Estes dias que não aguento, estes Brasis, este tormento Diversidades

segunda-feira, 30 maio 2022

Escrito desesperado em dor, expressando parte da realidade das crianças e adolescentes nesse Brasil em um momento de pandemia

Por: Joana Mercedes

Acredito que toda escrita reverbera algo que precisa ser dito, externado em verso ou apenas na palavra coloquial ou não. Hoje, escrevo com a vontade que eu tenho de existir nos tempos atuais, quase nenhuma, pois agonizando me percebo nos dias em que a esperança que ainda possuo, é a de que algo mude em tempo urge, sendo bem provável que a minha busca seja uma distopia do que hoje se estabelece contra o normal, pela contradição que estamos e não somos, já não sei mais nada, do que eu nunca soube. São quase quatro anos de governo, quase três anos de pandemia, quase destes “quases” e não me refiro ao poema do poeta português, mas falo do quase não existir.

Não há um único dia em que eu não derrame uma lágrima, um soluço, um grito exprimido e preso na garganta que me faz soltar agora, nessas linhas escritas a ferro e a “palo seco”, porque nem toda pancada é física, nem toda opressão é expressa, nem todo grito é ecoado. Pedindo licença ao mestre da palavra, o pernambucano João Cabral de Melo Neto, pois “O Cante sem o Cante” permanece em nossa alma ou a resistência dela:

A Palo Seco

Se diz a palo seco
o cante sem guitarra;
o cante sem; o cante;
o cante sem mais nada;
se diz a palo seco
a esse cante despido:
ao cante que se canta
sob o silêncio a pino.

O cante a palo seco
é o cante mais só:
é cantar num deserto
devassado de sol;
é o mesmo que cantar
num deserto sem sombra
em que a voz só dispõe
do que ela mesma ponha.

Clique e veja a poesia completa: A Palo Seco-Poesia

Hoje, não ontem, espero dizer o que nos prende, neste “Brasis” de Bolsonaro, é um cante que mesmo sendo gritado, expressado e explícito, ele é contido pelo não resolver das coisas necessárias e essenciais neste momento. Não falo mais das vacinas, não falo mais dos nossos mortos, porque como disse Darcy Ribeiro em “O Mulo”: “se o filho é da mãe, o morto é do matador”. Falo em nossos mortos, porque não há um único dia em que eu não me pergunte: O que poderíamos ter feito? O fizemos? Não sei dizer, mas sei que existem várias maneiras de sermos cúmplice de alguém, uma delas é a omissão. Essa omissão, inútil e impotente me deprime, nos deprime e o que nos faz permanecer omissos é o fato de tanto grito, de tanta luta e de tantos atos perversos permitidos por este governo continuarem em ação não realizada. É como se o governo fosse o grande cúmplice da nossa omissão, quando na verdade, ele é o grande opressor, mas de forma, também, explícita e genuína da nossa dor.

Juana Mercedes

No mês de abril tivemos a triste notícia do falecimento de uma criança Yanomami, estuprada até a morte por garimpeiros, além desse crime, nesse mesmo momento, pelas mãos dos mesmos assassinos, teve a morte de uma outra criança que foi jogada ao rio. Criança que existiu e não quase existe, apesar da falta de comprometimento do Brasil com a causa indígena.

Ocorre que a Polícia Federal relatou não ter encontrado indícios dos crimes denunciados pelos Yanomamis, pois não teriam encontrado o corpo das crianças. O que não prova que o fato não tenha ocorrido, pois a comunidade Yanomami possui rituais próprios em relação a passagem dos mortos ao outro mundo. O que pode ter provocado o fato deles não terem entregue os corpos com medo de não poderem realizar os seus rituais, já que na pandemia, provocada pelo Novo Corona Vírus, existiram omissões, como também desaparecimentos dos corpos de algumas aldeias Yanomamis. Se não se é dado o mínimo que seria o respeito a sobrevivência e a manifestação de suas crenças, o que se poderia oferecer como resposta a esse crime? Nada!

Lógico, que isso é apenas uma suposição. Todavia, uma suposição possível, diante de tanto descaso e violação dos direitos dos povos originários deste país. Na qual, cria-se a incerteza da existência dessas comunidades, não por não existirem, porque existem, mas por parte do interesse desse governo desumano e cruel. Outra hipótese, é a de que os próprios garimpeiros poderiam ter escondido o corpo. Não sabemos, pois pouco se é noticiado ou informado, seriamente, sobre as aldeias que são invadidas por garimpeiros, bem como produtores rurais. Desde de 2020 o número de invasões as terras de comunidades originárias aumentaram, bem como o assassinato de povos originários.

