“Faz-se necessário praticar o pensamento crítico com os alunos” Coluna do Jucá

quinta-feira, 14 março 2019
Denise Hissa em campo na Serra de Pacatuba, Pacutba, Ceará.

Entrevista com Denise Hissa, bióloga e professora da UFC que foi um dos 65 pesquisadores brasileiros (entre 1.955) selecionados para o apoio do Instituto Serrapilheira

A entrevista dessa semana foi realizada com Denise Cavalcante Hissa, Professora Adjunta do Departamento de Biologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Denise é bióloga e doutora em Biotecnologia – Rede Nordeste de Biotecnologia (RENORBIO), ambos pela UFC. O seu doutorado foi realizado na modalidade Sanduíche no Exterior (CNPq), no Laboratório de Biologia Estrutural da Universidade de Graz, na Áustria, onde passou 18 meses. Neste período adquiriu experiência na área de cristalografia de macromoléculas e resolução de estruturas, por meio da coleta de dados em Síncrotrons Europeus, e dos estudos com Espectrometria de Massa. A professora Denise atua hoje utilizando as ferramentas “ômicas” para desvendar problemas biológicos.

Coluna do Jucá: Em 2017, um projeto de pesquisa de sua autoria foi um dos escolhidos na primeira chamada pública do Instituo Serrapilheira, organização privada que se destina a financiar projetos de pesquisa científica no Brasil. Dentre as 1.955 propostas analisadas de todo o país, apenas 65 foram escolhidas. Você poderia falar um pouco a respeito dessa pesquisa?

Denise Hissa coletando ninho de espuma aquático na Serra de Pacatuba, Pacatuba, Ceará.

Denise Hissa: Então, tive o privilégio de ter um projeto contemplado pela primeira chamada do Serrapilheira. O projeto é voltado para o entendimento da bioarquitetura das biomoléculas que compõem os ninhos de espuma de anuros. Algumas rãs depositam seus ovos em espumas estáveis chamadas ninhos de espuma, que permitem o desenvolvimento dos ovos e girinos fora da água. Eu sempre achei esse fenômeno muito interessante, desde minha graduação. Ainda não se conhecem as proteínas e carboidratos envolvidos nessas espumas e nem a interação entre essas moléculas para permitir a construção dessa “casa”. Quais as proteínas envolvidas? Quais os genes envolvidos? Como essas moléculas se organizam para formar os ninhos de espuma? Quais as relações evolutivas entre os ninhos de espuma de diferentes espécies? São algumas das perguntas que pretendemos responder. Ressaltando que essas espumas biológicas possuem diversas aplicações na biotecnologia e biomedicina. E tivemos a “sorte” de sermos apoiados pelo Serrapilheira, que é uma iniciativa privada maravilhosa. Só mesmo um cientista para saber como essa iniciativa é importante para o nosso país, eles estão acreditando, apostando na gente. Nunca vi nada igual vindo de uma iniciativa pública, não estou falando apenas do financiamento em si que já existe do governo, estou falando de como o Instituto Serrapilheira vem nos acompanhando com encontros, cursos e conselheiros científicos.

Coluna do Jucá: Se tem uma área da biologia onde é marcante a presença dos homens, pode-se dizer que é na biologia estrutural. Curiosamente e/ou ironicamente, uma das mulheres mais injustiçadas na história da ciência fora dessa área, Rosalind Franklin. Tendo passagem por importantes centros de biologia estrutural na Europa (ELETTRA, ESRF e SLS), você acha que ainda há uma barreira de gênero nessa área ou seria injusto falar isso?

Coleta de ninho de espuma terrestre na Taíba, São Gonçalo do Amarante, Ceará.

DH: Nós mulheres viemos passando por uma luta de inclusão em vários setores da sociedade há alguns anos. Na ciência ainda temos que lutar para inclusão de gênero e, também de outras minorias como raça e baixa renda. Em algumas áreas da ciência, a inclusão da mulher é mais visível, como nas ciências da vida. Mas, nas engenharias, físicas e matemáticas, a presença de mulheres ainda é rara. No caso da biologia estrutural, que envolve muita física, acredito que siga esse padrão de ainda predominar homens, infelizmente. Faz-se necessário, projetos que envolvam inclusão de minorias na ciência!

