Capitalismo, tempo e ancestralidade: Sejamos o tempo de esperança Diversidades

segunda-feira, 11 maio 2020
Desenho da piauiense Lud Nascy

A jornalista Sarah Fontenelle fala sobre natureza, isolamento social e a circularidade como matriz da temporalidade

Por Sarah Fontenelle Santos

A impressão que temos é que chegamos ao fundo das sombras, mas é de lá onde a luz pode irradiar a todos os seres. Quem entre os místicos ou entre os proféticos marxistas poderia prever tudo se desmanchando no ar, ou melhor, tudo o que o capital nunca quis: Parar. Diziam os economistas mais liberais que não é possível parar, porque o capitalismo precisa crescer exponencialmente, ele tem pressa. É voraz. No entanto, ele parou. Há um elemento, portanto, que controla nossas vidas que é capaz de nos submeter à exploração constante, mas também pode ser o elemento revolucionário: O tempo! Ou melhor dizendo, as temporalidades.

O diálogo que pretendo fazer hoje é sobre a circularidade como matriz da temporalidade em outras cosmovisões ancestrais que desafiam o tempo ocidental/capitalista. É, pois, a circularidade, que permeia outros modos de ser e está presente nas rodas de capoeira, nas giras, nos quilombos, nas aldeias, nos círculos da luta popular (onde dizemos que “a luta é como um círculo, pode começar em qualquer ponto, mas não termina nunca”) e outros. A circularidade é ancestral e aprendemos ela com nossos antepassados indígenas e afro. E ela está aqui, mais necessária que nunca.

Trago para essa roda as sábias palavras do intelectual indígena Daniel Munduruku, que em conferência no último África Brasil- 2019 (evento que acontece na Universidade Estadual do Piauí-UESPI), nos levou a uma viagem de volta ao presente. Dizia ele que “O tempo ocidental é o tempo do relógio, da riqueza, do consumo. Dividido entre o passado, presente e futuro. E aposta no tempo que ele não tem: o Futuro”. E aí, de repente, todo esse sistema-mundo que não enxergava possibilidade de parar está agora em isolamento, a busca desenfreada da riqueza tomou um novo ritmo, ou está tateando um novo modus operandi. Para Ailton Krenak “O modo de funcionamento da humanidade entrou em crise¹[1]”.

Para Krenak em O amanhã não está venda “Esse vírus está discriminando a humanidade. Basta olhar em volta. O melão-de-são-caetano continua a crescer aqui ao lado de casa. A natureza segue. O vírus não mata pássaros, ursos, nenhum outro ser, apenas humanos. Quem está em pânico são os povos humanos e seu mundo artificial, seu modo de funcionamento que entrou em crise”.

A jornalista Sarah Fontenelle. Foto: Arquivo Pessoal.

A natureza adoecida e os meios de comunicação: Pressa ou pausa?

A natureza adoecida com tanta pressa, pede paciência. Alguns encastelados em suas fortalezas (protegidas) lançam a voz de comando: Refaçam suas vidas, trabalhem de casa, estude de casa, empreenda de casa, o mundo não pode parar! Do outro lado, a classe trabalhadora acolhe as ordens e finge que está tudo bem. Mas não está! É possível observar uma disputa de temporalidades. As tecnologias da informação e da comunicação aceleram esse tempo, dizem que podemos fazer tudo que fazíamos antes, agora de nossas casas e que está tudo bem. Enquanto isso, voraz, rouba o tempo da família, do ócio, das plantas, do cozinhar, tudo virou mercadoria em casa, o tempo não pode parar. Nem o Enem, nem o trabalho. Então, podemos voltar ao que era, nos focarmos no futuro.

É preciso saber contra-colonizar permanentemente os meios de comunicação para que sejam meio de vida e não modo de encurtá-la pela pressa. Trabalhos com telas e muita informação, ela nos penetra e tem pressa em nos consumir por inteiro. Tudo é informação. Tudo é comunicação. E estamos nos consumindo nessa encruzilhada. Essa comunicação é biofílica? É uma ação cultural para liberdade? Ou ela nos presente no looping infinito da presentificação? A super-exploração da presença. Se estamos presentes, estamos produtivos, logo estamos vivos (?).

