Mirtes, Miguel e a solidariedade seletiva Diversidades

segunda-feira, 8 junho 2020
Foto: Reprodução G1

Apesar de estarmos mais atentos quanto à disseminação de questões raciais e sua discussão na esfera pública brasileira, muito há para ser modificado em nossa sociedade

Por Andressa Morais

O rosto de Miguel sorriu para mim! Eram seis da manhã de uma quinta-feira incomum! incomum como todos os dias parecem ser desde que estamos nos virando como podemos em meio a um contexto de pandemia. Tudo é inesperado e assustador. Os olhos de Miguel mudaram-se para cá e aqui presidem todo o meu dia. Seu sorriso se tornou uma montanha russa pela qual me atrevo a ir subindo e descendo, sentindo um frio na barriga e um medo cortando a espinha, sem nunca sequer ter andando numa montanha russa antes. Esqueço por um momento que são torres gêmeas e o grau de gentrificação, verticalização e especulação imobiliária que isso revela. Mas não esqueço do sorriso de Miguel quando amanheci o dia. A bola de futebol no topo do bolo do aniversário de cinco anos parecia o momento mágico que o menino Miguel e a sua mãe Mirtes viveram juntos, pois o sorriso pleno de felicidade não nega. Mas não só de felicidade as lágrimas inundaram o rosto de Mirtes, em mais um dia de trabalho naquela terça-feira. E o país inteiro se emocionou com as lágrimas que lentamente afogavam o rosto daquela mulher. Percebe? Foi um instantinho! Um instantinho só! Miguel percorria solitário vãos, corredores, andares e elevadores em disparada atrás de sua mãe. Quem já andou com uma criança no elevador que não pediu “deixa eu apertar o botão?”. E o que fazemos nesses casos, indicamos, sinalizamos qual o botão do nosso destino, tornamos a experiência aparentemente rotineira uma oportunidade pedagógica e uma brincadeira. Nem sempre é possível ser assim, eu sei, mas também não precisava ser como foi. Crianças são crianças. Precisam de supervisão, paciência e atenção. Aos cinco anos não sabemos reconhecer o tamanho dos riscos que podemos correr em determinadas situações, temos uma coragem maior do que o peito e sonhamos mais alto quanto podemos amar. Alguém duvidava que o amor da vida de Miguel fosse sua mãe Mirtes, que sentindo-se solitário, irritado ou desconfortável em lugar estranho com pessoas estranhas chorasse para estar com a sua mãe? Para Mirtes parecia que daquela vez estava apenas cumprindo mais uma obrigação e saiu para passear com os cachorros, naquele dia, incomum, Miguel o havia acompanhado e como estava brincando com a filha da patroa, ao deixar o apartamento, esperava que Sari desse uma olhadinha em Miguel. Ora, “ela confiava os filhos dela a mim e a minha mãe”, agora era a vez de Mirtes confiar o seu menino Miguel à Sari, “no momento em que eu confiei meu filho a ela, infelizmente ela não teve paciência para cuidar, para pegar ele pelo braço e tirar. Se fossem os filhos dela eu tiraria[1].

Andressa Morais. Foto: Arquivo Pessoal.

A voz de Mirtes evoca um tipo de solidariedade entre mulheres que tem sido chamada de sororidade, no entanto não é produto de uma condição exclusiva do gênero, pois passa também por raça, por classe, por experiências relacionais com as quais as pessoas aprendem a cultivar o respeito mútuo. É um tipo relacional que se expressa no reconhecimento positivo, mas também nas experiências de compaixão compartilhadas entre mulheres em casos de sofrimento comum, mas acima de tudo, como diria Bell Hooks, está fundamentada no comprometimento compartilhado com o bem-estar de todas as mulheres. É o que revela a fala de Mirtes: o comprometimento com o qual ela mesma se dedicava aos cuidados com os filhos de Sari. Mas há uma diferença significativa que precede a tudo isto: a relação de trabalho. Mirtes era empregada doméstica de Sari. As tarefas de limpeza, manutenção e cuidados com a casa, os filhos e os animais domésticos estavam na rotina regular de Mirtes, e desse cotidiano compartilhado em uma relação de assimétrica de poder estruturada na forma da prestação de serviços, a sororidade da qual fala Bell Hooks não pode existir por completo. Para Sari parecia algo completamente banal colocar Miguel sozinho no elevador e seguir fazendo suas unhas, embora não imaginasse o que iria acontecer. No entanto, isso me fez pensar nessa distância social em que a solidariedade não se realiza. Na expectativa de vínculo frente ao esgarçamento afetivo, vejo nos olhos alagados de Mirtes hoje o desespero dessa esperança que mudou definitivamente a paisagem afetiva daquela família. Volto a ver a imagem fotográfica de Miguel em seu aniversário de cinco anos, um recorte nítido, sincero, a água nos olhos de Miguel os faz brilharem como um rio que acaba de abraçar o sol ao raiar do dia. Seu sorriso abraça o mundo e em nada revela o drama social que aquele 02 de junho de 2020 esconderia. O que aconteceu a muita gente dessa geração de Saris foi infinitamente mais profundo do que posso explicar aqui, mas nós precisamos evitar que a superficialidade, a preguiça e a mesquinhez prosperem no século XXI. A superficialidade que faz com que Sari permita que Miguel siga sozinho dentro do elevador para procurar por sua mãe, a preguiça de limpar a própria casa, cuidar dos próprios animais e filhos ou fazer as próprias unhas e a mesquinhez de não preservar o distanciamento social e manter Mirtes afastada das funções com remuneração de um salário mínimo. Aliás, seria mais digno, mais justo e o certo a fazer, está bem demonstrado que havia condições para isso.

