Autoajuda quântica: faz sentido? Ciência Nordestina

terça-feira, 3 setembro 2019

Estudar este universo quântico pode sim oferecer muitas soluções tecnológicas para o nosso planeta

Todos os que estudam a mecânica quântica têm o seu primeiro contato com a física (e a matemática) do átomo de hidrogênio (o mais simples da tabela periódica). E assim conseguem aplicar a equação de Schrödinger, substituindo o potencial adequadamente, separando variáveis, fazendo o sistema independente ou dependente do tempo. Os autovalores desta equação retornam os níveis de energia para este sistema, que estão de acordo com que encontrara Rydberg. Ou seja, resolver a equação de Schrödinger na mecânica quântica permite com que se obtenha os estados de energia permitidos para um dado sistema – estados estes que ocorrem em níveis discretos – quantizados.

Os estudantes de graduação em física sabem que a substituição do átomo de hidrogênio por outro maior adiciona um grau de dificuldade enorme na solução do problema. Esta dificuldade chega a ser tão grande que lápis e papel deixam de ser suficientes para sua solução – precisaremos de computadores para processar os dados. E aí chegamos a um ponto crítico: se é complicado entender a mecânica quântica de átomos maiores e moléculas, o que dizer de alguém que tenta resolver a equação de Schrödinger para as emoções humanas? Quais os autovalores de energia para um ser humano que enfrenta um problema emocional? Impossível calcular. Não há como usar a mecânica quântica para entender as pessoas ou equilibrar suas emoções. E mais, na formação de um físico não existe nenhuma disciplina que trate de hipnose – isso é importante ressaltar. Não há hipnose quântica.

Seguindo pela seara que envolve as emoções (para bem longe da mecânica quântica e para bem mais perto da psicologia) podemos assumir que todos somos gente, e em sendo gente podemos oferecer palavras de conforto uns aos outros. E estas palavras podem ser, por exemplo, energia, luz, força, intensidade… Perceba que estes termos são aplicados na física mas também são meras palavras. Quando citamos cada uma delas estamos conversando, e não fazendo a física de cada uma delas. Aplicar uma técnica qualquer (como a hipnose, por exemplo) e atribuir isso à física quântica (por ser a física quântica desconhecida da população) é faltar com a verdade.

E embora toda autoajuda possa ser bem vinda a quem esteja disposto a recebê-la, preciso alertar que não há qualquer tipo de ajuda de cunho motivacional/ emocional vindo da mecânica quântica… Ela reside no universo das coisas bem pequenas e que é bem difícil de ser entendido. Estudar este universo dos pequeninos oferece (e ainda oferecerá) muitas soluções tecnológicas para o nosso planeta. Autoajuda, de fato, não existe por lá.

A coluna Ciência Nordestina é atualizada às terças-feiras. Leia, opine, compartilhe e curta. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br). Use a hashtag CiênciaNordestina.

Leia o texto anterior: CNPq

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Site desenvolvido pela Interativa Digital