No dia 18 de maio, comemora-se o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Infantil, dia em que se discute questões relacionadas ao tema, mas que não nos traz propostas de políticas sociais que possam transformar ou minimizar essa problemática presente em nosso país. A data foi estabelecida, em 1973, em motivo da morte de uma criança, com apenas 8 anos, que foi sequestrada, violentada e morta de maneira cruel, tendo o corpo carbonizado. Os seus assassinos nunca foram punidos.

Crédito: Charge de Gilmar Machado

Quando me expresso por Brasis, como na obra de escritor Euclides da Cunha ou música do compositor Seu Jorge, penso em todas as realidades existentes em nosso território, realidade que em sua maioria é distinta, mas demonstra situações que se repetem. Eu mesma perdi uma amiga quando ela tinha 10 anos, foi violentada e morta cruelmente na frente de sua irmã de 4 (anos). Temos muitas situações e fatos que perpassam por esse problema, mas que não existe um movimento verdadeiro para se transformar. Os conservadores, aqueles que não são a favor de uma educação sexual nas escolas, são os mesmos que “adéquam as leis” para as situações, permitindo que crianças e adolescentes sejam vítimas de crimes contra a dignidade sexual e mantendo os seus agressores impunes.

Dentro das residências, existem, tios, avós, pais, vizinhos ou amigos que tem acesso a essas crianças e adolescentes de maneira desrespeitosas, pois não respeitam o desenvolvimento delas, retirando a dignidade, gerando uma baixa estima, bem como outros problemas de ordem psicossocial e até mesmo de ordem física aos que sobrevivem diante do abuso. São vítimas, não apenas as crianças que sofrem com esses crimes e perdem a sua vida, mas as que presenciam e permanecem “vivas”. Eu mesma, quando perdi essa amiga, tive a notícia de sua morte, eu estava com 12 (doze) anos. Até pouco tempo sonhei com essa situação, fico entristecida todas as vezes que me deparo com a notícia de algo parecido ou próximo. Uma dor, que quando aparece, deixa-me em crise por um bom tempo. Fico por pensar na dor de sua irmã que presenciou tudo e ainda reconheceu os assassinos, quando estava apenas com 4 (quatro) anos de idade. Uma marca de dor que se carrega por toda uma vida, pois a tenho comigo.

A maioria das mulheres que conheço, sofreram algum abuso sexual ou foram assediadas desde a infância, uma cultura que gira em torno de padrões de beleza que faz com que o homem adulto deseje a criança, mesmo que seja na imagem da mulher já com o corpo formado, que sempre tenta, mesmo que de maneira inconsciente, reproduzir este padrão. Ademais, existe uma cultura pornográfica em cima desses padrões.

Crédito Erickson Marinho

Até quando tantas crianças quase existiram? Até quando tantas crianças não chegarão a fase adulta? Até quando os padrões de beleza não vão reconhecer a beleza na mulher através da sua maturidade? Não sabemos.

Outro ponto pouco registrado, são as crianças e adolescentes do sexo masculino que sofrem abusos, pouco se é discutido, o que gera uma problemática em cima de outras problemáticas, já que estudos mostram que os meninos, por serem menos reprimidos sexualmente, tendem a reproduzir o abuso sofrido em maior número.

Sabemos que na pandeia o número de denúncias de crimes contra a dignidade sexual de crianças e adolescentes aumentaram, tanto em relação as meninas, com também em relação aos meninos.

Ademais, temos as crianças que denunciam as violências sofridas e ainda assim não possuem o socorro necessário dentro de suas residências, sendo vitimadas por mais de uma vez, pelo abuso e pela omissão. É o choro injustiçado, reprimido e nunca acolhido.

O que pouco sei, é o que sinto e o que sinto agora dói. Até porquê, dor sem dó, dói. E nem sempre as nossas crianças podem gritar ou até mesmo conter a dor, pois perdem a vida, de uma maneira ou de outra, elas sempre perdem. Meninas e meninos se foi retirado deles, a delicadeza ou a felicidade da lembrança na infância, a vida ou parte dela. Espero que um dia, possamos levar a nossas crianças e os nossos povos originários com respeito e zelo, pois o que temos, ainda, é a opressão e o descaso com os mais frágeis, aqueles que chamamos de esperança do Brasil.

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Leia a coluna anterior: Jornalismo mágico na América Latina

“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom é um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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