artigo Quando a ideologia leva os economistas a conclusões erradas de David Colander. Não tinha como não vir parar no Nossa Ciência.

Um pouquinho de história para encorpar os argumentos: Escolas Clássica e Neoclássica

No século passado, submeti-me a duas seleções de mestrado: Biofísica e Economia. Bem distantes, né não? Fui aprovado em ambas, mas optei pela Biofísica. Isso tudinho só para dizer que, embora ame a Economia, sou apenas um admirador, já me justificando pelas possíveis gafes econômicas que possa emitir à frente. Portanto, deter-me-ei apenas a alguns pontos interessantes para esse artigo, diminuindo o vexame. Vergonha referenciada, sigamos.

Nota: Filando artigos da Wikipedia, montei o texto a seguir. Ficou difícil referenciar diretamente, pois alterei algumas coisas. Deixo aqui o caminho, caso você queira ir lá conferir.

A escola clássica tem em seus bancos Adam Smith, David Ricardo e Thomas Malthus. O primeiro defendia que “Cada um contribui para uma ordem natural perseguindo seus interesses individuais”, “Laissez Faire, Laissez passer” (deixai fazer, deixai ir, deixai passar), o que culminou em sua mais famosa sentença “Mão invisível do Mercado”, que sugeria sua auto-regulamentação e que o Estado não deveria subsidiar empresas em dificuldade, muito menos dispensar recursos para setores considerados eficientes. O segundo, Ricardo, defendia que a ciência econômica deveria determinar as leis que orientariam a distribuição do “dindin”, já que tratava-se da aplicação conjunta de trabalho, maquinaria e capital no processo produtivo, tendo por fim a geração de um produto. Estes dois juntos, influenciaram os graus do liberalismo e da intervenção do Estado, pensamentos que, se levados ao extremo na visão daquela época, deixaria os trabalhadores vulneráveis, botando a “faca e o cupcake” na mão de Marx, “o pai dos sindicatos”, com a proposta de salvar o proletariado. Correndo por fora, Malthus, com o mesmo pensamento apocalíptico de Thanos em Batalha Final, queria exterminar metade dos habitantes, pois seria impossível produzir tanto pra tanta gente. Pronto: fim da parte clássica. “Guardai estas visões, humanos, pois haverei de resgatá-las em breve”. Ficou épico, hehe.

Falemos agora dos neoclássicos. Estes podem ser divididos em diferentes grupos, como a escola Walrasiana, a escola de Chicago e a escola austríaca. Os modelos macroeconômicos são influenciados pelo pensamento keynesiano, através da adoção de postulados sobre rigidez de curto prazo. A expressão neoclássica é utilizada para designar diversas correntes do pensamento econômico que estudam a formação dos preços, a produção e a distribuição da renda através do mecanismo de oferta e demanda dos mercados.

O expoente dessa escola, o economista inglês John Maynard Keynes, se opunha às concepções liberais, fundamentava o Estado como agente indispensável de controle da economia, achando que isto conduziria a um sistema “utópico” de pleno emprego. Seu maior rival – do qual sou fã – Friedrich Hayek, que escreveu o belo ensaio “O Uso do Conhecimento na Sociedade”, combatia o mito estatizante, não compreendia a rejeição dos keynesianos a uma coleção de ideias e trabalhos ainda não explorados, pensamento que reforçaria o de um tal Joseph Schumpeter, conhecido como O Profeta da Inovação.

Para Schumpeter, a Inovação “é um processo que tem lugar numa economia de mercado em que novos produtos destroem empresas velhas e antigos modelos de negócios”. Ainda, “as inovações dos empresários são a força motriz do crescimento econômico sustentado a longo prazo, apesar de que poderia destruir empresas bem estabelecidas, reduzindo desta forma o monopólio do poder”. O processo de destruição criadora (escreveu ele em letras maiúsculas), “é o fato essencial do capitalismo”, tendo por seu protagonista o empresário inovador.

Em termos gerais, partimos de uma escola que defendia unilateralmente o valor do trabalho – uma economia fortemente matemática, quase determinista, de equilíbrio entre demanda e oferta, fechada, independente de cultura e meio ambiente, baseada em classes sociais – para uma que valoriza a utilidade dos produtos, o bem-estar e a iniciativa individual, dessa vez baseadas em seus agentes econômicos, não mais em trabalhadores divididos em classes. Ainda bem, pois muita gente (incluo aqui das universidades) desconsidera empresários, empreendedores e profissionais liberais como trabalhadores, imagine como sociedade. Marx e Engels, este último grande industrial alemão, de alguma forma contribuíram para o mundo que hoje temos. Poderiam estar certos naquele contexto, mas não hoje. Infelizmente, estas figuras ainda pululam muitas cabeças inflexíveis. Vão ter que se adaptar!

Agora que passeamos pelos corredores das escolas-raiz, bem definidas, voltemos à analogia do barco.

