Há que adiar o fim de todos os mundos – Parte 1 Diversidades

segunda-feira, 2 setembro 2019

Reflexões sobre a relação hierárquica de sujeito e objeto entre humanidade e natureza

A Amazônia grita com as veias dilaceradas e boa parte do corpo em chamas. O Pantanal sangra, ferido e atordoado, enquanto o cerrado jaz em coma, com o corpo carbonizado. O Rio Doce e o Paraopeba já exalaram seus últimos suspiros.

Enquanto, em salas alternativas, passa o filme que conta a história de um mundo – aliás, vários mundos – cujos céus estão despencando, na sala principal exibem o blockbuster que mais atrai e entretém multidões. É o remake da mesma, velha história que há muitas décadas enfeitiça gerações: a da “normal” atividade extrativista que “usa” os “recursos naturais” para a acumulação de capital e a suposta satisfação das “necessidades” de uma humanidade – uma ínfima parte dela, na verdade – separada de tudo o mais. Apesar da aparente cegueira dos produtores e espectadores dessa superprodução, ambas as histórias caminham para o mesmo desfecho… a não ser que produzamos e lancemos uma sequência que mude o rumo da narrativa.

Seja qual for a história que escolhermos, o que ela narra é a configuração mais recente do avanço virulento do projeto colonial: o projeto que instituiu “humanidade” e “natureza”, separando-as e colocando-as em uma relação hierárquica de sujeito e objeto. Uma humanidade uniforme, definida pelas mesmas necessidades e a mesma racionalidade instrumental, com a mesma ideia de “bem-estar” como acumulação de mercadorias e poder de consumo, como acesso a serviços e a artefatos tecnológicos produtos da técnica ocidental moderna. Humanidade que explora uma natureza também homogênea, objeto sem intencionalidade nem finalidade, com leis universais próprias, que pode ser observada a partir de vários pontos de vista culturais, mas só conhecida em seu “verdadeiro” funcionamento pela ciência; um reservatório de “recursos” à disposição do humano que pode ser domesticada e utilizada a nosso bel prazer. Ao criar esse tipo de humanidade, a modernidade colonial forjou e impôs a todo o planeta seu corolário: o “desenvolvimento. Desenvolvimento – como aponta Alberto Acosta, teórico equatoriano do Buen-Vivir[1] – entendido como crescimento econômico, produção incessante de mercadorias alimentada pelo consumo e de tecnologias voltadas para essa produção. Pressupostos que as suas diversas variantes (“desenvolvimento sustentável”, “desenvolvimento social”, etc.), concebidas quando alguma de suas consequências incomodam, mantêm intactos.

A configuração atual desse projeto no Brasil o explicita e incentiva em toda a sua violência. Desmatamento e destruição de ecossistemas em benefício da agropecuária latifundiária e grileira e da mineração predadora ocorrem há muito tempo, não tendo sido detidos nem durante os governos do Partido dos Trabalhadores, que – aliás – favoreceram a expansão do agronegócio com incentivos fiscais e financiaram, através do Banco Nacional de Desenvolvimento, a megamineração e obras de violentos impactos socioambientais no Brasil e em vários outros países da América Latina. Porém, no atual governo de extrema direita a devastação de biomas é alimentada pelo discurso oficial e fomentada pelas práticas do poder executivo sem nenhuma mediação de interesses. A demissão do diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e a desqualificação das informações produzidas pelo órgão sobre desmatamento, que apontam um aumento de 70% de focos de queimadas em menos de um ano; o corte de 50% do orçamento destinado ao combate e à prevenção de incêndios florestais; o corte de 95% da verba para implementar políticas sobre as mudanças climáticas; a transferência do Serviço Florestal Brasileiro do Ministério do Meio-Ambiente para o da Agricultura, orgânico aos interesses do agronegócio; a retirada da Polícia Federal das reservas ambientais; o conhecimento prévio de que fazendeiros iriam provocar uma forte onda de queimadas – ato criminoso batizado por seus autores como “Dia do Fogo” – e não ter tomado nenhuma medida para impedi-lo; as inúmeras declarações do Presidente da República menosprezando as preocupações com a natureza e minimizando a destruição em curso, quando não legitimando-a, escancaram que o governo federal brasileiro incentiva e dá suporte ao extermínio dos biomas do país sem qualquer tentativa – como costuma ocorrer em regimes de democracia liberal representativa, que não deixam de estar a serviço do grande capital, mas assumem um mínimo papel mediador de forças sociais em conflito – de monitoramento, de manutenção desses fenômenos dentro dos marcos legais que permitem seu controle e regulação, de proporcionar algumas compensações (mesmo que isso seja insuficiente) para as comunidades e ecossistemas afetados, algum apoio (ainda que mínimo, com relação ao que é dado ao agronegócio) a outras formas de relação do humano com seus ecossistemas, como a agricultura familiar.

