Jornalismo Mágico na América Latina – Parte 2 Diversidades

terça-feira, 10 maio 2022

Uma proposta de descolonização do jornalismo a partir da experiência real e mística do cotidiano latino-americano

Por Sarah Fontenelle Santos* (Instagram: instagram.com/sarahfontenelle.santos/).

A captação

De posse de tantas liberdades, precisamos planejar o modo como vamos levantar os elementos da realidade, não é mesmo? Contar as nossas histórias e memórias, individuais ou coletivas, é uma tarefa que nos exige comprometimento e para que não nos percamos no caminho, Edvaldo Pereira Lima (2009) nos socorre mais uma vez.

  1. A entrevista : Nós podemos optar por entrevista, que por sua vez não precisam ser aquelas maçantes e tecnicistas. No dizer, de Cremilda Medina (2003), as entrevistas podem ser caminho para o plurálogo, quer dizer, o diálogo plural.
  2. Histórias de vida: essa é uma técnica (às vezes considerada método ou metodologia) que ganhamos da história oral e aqui podem fazer todo o sentido. Podemos aqui, participar de modo mais vivencial para sentir-pensar as realidades diversas que carregam os indivíduos e suas coletividades. Aqui podemos criar perfis biográficos, pode ser também auto-biografia, podemos mesclar a entrevista clássica com depoimentos ou ainda realizar entrevistas biográficas. Vale muito resgatar a oralidade dos sujeitos, destacando suas culturas e relações sociais.
  3. Memória: Aqui buscamos enriquecer nossas contações retomando as riquezas desta dimensão que pode ser psicológica e social. Esta é uma dimensão superior na compreensão dos sujeitos sociais que se inserem nas situações examinadas. Lembro aqui do intelectual indígena Ailton Krenak, quando diz que nos conectarmos às nossas memórias profundas é uma forma de não sucumbirmos à loucura. Memória é resistência. Também aqui vale lembrar a vertente do Jornalismo Gonzo, que faz largo uso de viagens psicológicas. Digo viagem no sentido amplo do termo. Esta vertente, renegada do jornalismo literário brinca com o inconsciente, a experiência junto aos fatos.
  4. Documentação: Coleta de fontes, dados, livros, filmes e tantos outros registros de conhecimento, podem nos ajudar a fundamentar e criar argumentos para as nossas narrativas.
  5. Observação participante: aqui também é uma metodologia de pesquisa, que pode nos ajudar a captar a realidade a partir das vivências. Não há como retratar a realidade se não for com vivacidade e presença, assim a observação participante nos permite um mergulho e envolvimento nos acontecimentos e situações. Esta forma de captação da realidade pode nos render bons relatos em primeira pessoa (Eu ou Nós).

Foto Ilustração – Fonte site olhar conceito.

A construção fluída de nossas histórias 

Uma questão recorrente que eu encontrava em sala de aula – e fora dela – era se o jornalismo literário é apenas escrito e se alguns programas de tv e rádio são da corrente do jornalismo literário. Bom, isso daria um debate longo, não quero me estender, mas lembrar aqui da experiência coletiva que vivemos no rádio (na FM Universitária, UFPI) com o Gira Poesia – esse era um programa experimental que dialogava com os movimentos culturais e de resistência, onde abusávamos do nosso potencial criativo e reelaborador da realidade. Assim, as dicas que vão seguir, que, mais uma vez, recorro a Edvaldo Pereira Lima (2009), são dicas de texto, mas nada impede que seja devidamente apropriadas na construção de outras mídias.

