Ciência do reuso Ciência Nordestina

terça-feira, 17 novembro 2020

A tecnologia da reciclagem mais que um ato consciente é uma ação necessária

O consumismo nos ensinou a ver felicidade em embalagens. Um belo embrulho implicitamente esconde um produto novo. O que a alegria do consumismo não nos permite ver é que a celulose veio da árvore que vai virar lixo em segundos e que o plástico permanecerá no planeta, por muito tempo. E o lixo também receberá o conteúdo da caixa, um tempo depois. E este lixo seguirá para os mares e para os intestinos dos animais marinhos. Um oceano de plástico por toda a eternidade às custas de equipamentos que foram programados para funcionar por doze meses.

E a escassez de petróleo é um caminho sem volta neste processo, que torna a tecnologia da reciclagem mais que um ato consciente: uma ação necessária. É importante neste ponto perceber que trocar as sacolas dos supermercados por outras de material biodegradável é um ato importante, mas meramente simbólico. A mudança precisa ser muito mais profunda.

Façamos um teste: pare e olhe ao seu redor. Identifique o quanto de plástico preenche o nosso espaço. Você perceberá que ainda vai jogar muita coisa fora: o canudinho do suco, o copo descartável, a TV, o telefone celular, o carro… Tudo o que conquistamos com o nosso suor de cada dia nada mais é que o entulho do amanhã.

A humanidade precisa reduzir a taxa com que realiza suas trocas. O futuro pede carros que durem muito mais (menos descartáveis), telefones que não sejam trocados todo o ano e lançamento de coisas que ao invés de ir para o lixo voltem para as caixas (recicladas).

Entender o limite dos recursos naturais do planeta é compreender que não precisamos de 32 pares de sapatos, que podemos fazer rodízios para ir ao trabalho já que a matéria prima desta grande aldeia global está no fim.

Uma mudança radical no perfil do consumidor precisa ser estabelecida a nível global, habilitando a ciência do reuso a redirecionar a tecnologia que gera lixo. E a única saída para continuar funcionando (e reduzir a degradação) é transformar o lixo gerado em insumos.

O exemplo vem da natureza: não é à toa que os cafés mais caros do mundo são processados nos intestinos de animais. Das fezes do jacu saem os grãos processados de um dos cafés mais deliciosos do planeta. O leitor pode dizer: “Aff, das fezes…” Sim, de lá vem o melhor adubo, o melhor café. Lixo? De forma alguma… Apenas mais um componente de um equilíbrio fino e rico. Para os humanos devoradores de caixa, muito prazer. Esta é a verdadeira sustentabilidade.

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Leia o texto anterior: A carta de Neil deGrasse Tyson ao Brasil

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

2 respostas para “Ciência do reuso”

  1. MONICA APARECIDA TOME PEREIRA disse:

    Tem um artigo de Ojima (demógrafo) e Marandola (geografo), 2012, que traz uma relação muito interessante com a migração do rural, urbano, crescimento população e os municípios menores com o LIXO – há muitas interações entre esses fatores e muita correlação significativa (leitura estatística). Revisitei este artigo (Ojima e Marandola) recentemente, para escrever sobre as desigualdades regionais e o processo de urbanização, no Nordeste.
    E Helinando seu texto traz muitas das implicações de todas essas dimensões. Algo muito próximo à nós, neste contexto foram os transtornos que passamos, recentemente, com o grande volume de chuvas que tivemos em Petrolina-PE e Juazeiro-BA

    Já passou da hora de mudarmos!

    (OJIMA, Mario K.; HAMADA, Jorge. Aterro sanitário: análise técnico-econômica para implantação e operação. SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE DESTINAÇÃO DO LIXO, v. 1, p. 214-247, 1994, que fazem

  2. MONICA APARECIDA TOME PEREIRA disse:

    A referência correta do artigo Ojima e Marandola, 2012 é:
    OJIMA, R.; MARANDOLA JR, E. O desenvolvimento sustentável como desafios para as cidades brasileiras. Cadernos Adenauer, v. 1, p. 23-36, 2012.

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