Corpo, capitalismo e covid-19: os estudos de gênero para a compreensão da pandemia Diversidades

segunda-feira, 27 abril 2020
No começo do século passado, as pessoas adivinharam que nos comunicaríamos através da imagem e não somente da voz

Há uma gestão política das epidemias e um aprendizado com o vírus. Como compreender a pandemia através de nós mesmos?

Ribamar Moreira, autor da coluna Diversidades da semana propõe que há uma gestão política das epidemias e um aprendizado com o vírus. “Agora, o corpo pode ser um experimento forçado de si a partir de si mesmo, tanto para quem se isola como para quem não se isola”, esclarece e questiona se é possível a compreensão da pandemia através de nós mesmos.

Tive o privilégio social de ficar em casa. Em abril, estava no Rio de Janeiro e, por mais que as notícias sobre o covid-19 fossem se espalhando pelos jornais, não havia ainda uma noção da proporção do que seria a curva da pandemia no Brasil. Hospedado em um hostel, em Botafogo, apenas tive a experiência real do começo da quarentena quando sai para um dia de aula, antes da suspensão das instituições federais, e não havia quase ninguém nas ruas. Em uma semana, através do quarto compartilhado de seis camas, conheci muitas pessoas e múltiplas realidades, como por exemplo, dormi ao lado de uma vendedora de doces que estava esperando uma reforma de uma quitinete no Morro Dona Marta e de um mochileiro da Alemanha que buscava uma experiência turística no Cristo Redentor.

Ribamar Moreira

Cearense, confesso que demorei a crer no que nos efeitos sociais do covid-19 até perceber a elevação gráfica dos números, ainda que inconsistentes pela quantidade de testes realizados. Talvez, pelos números da minha cidade no interior do estado não terem aparecido, até aquele período, hoje com quatro casos, ou por conta da tranquilidade dos banhistas em uma tarde admirando o sol cair em Copacabana naquela semana. Mas, logo me deparei com a quase impossibilidade de retornar ao Nordeste quando não consigo remarcar minhas passagens aéreas para antes da data. Consigo um voo com duas escalas e as máscaras e o cheiro de álcool em gel já eram realidade no Aeroporto do Galeão. Tive apenas uma semana de aula no doutorado e precisei falar sobre o que vivi, no meu deslocamento do Nordeste para o Sudeste, por motivos de estudo na pesquisa acadêmica, para apontar um grande questionamento que eu recebi sobre a ciência.

Como se não bastasse o cenário disruptivo da saúde, encaro também os cortes na educação com a portaria 34 da CAPES nos Programas de Pós-graduação nacionais, hoje revogada. Pelo fato de ter viajado para estudar e pela pesquisa que desenvolvo sobre os estudos de gênero e sexualidade na área das Ciências Sociais, fui muito questionado sobre a relevância dessas análises para a sociedade em tempos de pandemia. Ainda no pensamento dualista de “tira aqui e põe ali” para sustentar uma estrutura insustentável, encontrei comentários e ouvi apontamentos sobre para que serve o gênero, a sexualidade e o desejo. Pensei em rebater, mas demorei um pouco no pensamento e apostei nos efeitos da quarentena para prova dos nove de quem põe de lado esses debates até para o impacto da aérea da saúde.

Não vou me ater aos contextos macro e micropolíticos do corpo e da sociedade, embora a necropolítica e a farmacoponografia façam do neoliberalismo um pula-pula de Bolsonaro, desde quando o país descobriu o que era golden shower pelo Twitter do Presidente, como os efeitos do covid-19 nos marcadores sociais, a exemplo dos elevados números na população negra e da violência doméstica no isolamento, ou dos desejos e dos afetos escorrendo pelo virtual, a exemplo do aumento de acessos em sites pornográficos e das relações amorosas e sexuais em redes sociais. Talvez a experiência de quarentena de cada um que está tendo esse privilégio, possa responder seus próprios questionamentos sobre a relevância dessas categorias de análise para a conjuntura do capitalismo e da doença. Até porque para Susan Sontag a doença é zona noturna da vida e esses analíticos da sociedade, por vezes, aparecem vistos em penumbra.

Cem anos depois, quase como um drone, as pessoas também pensaram que poderiam voar como transporte em atividades cotidianas, a exemplo do ofício do carteiro.

Acontece que o estado de necessidade do corpo responde às questões por meio das invenções de si. Quais as intersecções de gênero e sexualidade nos marcadores sociais dos grupos de risco? De que forma a raça e a etnia podem impactar o socialmente e culturalmente contexto da pandemia? Como uma doença pode ser culturalmente construída em outras geopolíticas e metaforizada pelos sujeitos? Por que as tecnopolíticas produzem verdades sobre o vírus, a economia e o trabalho que refletem nos dispositivos de construção da subjetividade? Os questionamentos podem ser diversos, uma vez que os enquadramentos são específicos. Não há horizonte no mundo da terra plana, muito menos limites para o capitalismo, por mais que Judith Butler nos tenha dito que a produção capitalista encontra formas de reproduzir e se fortalecer nas zonas pandêmicas.

Há uma gestão política das epidemias e um aprendizado com o vírus. Agora, o corpo pode ser um experimento forçado de si a partir de si mesmo, tanto para quem se isola como para quem não se isola. Se como destaca Paul Preciado, o vírus ensina na telerepública da nossa casa por que não aprender e sofrer mutações como ele mesmo? O filósofo sugere que desliguemos o celular e, como fez a cantora Madonna, há 30 anos na lendária turnê “Blond Ambition” na qual simulou uma masturbação no palco, rompendo os protocolos políticos e o dizeres do Papa, gozemos sem a Internet. Assim como o choro, o gozo é livre e na luz desligada, podemos descobrir mais sobre nós mesmo e entendermos os outros. O sofrimento na quarentena pode deixar de ser copyright capitalizado e escorrer nos fluídos da carne. Alguns até podem achar que são como os drones, combatem o covid-19 como golpe de esquerda, mas esquecem que são drones de carne e osso. Atchim!

A coluna Diversidades é atualizada às segundas-feiras. Leia, opine, compartilhe e curta. Use a hashtag #Diversidades. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br).

Leia a coluna anterior: Marielle e a luta pelo desencarceramento

“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom, um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

Ribamar Moreira

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