O fim das interrogações Ciência Nordestina

terça-feira, 7 janeiro 2020

Passada a infância, deixamos de fazer perguntas o que inibe nossa inteligência e a plenitude da capacidade criativa humana

Infância combina com interrogação. É neste período em que o processo de aprendizagem encontra indivíduos sem os pudores da maior idade e, portanto, aptos a descobrir repostas para qualquer questão. Com o tempo e, em especial, com os vícios da educação formal surgem as convicções que começam a apagar as interrogações. Estas “certezas” vêm de modelos, diplomas e certificados – fruto de um anseio por reconhecimento social que requer sapiência acima de qualquer questionamento indesejável.

Aqueles que foram crianças altamente curiosas passam a ser receptáculos de respostas prontas para perguntas específicas – um tipo de glossário ambulante. E como são poucas as respostas prontas para as infinitas perguntas que o universo faz, a ânsia de ser sábio torna o adulto um ser avesso às indagações mais espetaculares.

Apenas algumas perguntas são suficientes para manter a sua reputação – quanto ao resto, basta acreditar que são coisas e áreas menos relevantes. E assim, o adulto que outrora sonhou em entender o universo passa a se conformar com os possíveis problemas cuja solução ele domine. Por um acaso do destino isso pode até acontecer, e quando der um “match” nosso cientista passará por um notório brilhante! Ele terá o par pergunta-resposta na ordem causa – consequência, como deveria ser. Mas devemos perceber que isto é muito pouco!

Temos o infinito de interrogações na infância e resolvemos passar o resto de nossas vidas buscando perguntas para nossas próprias respostas, numa mesquinhez tremenda – o que é alimentado pelo medo de não sabermos a respostas das perguntas que de fato valem a pena.

Este silêncio (adulto e arrogante) entra e ocupa os espaços da interrogação infantil e cria reticências opacas que inibem com que nossa inteligência exerça em sua plenitude a capacidade criativa humana.

Reside nesta constatação uma grave deficiência que vem de nossa educação bancária: a de não fomentar a criatividade humana. Assumir o “não sei” é muito mais importante que expressar o “eu sei”. Quando você se coloca livre das vestes do conhecimento desvendado está dando o primeiro passo na direção de atingir novos patamares do conhecimento humano.

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Leia o texto anterior: 2020: Marte e a desigualdade

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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