Charge de Nando Mota.

Mas infelizmente não cultivamos em nossa sociedade uma ética adequada à raça. O respeito aos direitos com base nas noções de justiça e igualdade que invoque o importar-se com o outro como totalidade, pois isso nem sempre inclui pessoas de cor. A nossa classe média está sempre tentada a extrair mais-valia do corpo negro, a subtrair nossa humanidade ou nos objetificar. O desfecho infeliz só reforça a importância da valorização dos sentimentos morais como empatia, altruísmo e reconhecimento que devem contribuir para superar distorções como racismo, desrespeito e desigualdade.

Nós estamos imersos em contextos relacionais, somos frutos dessas estruturas sociais produzidas historicamente, isto é, de um racismo estrutural, aprendemos a respeitar e a conviver com as diferenças com as quais estamos em relação e é exatamente por isso que esse caso é exemplar do privilégio de raça e de classe, pois reifica o lugar social da subordinação, da desumanização e da desconsideração social ao negligenciar o cuidado com uma criança negra, filho da empregada doméstica. Apesar de estarmos mais atentos do que jamais estivemos quanto à disseminação de questões raciais e sua discussão na esfera pública brasileira, muito há para ser modificado em nossa sociedade quanto ao modo como a população negra ainda é tratada como objeto de indiferença ou de servidão. No entanto, quanto mais intensa é a fonte de luz que emana do sorriso de Miguel capturado em minha memória, menos suportável é olhar para os olhos de Mirtes derramados em lágrimas de dor e não me solidarizar. Os olhos dela ordenavam-me, de dentro para fora, continue a nossa história. E senti-me compelida a seguir guiada pela memória do olhar de felicidade genuína compartilhada por Miguel e Mirtes naquele retrato de aniversário em que ele sonhava se tornar um jogador de futebol.

Charge de LZMZ.

Agora, aqui, ao primeiro sol com os olhos abertos, vi um cortejo cerimonioso desfilando um luto coletivo e político cujos corpos se procuravam nas ruas como uma maneira de ferver o coração de Mirtes e acalentar o sofrimento pela perda precoce de seu menino Miguel. Não me lembro o que se passou depois, também não posso mensurar o sofrimento social em torno disso. Retive apenas a cumplicidade no olhar feliz dos dois naquela fotografia, sem muito esforço, pois uma coisa é certa, não é fácil meter a felicidade capturada numa imagem, a cara de uma pessoa feliz logo se entrega, então fixei uma vez mais o sentido de vida plena expresso no franco sorriso de Miguel. E quando achei que já tinha desvencilhado da tristeza lembrei-me de Mia Couto: “A dor é uma estrada: você anda por ela, no adiante da sua lonjura, para chegar a um outro lado. E esse lado é uma parte de nós que não conhecemos”.

Referência:

[1] Em entrevista à TV Globo. Ver: < https://g1.globo.com/pe/pernambuco/noticia/2020/06/03/corpo-de-menino-que-morreu-ao-cair-do-9o-andar-de-predio-no-recife-e-liberado.ghtml >. Acesso em 05. Jun.  2020.

Andressa Morais é Antropóloga, Doutora em Antropologia pela Universidade de Brasília, pesquisadora do Grupo de Pesquisa Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e do Laboratório de Estudos da Cidadania, Administração de Conflitos e Justiça da Universidade de Brasília.

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Leia a coluna anterior: Sobre empurrar o céu e respirar: vidas negras, necropolítica e o direito à existência

“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom, um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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