Dia das crianças: Que tal presentear com empreendedorismo educativo? Empreendedorismo Inovador

quarta-feira, 9 outubro 2019

Uma postura empreendedora de pais e escolas pode ajudar na educação e instrução de nossas crianças e jovens 

Certo dia, em alguma escola, li esta frase: “Venha educado; só damos instrução!”.

Em princípio, como um bom membro desta sociedade que costuma julgar qualquer tese apenas pelo cabeçalho – mas estou me corrigindo -, achei-a rude, e botei F&P (Feynman e Popper, meus neurônios mais chics) pra trabalhar. Afinal, a frase estava em um local de educação; se lá está estampado uma coisa desta, o que esperar então do resto do mundo? Admito que saí de lá chateado. F&P não conseguiram avançar bem neste campo. Entretanto, não me dando por vencido, fui ter com minha cara-metade, a pessoa que guarda o QI social da família: minha esposa. Depois de algumas trocas de verbetes, a frase começou a fazer um sentido “terremótico” (inventei essa palavra): está completamente correta!

Perto dos 50 anos, na época que li a frase, a tal escola me ensinou mais uma. Acho massa quando isso acontece! Vamos “debugá-la” então.

A frase em si

Quantas vezes vi pessoas furarem fila, baixar o vidro do carro para jogar latinhas, muitas vezes de bebida alcoólica, interromperem uma locução para falar algo sem sentido; espirrarem em sua direção, gritarem ao pé de nossos ouvidos, ligarem o som a toda altura, como se o “bom” gosto alheio tivesse que ser imposto. Trancarem o seu carro pois “vou ali rapidinho”; gritarem com os filhos pedindo para falar baixo. Acessarem o celular enquanto falam conosco ou dirigindo. Fechar a Avenida Maria Lacerda, ao estacionarem o carro até deixarem seus rebentos sentados nas carteiras da sala de uma certa escola, de forma a impedir que outros motoristas acessem o passeio e, por consequência, travarem a avenida. Lavarem a mão na torneira ao lado e espalharem a água como se fosse confete para todos e, em um nível mais egoísta, perguntarem ao terem uma tarefa atribuída “o que eu ganho com isso?”, ao invés de pensarem “o que alguém perde com isso, se eu não fizer?”. Respondo: infinitas vezes! 

Essas mesmas pessoas são as que exigem que a escola dê toda essa educação – ou corrija essa falta de – a qual elas mesmas são refratárias, além das matérias convencionais como português, matemática, geografia, artes etc. É um fardo de difícil execução para a “pobre” escola: desempenar os herdeiros, pois aqueles que possuem mais força para educar essa turminha, são os que mais o empenam! Então a frase é, na verdade, um desabafo, e poderia ser dita de outra forma: “Façam sua parte para que possamos fazer a nossa”. É só isso!

Mas, para não dizer que só falei e não tenho exemplo para dar, vou mostrar um pouco da educação empreendedora que damos aos nossos 03 filhos. Longe de querer ser um influencer ou “a voz da verdade”, vejam apenas como pontos de reflexão.

Finanças e estudos estão diretamente relacionados

Damos mesadas a nossos filhos! Muitos discordam, pois acham que eles não devem entender que o mundo “fornecerá” a eles uma receita certa em uma data certa.

Acreditamos que o fato de não ter uma mesada pode levar a algum tipo de ansiedade, pois a criança não sabe ao certo se vai ter algo no fim de determinado ciclo com que possa contar. Além disso, acreditamos que a mesada é uma grande oportunidade de educar sobre finanças. 

Achamos, por exemplo, absurdo sermos criados de forma a não providenciar um “pé de meia” e ficarmos dependente de planos amarrados às políticas da hora. A ir nessa linha, diferentemente dos países em que a economia doméstica é ensinada desde a tenra infância, à medida que envelhecemos, caminhamos para um fim no qual precisaremos de mais dinheiro e teremos ou receberemos, com toda certeza, muito menos. Então ensinamos aos três:  “junte para ter” e “não gaste mais do que ganha ou tem”.

Operacionalmente, atribuímos a eles um valor X de mesada. Esse valor é balizado pela última nota da unidade na escola e por atividades que realizam no lar. Juntar as folhas das árvores que caem, ajudar a lavar o carro, levar o lixo reciclável para o área de descarte do condomínio, limpar a gaiola da hamster, aguar as plantas, são atividades que valem um conto cada uma. 