Buscando outras formas contra-coloniais e ancestrais de ser comunicação. Me deparado, despretenciosamente com os ensinamentos de Vidyadhara Chögyam Trungpa Rinpoche. Em seu livro “Além do materialismo espiritual”, o budista tibetano, nos ensina: “O processo de comunicação será belo se o vimos em termos de simplicidade e precisão. (…) Não precisamos esguichar informações, para depois para de repente, com uma sensação de depressão, à espera da resposta da outra pessoa. Poderíamos fazer as coisa de modo digno e apropriado. Basta deixar espaço. O espaço é tão importante na comunicação com outrem quanto o falar”.

Então eu pergunto que espaço os meios de comunicação tem nos dado com suas certezas apressadas? Espaço para termos nossas próprias ideias dos nosso presente. Além disso, que comunicação estamos estabelecendo com o outro? Temos saboreado a simplicidade e a precisão da comunicação? Essa comunicação nos deixa contemplar o presente ou nos lança no futuro, ansiosos pelo que virá?

Diz Munduruku sobre o modo de ver ocidental, para eles  “Lá no futuro está a nossa felicidade. Só seremos felizes quando nos aposentarmos. Esse é o tempo Ocidental, linear, que nos obriga a ir para frente”. No futuro pós-pandemia seremos felizes (será?) e somente depois, sejamos felizes amanhã. O presente com as pessoas em situação de rua, com as famílias sem sem pão e sem internet para garantir o ensino dos seus filhos, o presente com suas dores e hospitais superlotados, médicos adoecidos, pobres sem saneamento básico…esse presente não importa. Afinal, esse presente sempre esteve aí, mas sempre soubemos nos focar no futuro, não é mesmo? Tenha pressa, continue a andar, o sinal está aberto. Corra!

De outro lado, a urgência dos saberes ancestrais nos convida a revolucionar com outro tempo. Aliás, se nós fazemos o tempo e ele nos faz, porque não o pegamos com nossas mãos? Façamos a história sendo o tempo que nos acolhe. Em vez de correr e ficarmos ansiosos pelas metas que não alcançamos, porque não nos permitimos desacelerar? Porque não nos deixamos banhar nessa temporalidade lenta. A lentidão como forma de esperança pode nos ensinar a alçar voos maiores para sermos o que precisamos para o nosso Bem Viver. A epistemologia da lentidão, pode nos ensinar que o amanhã não pode ser como antes, mas ele começa agora. Já dizia Paulo Freire que a única condição para Ser é Estar Sendo.

O tempo da natureza

Já a temporalidade indígena é  da circularidade. “O tempo indígena é o tempo da natureza e a natureza é cíclica. Cada estação é um ciclo para se manter viva.  Os indígenas observam a natureza”, nos ensina Munduruku, nos fazendo refletir sobre como a aceleração do tempo do capital nos trouxe até essa crise. Ao não observar sua vizinhança, o tempo da terra e dos seres que nela habitam, a humanidade vem provocando diversas epidemias que se espalham no mundo: Gripe aviária, ebola, gripe suína…São epidemias-respostas que dizem muito sobre como estamos invadindo o tempo-espaço dos outros seres.

Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA)²[2], as doenças transmitidas de animais para seres humanos estão em ascensão e pioram à medida que os habitats selvagens são destruídos pela ação humana. E apesar disso, no Brasil, a mineração que invade e destrói as florestas, inclusive, destróem ilegalmente os territórios indígenas, é considerada atividade essencial durante a crise de Covid-19. Que compreensão estamos tendo para nos reinventarmos? A vida ou lucro? Essa é a necropolítica, enseja morte.

De outro lado, o tempo indígena, dos povos que foram colonizadas mundo afora e de quem se coloca a disposição para revolucionar humanidades, é biofílico. Tem que ser.  Esse é o tempo  da política da vida e somente por ela nos curvamos, por saber que além de nós há muita diversidade a ser respeitada. Diante da destruição em nome do lucro que vai trazer bem-estar a uns poucos no futuro, Munduruku nos ensina outro tempo “Só temos o passado, que é o tempo da memória e o tempo presente, que é agora.  Olhamos para o passado para ver o que nos fez bem”. Outros povos originários de outros cantos do mundo também nos ensinam a olhar o passado para melhor agir no presente. O pássaro com o rosto voltado para trás, a seguir, significa essa reverência ao passado. Este é um símbolo forte para os povos da África Central.