Coluna do Jucá: Não restam dúvidas de que o bioquímico e ícone da ciência moderna, John Craig Venter, ajudou (e muito!) a popularizar a genômica ambiental. Estudar o material genético de bactérias e outros microorganismos incapazes de crescer em cultura, e, vislumbrar, a partir daí, um potencial biotecnológico que estava até então escondido, pareceria coisa de ficção científica, isso, se descrito há algumas décadas atrás. O “DNA ambiental” lançou sobre a ecologia uma nova perspectiva sobre a qual é muito difícil desvencilhar-se desde então?

DH: Sim, com certeza! É fascinante a velocidade com a qual a ciência vem se modernizando. Imagina a rapidez com que o celular foi inventado e por quantas transformações passou até hoje! Na ciência também, as tecnologias evoluíram de uma forma indescritível, a globalização das informações também nem se fala. Há 15 anos a forma de sequenciar o DNA era completamente diferente da forma de hoje. A quantidade de sequencias disponíveis nos bancos de dados deu um salto enorme. Mas, ainda existe um mundo para se estudar! Já estão disponíveis nos bancos de dados o genoma de 227 mamíferos, por outro lado existem somente o genoma de 6 anfíbios disponíveis. Com relação ao mundo microbiano, há alguns anos, conhecia-se somente 0,1 a 1% dos microrganismos de amostras ambientais. Com as novas tecnologias de sequenciamento do DNA, um maior percentual de microrganismos nunca estudados está sendo conhecido e com isso novas descobertas estão sendo realizadas!

Coluna do Jucá: As análises dos mais diversos microbiomas humanos têm impactado a comunidade científica pelos resultados que tem trazido à tona. Como consequência, as mais prestigiadas revistas científicas do mundo tem dado enorme destaque para esses estudos. Ano passado um estudo publicado na Nature Neuroscience reforçou a hipótese de que a microbiota vaginal é fundamental para o desenvolvimento adequado do sistema imunológico dos recém-nascidos. Esse ano, um estudo publicado na Nature Microbiology, identificou dois tipos de bactérias intestinais relacionadas com a depressão. Diante desse contexto, os estudos acerca do microbioma humano marcam o início da quebra de velhos paradigmas e o surgimento de novos?

DH: Com certeza! Estima-se que o nosso corpo tenha em média 1013 células “nossas” e 1014 células microbianas. Ou seja, somos um verdadeiro micróbio ambulante! Deixando a brincadeira a parte, temos tantas células de microrganismos convivendo no nosso corpo que precisamos entender o papel delas. Grande parte dessas bactérias são benéficas, nos protegem contra outras bactérias que causam doenças, contribuem para a regulação do nosso corpo e muitas outras funções que nem imaginamos. Muitas doenças como depressão, e mais recentemente o Alzheimer, estão sendo relacionados a essa microbiota. Agora, o grande desafio é entender como podemos disponibiliza-los via medicamento ou como podemos enriquecer os grupos de microrganismos benéficos no nosso corpo, que tipo de alimentação ou comportamento devemos ter, para que esses grupos sejam favorecidos.

Coluna do Jucá: Houve uma deterioração do cenário científico, educacional e cultural vivido no país, de maneira surreal, nos últimos anos. Isso, obviamente, sem falar do cenário econômico. Como seres sociais, não há como ficarmos alheios, ou sairmos ilesos diante das inúmeras decisões políticas, as quais variam de governo para governo. Ainda é um desafio tratar com os alunos de questões de cunho científico, cujas temáticas digam respeito às minorias, à descriminalização do aborto e das drogas, só para citar alguns exemplos, ou seja, prover uma educação científica crítica, engajada e não alheia a tudo e a todos, alimentada muitas vezes, apenas, por artigos científicos indexados?

DH: Sim, o papel do professor vai além do ensino de conteúdos científicos. O conteúdo teórico por si só não é tão relevante, pois a acessibilidade da informação científica permite que esse conteúdo seja facilmente encontrado. Devemos mostrar ao aluno como pesquisar a informação para responder determinadas perguntas científicas. Além do mais, faz-se necessário praticar o pensamento crítico com os alunos além de outras habilidades. Sendo um dever da universidade se aproximar cada vez mais das necessidades da sociedade, caminhar juntos (sociedade e universidade) é extremamente importante. Uma das maneiras de se realizar essa conexão é através das atividades de extensão, onde os alunos entram em contato com a sociedade e aborda-se, como forma de conteúdo, as necessidades dessa sociedade. Atividades de extensão estão bastante presentes nas universidades públicas e pouco presentes em universidades particulares, mostrando também a grande importância de universidades públicas para a sociedade.

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Leia o texto anterior: Breves comentários sobre divulgação científica

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

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