Um dos “boys”, por exemplo, obteve média 7,5 na unidade corrente. Sua mesada ficou em 0,75X. Como no momento de contabilizar a mesada, que é feita no banco “Excel do papai”, ele tinha 04 tarefas done, recebeu “virtualmente” no 5º dia útil do mês o valor de 0,75X + 4 contos. Virtualmente porque as retiradas só podem ser feitas a cada 03 meses, salvo situações especiais: presentear amigos, comprar um sanduba daquela loja que tem M bem grande etc. Tudo é feito com o “tutu” deles. Dessa forma, aprendem a juntar, planejar, negociar com os irmãos. Por exemplo, já se juntaram para comprar uma caixa de Lego (cara para dedéu), o Playstation, que vendemos na OLX depois de uma ano – experiência que merece um livro – etc. As questões basilares como educação, saúde, vestuário e alimentação são bancadas pelos pais. Nota: os valores são guardados e corrigidos pela SELIC do mês e eles já chamam o dinheiro de crédito virtual, não mesada! Novos tempos…

A lição aqui: ganham proporcional ao que se dedicam. Não existem truques. Dinheiro é trabalho em forma líquida. Simples assim.

Os “pimpolhos” acompanhando o pai em suas atribuições corriqueiras. Lançamento da moeda virtual DOO em Vera Cruz-RN. Pai, gostei dessa “tal” moeda! (Ulisses, 06 anos).

No Laboral

Vez por outra, levo os três para “trabalharem” na inPACTA. Confesso que a primeira vez aconteceu por acaso, pois nossa secretária não pode ficar com eles em casa e eu e a patroa tínhamos que dar expediente. Resultado: de tão certo, tornei isso uma prática. Não só para o local de trabalho, mas para outras atividades. Eles adoram! O último evento: foram comigo à cidade de Vera Cruz prestigiar a galera da EZYDOO no lançamento da Moeda Virtual DOO. Não porque eu os obriguei, mas por interesse próprio. Por quê disso? Eles têm de saber que dinheiro “não dá em planta”. O papai e a mamãe fazem por onde converter trabalho em remuneração.

No emocional: aprender com os erros!

  • Pai, compramos aquilo ali e nos arrependemos. Como faço para ter o dinheiro de volta?
  • Simples: venda para alguém e tente recuperar o máximo que puder!
  • Mas eu vou perder dinheiro, pois ninguém quer comprar pelo mesmo preço.
  • Pois é,  essa é a primeira lição sobre mercado: preço é diferente de valor. Você atribui um valor alto ao que é seu; o mercado só vê o preço que lhe é conveniente.

E assim o Playstation IV (PS4) foi parar na OLX depois de um ano de muito aprendizado (principalmente para os pais) regado a vários castigos e frustrações, frutos de muitas notas baixas. Choros e velas depois, todos agradecemos o feito. O PS4 voltou na forma de crédito virtual pela metade do preço, mas com um valor multiplicado por 10.

Lição aprendida: temos que imunizar nossos filhos! Sabíamos que o PS4 não seria uma boa (não vou entrar aqui em detalhes), mas carecia do experimento. Ele mostrou o que havíamos previsto e serviu para que a nossa gurizada pudesse alimentar a estima e bradar (quando questionados pela galera que influenciara a compra do eletrônico) “Vimos, usamos, nos arrependemos e desistimos”. Hoje estão “catequizando” outros a largarem esse gadget, pelos menos até estarem mais maduros.

Empreendedorismo é postura

Meu filho mais velho quer trabalhar manuseando genes. Motivo: em conversa com a mãe, aprendeu que as doenças são oriundas, em sua maior parte, da alteração promovida por microrganismos através de seus RNA, ou por problemas imunológicos devido há alguma má formação no DNA das pessoas. Pensou: tenho então que ser médico! Foi aí que a mãe disse: você terá de resolver o problema em um nível genético de modelamento. Para isso, poderá ser um matemático, um físico, um engenheiro ou até mesmo um médico. Terá também que trabalhar em equipe. Nesse caso, terá que ser um líder. Você não tem de pensar na profissão que vai exercer, mas sim no problema que quer resolver quando crescer. Touché: ele agora está pensando quais habilidades precisará adquirir para resolver esse problema!

Sacaram o lance? Uma conversa simples com a “educadora #1” levou o boy 01 a ter uma postura empreendedora, de resolução, e não apenas de obtenção do canudo. “Venha educado…” Ele agora só precisará de instruções técnicas da escola… 

Finalizando

Ensinei meus filhos a cumprimentarem as pessoas com “Faça um bom dia!” ao invés de “Tenham um bom dia!”, pois já convenci eles de que o dia dependerá do que você fizer, e não do que desejar.

Assim, feliz dia das crianças

Melhor. Na versão empreendedora, façam um bom dia para as crianças!

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Leia a edição anterior: DOO, a moeda virtual social nascida na InPacta

Gláucio Brandão é gerente executivo da inPACTA, incubadora da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).

Gláucio Brandão

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