Os yuppies e suas ideologias

Chegamos aos que eu chamo de Economistas-Yuppies, cujos mais importantes, que não deveriam ser, estão em evidência: Fulana e Sicrano… Bom, prefiro não citar nomes. Ao invés disto, vou descrever seus modus operandi: utilizam o Twitter para disparar tendências auto-plantadas, aplicam a economia clássica para parecerem ortodoxos, ou a neoclássica, quando querem posar de socialistas, como se capitalismo fosse sinônimo de egoísmo e socialismo irmão do altruísmo. Vestem a roupa que melhor se adequa à ocasião. Juntam a isso tendências da moda e.g. incêndios em regiões, guerras religiosas, poluição dos ares e mares, aquecimento global etc., coisas até certo ponto provocadas por eles mesmos. Duvida? Peguemos como exemplo o príncipe dos Meta-Capitalistas mais odiado do mundo, o multibilionário George Soros, o qual é, ao mesmo tempo, especulador voraz, dono de inúmeras empresas poluidoras, filantropo (doou, convenientemente, US$ 32 bilhões para própria agência filantrópica, a Open Society Foundation), apoiador de causas nobres e sobre a natureza… Um oximoro ambulante!

Soros é um exemplo de grandes “enviesadores” contemporâneos, pois possui recursos e controle de mídias diversas, capazes de induzirem à morte muitos empreendimentos em ascensão, caso atrapalhem seus negócios. Ele atua como o médico do barco. Em que se baseiam: nas próprias especulações. O que fazem: criam vieses que geram ideologias vazias, desde que se beneficiem. Como ele, existem muitos. Temos, pois, condições de ficarmos imunes aos yuppies.

Economia da Complexidade: o novo iceberg.

O mundo hoje lida com Internet das coisas (IoT), que integra tudo a tudo, desde sistemas mecânicos a biológicos (sistemas ciber-físicos), computação em nuvem, manufaturas integradas a elas mesmas e a fornecedores, modelagens digitais de máquinas à distância, automação maciça, sistemas de tomada de decisão baseados em IA etc., e mais um punhado de coisa, ao que os alemães batizaram de Indústria 4.0.

Tudo isso está levando o mundo a ter que inserir a Teoria de Evolução (diferenciação/ seleção/ amplificação), Teoria de Redes (loops, realimentação), Teoria dos jogos (Equilíbrio de Nash), Teoria do caos etc., no contexto econômico. São coisas demais para uma mente humana modelar e computar resultados, principalmente quando o novo equilíbrio não será estático, mas dinâmico, o que exigirá adaptação contínua. Vivemos agora em uma colmeia, onde todos influenciam tudo. A esta “belezura” de descrição a galera que entende passou a chamar de Economia da Complexidade. O novo iceberg não tem mais problema de produção, mais de distribuição. 

Eliminando o ruído cinza

Juntando os clássicos com os neoclássicos, podemos dar o crédito de não serem especuladores, pois defenderam pontos de vista com as ferramentas que tinham em mãos. Filosofaram a pura economia, sem ruído, sem vieses políticos, sem intenções yuppies, num mundo sem IA, sem Canvas, sem big data e, principalmente, sem “zap”. É possível então tomá-los por referência e incorporar seus modelos, simulando vários horizontes e apontar caminhos. Como escrevi em Economia de Predição: o novo modelo de negócios , a Economia cada dia mais está parecida com uma espécie de estatística, de modo a poder-se simular até possibilidades e probabilidades, dada à disposição infinita de dados. Então, por quê acreditar em yuppies, introdutores de ruídos cinza? BI (Business Intelligence) neles.

Finalizando…

As startups são os novos barcos. O iceberg, agora móvel, a Economia da Complexidade. O mar revolto, antes especulações econômicas, agora é formado por dados. A competitividade se junta a cooperação para gerar a coopetição, a la dinâmicas governantes de Nash, a qual “representa uma situação em que, em um jogo envolvendo dois ou mais jogadores, nenhum jogador tem a ganhar mudando sua estratégia unilateralmente”. Estamos todos colados, e se os dados forem bem trabalhados, conseguiremos ancorar o “barco startup” no iceberg da economia complexa. Portanto, ignoremos os yuppies.

Referências:

Artigo Quando a ideologia leva os economistas a conclusões erradas de David Colander

George Soros (https://www.bbc.com/portuguese/internacional-49657144)

A coluna Empreendedorismo Inovador é atualizada às quartas-feiras. Gostou da coluna? Do assunto? Quer sugerir algum tema? Queremos saber sua opinião. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag #EmpreendedorismoInovador.

Leia a edição anterior: Encaixando legos

Gláucio Brandão é gerente executivo da inPACTA, incubadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Gláucio Brandão

2 respostas para “A Economia dos viéses versus a Business Intelligence (BI)”

  1. Flaviano Costa Dantas disse:

    Excelente artigo… vai ao encontro da onda inovadora que toma conta do mundo atual. O Brasil não pode ficar no tradicionalismo, ele tem que se adequar ao novo momento empresarial vigente.

  2. Marcos Amorim disse:

    Seu artigo é como a centelha que nos tira da escuridão do desconhecimento.
    Não vi ambientalistas no caso do óleo que atingiu nossas praias por exemplo!

    Não existe almoço grátis!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site desenvolvido pela Interativa Digital