O imperialismo ecológico no contexto global Coluna do Jucá

quinta-feira, 24 janeiro 2019

A globalização foi capaz de encurtar muitas distâncias, inclusive aquelas que dizem respeito às interações entre os seres vivos

A proeza dos navegadores de outrora não se limitou a ir ao além-mar. Mudou, sobremaneira, a distribuição das espécies sobre a Terra. A globalização trouxe consigo, antes de qualquer coisa, um “encurtamento” biológico, ou melhor, ecológico. Como diz Gilberto Gil nos versos da letra da música Parabolicamará Antes mundo era pequeno, porque Terra era grande, hoje mundo é muito grande, porque Terra é pequena (…) Antes longe era distante, perto, só quando dava, quando muito, ali defronte, e o horizonte acabava (…).

O livro “Imperialismo Ecológico: a expansão biológica da Europa 900-1900”, do professor Alfred Crosby, descreve a empreitada dos europeus em tentar se estabelecer em locais cujas distâncias remetiam literalmente à imensidão do oceano. Destaca-se nesse fantástico apanhado de história natural, a bioinvasão das “Neoeuropas”, áreas geograficamente espalhadas, mas situadas em latitudes similares, em zonas de clima temperado (na maioria dos locais), tanto no hemisfério norte, quanto no hemisfério sul.

O coral invasor Tubastraea spp. (Cnidaria, Anthozoa), conhecido como Coral-Sol é um exemplo emblemático do imperialismo ecológico diante do contexto global. Fonte: Imagem retirada do Google (Foto: Edson Faria Júnior)

Mas engana-se quem pensa que essas “novas” terras do ultramar, como Austrália, Nova Zelândia, Canadá, Estados Unidos, Sul do Brasil, Uruguai e Argentina, por exemplo, devem “o sucesso” de sua colonização, exclusivamente, à capacidade adaptativa dos europeus. Como deixa claro o autor, os navegadores do velho mundo trouxeram consigo na bagagem, ou melhor, nas caravelas, bem mais que os aparatos científicos e culturais da época, trouxeram também toda uma “biota portátil”. Esta, por sua vez, não só se estabeleceu de maneira geral muito bem, o que os favoreceu enormemente, como também, em algumas ocasiões, foi capaz de subjugar as diversas biotas nativas com as quais tiveram contato. Vale lembrar que essa bioinvasão fora bem diversificada. A mesma incluía desde germes para os quais os organismos nativos não possuíam resistência (incluindo o Homo sapiens), passando por animais e plantas, que de tão bem sucedidos, transformaram-se, em algumas ocasiões, em pragas.

A costa brasileira já sofre há algumas décadas as consequências dessa encruzilhada que envolve globalização e imperialismo ecológico. Quem imaginaria, por exemplo, que um tipo de coral (gênero Tubastraea), ameaçaria áreas significativas do imenso e biodiverso litoral brasileiro? Muitos podem até estranhar, já que se atribui a muitas espécies de coral uma extrema sensibilidade e vulnerabilidade ambiental. É verdade, embora não seja exatamente o caso do temido, mas belíssimo “pirata da costa brasileira”, o Coral-Sol. Isso porque no caso da bioinvasão, tudo muda, ou melhor, no caso do Coral-Sol, bioincrusta-se além da conta. Até mesmo embarcações e plataformas de petróleo. A estas estruturas, nas quais espécies desse gênero encrustam-se, atribui-se o motivo da chegada das espécies Tubastraea coccinea e Tubastraea tagusensis, na Bacia de Campos, ainda na década de 80. Seriam estas estruturas, na verdade, corsários da biodiversidade marinha brasileira? Parece que essa tal globalização, tão condizente com os navegantes e viajantes, acabou fornecendo asilo para esses bioinvasores. E agora, como extraditá-los para a sua terra de origem, o oceano pacífico?

A globalização encurtou muitas distâncias, inclusive aquelas de cunho ecológico, facilitando, assim, as bioinvasões. Fonte: Imagem retirada do Google

A revolução desencadeada pelo mantra “navegar é preciso” mudou a biogeografia global. A expansão geográfica do Coral-Sol pela costa brasileira em áreas como a Baía da Ilha Grande, Arraial do Cabo, Ilha Bela, o litoral sergipano e até no cearense, onde já há relatos, por sua vez, anunciam o prelúdio das novas mudanças que estão por vir. Parece que o nosso imenso litoral ficou pequeno diante da rapidez da expansão das duas espécies do gênero Tubastraea e da ameaça que ambas representam. Ah, essas invasoras! Por tudo isso, não há como não dizer que o imperialismo ecológico − assim como se sucedeu com inúmeras outras espécies nas “Neoeuropas” − representa um sério risco para a biodiversidade. Mas não à nossa biodiversidade, refiro-me àquela da grande aldeia global, cuja globalização, inclusive, ajudou a popularizar.

Talvez a globalização não seja mais capaz de aprisionar os bioinvasores, pois eles agem como feras indomáveis que não se permitem mais ocupar um único local. Afinal, hoje o mundo é muito grande, porque a Terra ficou pequena.

Referências:

Alfred W. Crosby. Imperialismo Ecológico: A expansão biológica da Europa 900-1900. Companhia de Bolso. Pág. 375

Silva et al. (2014) Eleven years of range expansion of two invasive corals (Tubastraea coccinea and Tubastraea tagusensis) through the southwest Atlantic (Brazil).Estuarine, Coastal and Shelf Science. https://doi.org/10.1016/j.ecss.2014.01.013

de Oliveira Soares, M., Davis, M. & de Macêdo Carneiro, P.B. Mar Biodiv (2018) 48: 1651. https://doi.org/10.1007/s12526-016-0623-x

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Leia o texto anterior: Os novos viajantes

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

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