Mas a questão não é mudar a configuração do projeto colonial, amenizando seus efeitos; não se trata de buscar outras versões de “desenvolvimento”, outros caminhos para “chegar” a ele. Se quisermos evitar a extinção da vida de milhões de seres, incluindo a nossa, é preciso acabar de vez com o projeto colonial, construir alternativas ao desenvolvimento. Não uma grande alternativa global, que reintroduziria pela janela o universalismo colonial expulso pela porta, mas uma miríade de alternativas plurais, em constante diálogo e que se interfecundem.

Para isso, precisamos muito mais do que ouvir outras perspectivas. Precisamos redefinir nossa humanidade – e a “natureza” que criamos como objeto dela separado – deixando-nos transformar por outros modos de ser. Precisamos viver novos mundos, enxergar que nosso mundo são inúmeros mundos… e que a imposição de um mundo único, reservatório de “recursos” para a acumulação de capital e a alimentação do consumo, está destruindo todos os mundos possíveis.

Voltar a dialogar com o rio e a montanha

No atual cenário de devastação, chegou às minhas mãos o livro Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak (Companhia das Letras, 2019), pensador que está sofrendo na pele, junto ao seu povo, o assassinato do Rio Doce, envenenado por cerca de 45 milhões de metros cúbicos de lama tóxica da mineradora Samarco. Em três curtos ensaios, adaptações de palestras ministradas em Portugal entre 2017 e 2019, mais que sugerir respostas Krenak põe perguntas fundamentais para a nossa época.

A primeira delas, incontornável, é: como construímos ao longos dos últimos dois ou três mil anos a ideia de humanidade hoje imperante? Uma humanidade homogênea e excludente que hierarquizou seus próprios membros em mais e menos “desenvolvidos” (substituto contemporâneo dos “mais humanos” e “menos humanos” de outros tempos); forjou a “natureza” para se separar dos outros seres e a objetificou para dominá-la; criou “necessidades” – “básicas” e não – a serem satisfeitas pelo consumo; externalizou sua subjetividade e a natureza na mercadoria e a abstraiu em “valor de troca” que possibilita o intercâmbio universal, mercantilizando toda a vida e transformando seres em “commodities”. Uma humanidade que trata uma parte de si, aquela que não se adequa ao “desenvolvimento” que engendrou, como descartável. Não é por acaso que – segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – as queimadas e o brutal desmatamento das últimas semanas atingiram, em Mato Grosso, quase todos os 219 mil hectares de terras indígenas, onde vivem cerca de mil e quinhentos Xavantes e Areões. Essa humanidade “menor”, “quase natureza” (portanto, objeto), para os humanos muito-humanos é sacrificável.

A segunda grande pergunta que Krenak levanta é: o que é preciso “sustentar” quando se fala em “desenvolvimento sustentável”? A quem interessa um conceito que não problematiza as ideias de “progresso” como acumulação incessante de capital e a de seres vivos e não-vivos como “recursos naturais”, preocupando-se apenas em como administrar o uso desses “recursos” para não exauri-los rápido demais, a não ser às mesmas corporações, ao mesmo projeto de humanidade e de mundo que alimenta a depredação?

Uma terceira questão essencial que o pensador coloca é: por que certas histórias não nos fascinam como a narrativa sobre o humano e a natureza que nos contam todo dia há milhares de anos? Por que histórias de rios avôs de aldeias, de pedras que irmãs de anciãs, de montanhas que trocam afetos não têm o mesmo poder de afetar nosso pensar, nosso sentir e nosso agir como a do “desenvolvimento”? Por que histórias de sujeitos, grupos e povos que o projeto colonial dizimou e relegou à marginalidade – transformando-as em “representações” ou “narrativas míticas”, em “folclore”, em tudo menos conhecimentos e modos de estar no mundo – não nos atraem?

