A revolução dos cocos Ciência Nordestina

terça-feira, 20 outubro 2020

Vem de Papua Nova Guiné o registro da primeira ecorevolução bem sucedida da história moderna, que demonstrou ser viável o modo de vida autossutentável

Bougainville é a maior das ilhas do arquipélago das ilhas do Salomão do Norte. Já foi controlada pela Alemanha na época da primeira guerra mundial (território de Nova Guiné) passando para o controle da Austrália e mais tarde anexada ao território de Papua Nova Guiné. Vem de lá a história da primeira ecorevolução bem sucedida da história moderna, quando a sua população demonstrou ser viável o modo de vida autossutentável.

Este processo teve início com a exploração desenfreada na ilha pela busca por cobre. Os trabalhadores das minas, revoltados com a pobreza e a degradação ambiental decidiram se rebelar contra a empresa mineradora e expulsar os estrangeiros exploradores de suas terras. Foi então criado o movimento pela independência da ilha de Bouganville. Munidos de estilingues, pedras, arcos e flechas, os habitantes da ilha lutaram contra o exército de Papua Nova Guiné. E contrariamente a todos os prognósticos, os habitantes mantiveram-se em batalha por longos anos. Além das milhares de mortes de civis, a grande dificuldade encontrada pelos moradores da ilha foi o completo bloqueio de suprimentos imposto a eles. E esta dificuldade extrema conduziu os habitantes de Bougainville a experimentar um novo modo de vida. Eles precisaram desenvolver novas estratégias de sobrevivência referentes à produção de alimentos, coleta de água, produção de medicamentos, energia e combustível.

O cultivo de diferentes culturas por toda a ilha fez com que a população tivesse comida todo o tempo. A floresta foi explorada na busca por medicamentos naturais e também venenos para combater os invasores. No entanto, a solução mais inventiva veio dos subprodutos do coco. Além da água, rica em nutrientes, o seu óleo foi aplicado nas mais diversas formas possíveis, indo de lubrificante a combustível.  E depois de 8 anos de isolamento e guerra, os carros continuavam a correr pela ilha movidos a óleo de coco.

Apesar de todas as dificuldades de um país em guerra, os habitantes de Boungainville conseguiram viver daquilo que plantavam, sem degradar o meio ambiente e em uma sociedade em que o amor à natureza supera o desejo desenfreado alimentado pelo consumismo. E a luta rendeu frutos. O referendo realizado em dezembro de 2019 levou 176.928 habitantes da ilha às urnas. Destes, 98% aprovaram a independência da ilha do controle de Papua Nova Guiné. Vida longa à revolução ecológica. Os povos das ilhas (tanto do oceano Pacífico quanto do oceano Atlântico) já nos provaram que é possível viver com o que a natureza nos oferece – e de modo sustentável. Podemos viver sem petróleo.

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Leia o texto anterior: 2020- o ano dos buracos negros

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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