  1. fruição pelo texto:  procuramos fugir da excessiva prisão à informação, ou seja, nos aprofundamos no que comunica (pode ser um gesto, um olhar, um sentimento…). Aqui é preciso mais do que nunca produzir significados. Ou seja, se a mídia convencional se preocupa em dizer sobre os fatos, nós podemos nos ocupar de seus significados, afetações, explicações e interpretações.
  2. Narração: é útil para ordenação dos fatos. Como organizamos a sequência temporal, por exemplo.
  3. Descrição, podemos aqui nos lançar na representação das particularidades dos seres objetos e situações. Cores, sabores, cheiros, sensações.
  4. Exposição : seria a apresentação de um fato e suas circunstâncias com a análise de causas e efeitos. Ou seja, como nós expomos as situações.
  5. Funções de linguagem: Podemos buscar nas linguagens tais como a referencial, expressiva, conativa, metalinguística. A seguir um quadro pra gente relembrar quais são as funções de linguagem mais recorrente
  6. Técnicas de angulação: escolher qual ângulo damos às palavras, imagens, as cores; é saber onde e quando cada componente vai entrar na história.
  7. Ponto de vista: Desnudar a realidade, mostrá-la ao leitor/receptor, como se fosse extensão de seus próprios olhos.
  8. Técnicas de edição: O hábil tratamento na montagem, estruturação e ordenação do conjunto dos componentes.

Concluindo sem conclusões

Por fim, gostaria de afirmar que este é um convite a reelaborar a realidade coletivamente, a partir de nossas subjetividades e cosmovisões de mundo. Podemos e devemos registrar nossas histórias e fazer delas uma importante arma na construção do poder popular. Procurei contribuir com alguns caminhos que temos experimentado, mas é claro, eles podem ser desaprendidos e reaprendidos. Ainda sou dessas que crer em Galeano “Barricadas fecham ruas, mas abrem caminhos”. Portanto, que façamos das destruições do feito, reconstrução rumo ao Ser Mais. Eu mesma, chegando ao final deste texto, já não sei se chamo este jornalismo de mágico, fantástico, realista, holístico ou transcendental, pois já me abriram caminhos. Espero que o mesmo tenha ocorrido a quem chegou até aqui.

A prática educativa de comunicAção é aquela que acessa memórias para dizer de outras narrativas possíveis. E é assim que queremos comunicar-agindo coletivamente. Fazer comunicação ou jornalismo desta forma é andarilhagens em memórias. É fazer com que a escrita faça sentir e agir e nos encaminhe para um lugar (vários) de escombros e alpendres das nossas memórias, individuais e coletivas. São andanças-atos de enunciação e anunciação de mundos.

Krenak (2019), afirma que sua luta é por poder contar sempre mais uma história. Assim, afirmo com ele que contar as nossas histórias e registrar nosso que-fazer é um jeito a mais de adiar o fim dos nossos mundos. É, portanto, exercício que age na permanência da contra-colonização e decolonialidade. Queremos, portanto, um jornalismo que diga sobre nós, das nossas existências e vivências e seja capaz de forjar rupturas nesse sistema-mundo capitalista rumo a um Bem Viver.

Por fim, gostaria de dizer que o jornalismo e os processos midiáticos sirvam para contar as nossas histórias.“Visibilizar os invisibilizados”. O objetivo primeiro da nossa comunicação-andarilhança é restaurar a palavra das mulheres, LGBTQIA+, dos povos negros (pretos) e indígenas, dos povos de santo, das diferentes formas de professar a fé, das pessoas com deficiência, das pessoas velhas, dos mais novos, das comunidades, periferias, dos povos do campo, caatingueirxs, ribeirinhxs, vaqueirxs, rezadeiras…. e toda gente que conosco tecem o cotidiano.

*Sarah Fontenelle Santos é jornalista e relações públicas por formação, comunicadora popular por questão de classe, co-idealizadora da Plataforma de Comunicação Popular e Colaborativa OcorreDiário e praticante de outros mundos possíveis.

Referências

A coluna Diversidades é quinzenal, publicada às segundas-feiras. Leia, opine, compartilhe e curta. Use a hashtag #Diversidades. Estamos no Facebook (nossaciencia), Twitter (nossaciencia), Instagram (nossaciencia) e temos email (redacao@nossaciencia.com.br).

Leia a coluna anterior: Jornalismo Mágico na América Latina – Parte 1

“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom é um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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