E se, como Krenak e também a antropologia perspectivista de Eduardo Viveiros de Castro nos provocam, não só ouvíssemos essas narrativas, mas passássemos a perceber, a nos relacionar com o mundo, a viver também com base nelas? Se suspendêssemos por um instante nossos pressupostos e agíssemos como se a condição comum a tudo o que existe fosse a humanidade, ao invés que a “biologia”? Se fôssemos todos sujeitos: nós, os rios, as montanhas, as árvores, as cachoeiras, os peixes, o solo? Se nossos antepassados estivessem aqui, mesmo que não os vejamos, e pudéssemos nos comunicar com eles assim como com os nossos amigos, com as folhas ou com o vento? Se todos os sujeitos, humanos e não, estivessem interligados e qualquer ação no mundo implicasse na reconfiguração de tudo o mais, atrelando nossa existência à de todos os outros seres, visíveis e invisíveis? Se as montanhas formassem casais, tivessem irmãs e irmãos, filhas e filhos, como em alguns lugares dos Andes? Se serras tivessem personalidade e os que vivem aos pés delas tomassem decisões dependendo do seu humor, como acontece na aldeia Krenak à beira do Rio Doce? Se as lagoas respirassem, sentissem e falassem com as pessoas e os demais seres que vivem ao seu redor, como a lagoa vulcânica de Quilotoa, a quase quatro mil metros de altura, que conheci no coração dos Andes equatorianos? Se houvesse céus feridos ameaçados de queda, como ocorre no território Yanomami devastado pelo garimpo e desventrado pela mineração?

Quando despersonalizamos o rio, a montanha, quando tiramos deles os seus sentidos, considerando que isso é atributo exclusivo dos humanos, nós liberamos esses lugares para que se tornem resíduos da atividade industrial e extrativista[2], afirma Krenak.

Não estou falando de outras “narrativas”, mas de outros mundos… e muitos deles já se acabaram, há céus que já desabaram. A razão colonial não admite outros cosmos, nem outras humanidades. A humanidade pretensamente “universal”, a que acredita habitar um único mundo, o que homogeneizou transformando-o em reservatório para a produção de mercadorias e que, em sua arrogância antropocêntrica, quando se põe o problema de um desenvolvimento “sustentável” pensa que pode ou que precisa “salvar o planeta”, é incapaz de enxergar que o planeta vai continuar seu curso com ou sem nós e os demais seres vivos, mas que ao aniquilar ecossistemas, biomas, pensamentos, modos de vida destruiu inúmeros mundos. O “fim do mundo” aconteceu infinitas vezes, o que precisamos adiar com urgência é o dos mundos que sobram… incluindo o da humanidade que pensa que só há um mundo, do qual se acha dona.

Referências:

[1] O Buen-Vivir, ou Sumak Kawsay em quéchua, é uma alternativa decolonial ao conceito de desenvolvimento. Se funda no diálogo entre saberes e práticas ancestrais e conhecimentos filosóficos e científicos ocidentais para promover formas de organizar a sociedade não baseadas na acumulação de capital e no consumo. Foi transformada em princípio fundador da nova Constituição da República do Equador, promulgada em 2008.

[2] Ailton Krenak, Ideias para adiar o fim do mundo (São Paulo: Companhia das Letras, 2019), p. 49.

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Leia a coluna anterior: Um grito de revolução

Antonino Condorelli é Professor Adjunto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte

Antonino Condorelli

2 respostas para “Há que adiar o fim de todos os mundos – Parte 1”

  1. José Antônio disse:

    Já pensou em trocar um pneu de carro qualquer dia desses?

    Experimentar a realidade concreta de vez em quando vai lhe fazer muito bem.

  2. Experimento a “realidade concreta” todo dia e por isso mesmo tenho cada vez mais convicção de que o projeto ocidental moderno do “desenvolvimento” precisa ser substituído com urgência por outras formas do ser humano lidar com o mundo e consigo mesmo.

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