Fonte da foto: http://claudio-zeiger.blogspot.com/2012/02/sankofa-simbolo-adinkra.html

O Presente é um presente

Munduruku nos conta sobre o presente como tempo e o presente como dádiva. “Se o agora não bom não se chamaria presente, dizia meu avó. Quando ganhamos o presente temos que usar no agora para fazer feliz a quem nos ofereceu esse presente” E quem nos ofereceu o presente, foi Deus e Deusa ou o universo, a depender de suas crenças.  “Ele nos entregou para sermos felizes. E quando o usamos ele sorri e ao sorrir ele enche a natureza de mais fertilidade”, completa.

Ganhamos um presente, em crise, mas também um presente que nos incita a transmutar. Olhar além e operar nos refazimentos. A possibilidade que o isolamento social (para quem tem o privilégio de ficar em casa) traz é o presente de repensar a vida, respeitar a natureza para que ela se volte mais fértil. E é sobre essa temporalidade que está em disputa. Também se abre os refazimentos solidários, não falo da caridade que massageia o ego dos poderosos. Eu falo da solidariedade de classe. Esse que-fazer que tem feito as comunidades e periferias se costurarem em laços fortes na preocupação de se manterem vivos e vivas diante de um vírus que não discrimina raça ou classe – No entanto, o vírus se versa em uma pandemia extremamente racista porque se dirige de modo mais desumano sobre as classes, etnias e povos historicamente atacados.

É assim então, que entendemos as falas de Munduruku “Os povos indígenas é o povo circular, da solidariedade e da circularidade. Quando sai para caçar e quando é agraciado com caça farta ele não guarda, mas distribui para todo mundo, para criar uma rede de solidariedade e criar o Bem Viver”. É tempo de refazimentos dos laços solidários e assim temos visto nas comunidades, porque o hoje é urgente e isso faz sentido. De outro lado, temos (des) governantes preocupados em proteger a economia para o futuro.

E sobre solidariedade de classe, vale a pena relembrar as palavras de Freire em Pedagogia do Oprimido “E se vão fazendo, cada vez mais, mãos humanas, que trabalhem e transformem o mundo. Este ensinamento e este aprendizado têm de partir, porém, dos “condenados da terra”, dos oprimidos, dos esfarrapados do mundo e dos que com eles realmente se solidarizem. Lutando pela restauração de sua humanidade estarão, sejam homens ou povos, tentando a restauração da generosidade verdadeira”.

Na conferência em que me inspiro para partilhar a fala de Daniel Munduruku, ele encerra lembrando das palavras de Eduardo Viveiro de Castro “No Brasil, só não é indígena, quem não é”. E então, nos desafia O Brasil precisa se reconectar com seu passado para seguir adiante e cumprir sua vocação para a felicidade”, eu me sinto intimada com essas palavras e você?

O tempo é propício a mudanças e está em disputa. Resta-nos saudar quem tem coragem!

Despeço-me com a canção nordestina gravada por Cumadre Florzinha e escrita pelo Mestre Verdelinho, do coco e da embolada de Alagoas. Salve a cultura popular e sua sabedoria!

“A terra deu, a terra dá, a terra cria

Homem a terra cria, a terra deu, a terra há

A terra voga, a terra dá o que tirar

A terra acaba com toda mal alegria

A terra acaba com inseto que a terra cria

Nascendo em cima da terra, nessa terra há de viver

Vivendo na terra, que essa terra há de comer

Tudo que vive nessa terra, pra essa terra é alimento

Deus e Deusa corrige o mundo pelo seu dominamento

A terra gira com o seu grande poder

Grande poder com o seu grande poder”

Sarah Fontenelle Santos é jornalista (UESPI), Mestra em Comunicação (UFPI) e Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia (PPGEM-UFRN), gosta das coisas da terra, da água, do fogo e do ar. É yogui e reikeana, militante do movimento popular, constrói a OPA- Organização Popular e o OcorreDiário, Platafor.

Referências:

[1] https://www.em.com.br/app/noticia/pensar/2020/04/03/interna_pensar,1135082/funcionamento-da-humanidade-entrou-em-crise-opina-ailton-krenak.shtml

[2] https://nacoesunidas.org/surto-de-coronavirus-e-reflexo-da-degradacao-ambiental-afirma-pnuma/

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Leia a coluna anterior: Uma janela de exibição feminista potiguar

“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom, um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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