Os novos viajantes Coluna do Jucá

quinta-feira, 17 janeiro 2019
Chang'e-4 – a sonda não tripulada chinesa que pousou no lado escuro da lua.

O lado escuro da lua ilustra bem a antítese entre aqueles que vislumbram o progresso científico e aqueles que vislumbram, na ciência, uma espécie de obscurantismo

O mundo mudou. Aliás, muda a todo instante. Muda a passos largos. Deixaram até a ciência entrar nas escolas. A mesma ainda teve a petulância de trazer consigo o ensino da Teoria da Evolução. Mas, será mesmo que esse tipo de ensino se inseriu tanto assim no ambiente escolar? Ou passa mais tempo do lado de fora do que do lado de dentro? Pobre da escola. Ela está ocupada por um obscurantismo que remete ao ano de 1859. Os novos viajantes não o toleram mais. Ah, esses novos viajantes!

Até James Watson mudou. Ou será o contrário? Será que ele, na verdade, nunca mudou? Permanece na mesma. Talvez, o motivo seja a belíssima imagem 53 de Rosalind, a qual lhe rendeu bons frutos. Não há como tirar o brilhantismo daquela descoberta, nem com todo o obscurantismo por trás de tantas declarações racistas. Faltam evidências e embasamento científico nas declarações recentes. Algumas, inclusive, já não são mais nem tão recentes assim. Por outro lado, abarrotam-se as evidências no sentido contrário. Criminalizou-se até o DNA. Esses novos viajantes não toleram mais nem mesmo a famosa dupla hélice, imagine essa tal de diversidade e esses tais emigrantes. Quem diria? Ah, esses novos viajantes!

Vacinas? Quem disse que o planeta está esquentando? A Terra é plana sim! Essa é a minha opinião! É o que eu acho! Posso até não pensar, mas eu acho, logo, eu existo! Mas, espera um pouco, e os fatos? É muita irracionalidade se apegar aos fatos. Aliás, essa perspectiva global nem faz, sequer, tanto sentido assim. Tampouco deveria existir. Chega a ser engraçado acreditar em tais crendices: vacinas, aquecimento global, evolução, terras indígenas, epigenética, neurociências, Crisper/Cas9 e por aí vai. Pode até ter um pouco de popularidade, mas não tem graça. Os novos viajantes não as toleram mais. Ah, esses novos viajantes!

Compreender os antigos viajantes é relativamente fácil (vikings, cruzados, Fernando Magalhães, Colombo, Cabral e tantos outros), sejam os conquistadores, sejam exploradores. Mas, prefiro me ater aos novos viajantes. Estes – aos que me refiro agora – são bem diferentes daqueles citados há pouco. Quase 50 anos após a chegada do homem à lua, a sua face escura já não é mais tão escura assim, muito menos rosa ou azul. Isso porque os novos viajantes, os chineses, começaram a iluminá-la com uma luz cuja natureza científica não limita seu espectro entre os raios gamas e as ondas de rádio. Ah, esses novos viajantes!

A metáfora por trás do álbum Dark Side of the Moon, do Pink Floyd’s, permanece mais atual do que nunca. Fonte: Google

A Sputnik, Apollo 11, Voyager e tantas outras que, outrora, navegaram pelo “oceano” do espaço, agora compartilham com a Chang’e-4 – a sonda não tripulada chinesa que pousou no lado escuro da lua – o registro nos anais da história espacial. E mais! Os astronautas estão chegando, ou melhor, aterrissando. Agora falta pouco. Saravá! O ineditismo do feito dos novos viajantes é bem mais que simbólico, vai muito além do crescimento de plantas e da captação de sinais de radiofrequência É o prelúdio de um ambicioso programa espacial cujo fim vislumbra progresso. E por que não liderança? Entende por que a guerra comercial com a turma do Trump não é meramente comercial? Ah, esses novos viajantes!

Mas esses novos viajantes do oriente não têm fascínio apenas pelo espaço. Estão ávidos pela soja made in Brazil, bem como outras commodities tupiniquins. Ávidos também pela edição genética, mas não necessariamente de embriões. Talvez um ou outro, sim. O impacto do crescimento deles, inclusive, ajuda-nos a entender o papel da nossa espécie nesse tal de Antropoceno. Tudo que remete a esses viajantes é tão colossal, que chega a ser quase intuitivo o papel do Homo sapiens nessa nova época. Ah, esses novos viajantes!

Será que esses “nossos” novos viajantes ainda preferem atribuir à face escura da lua presságios de bonança ou de escassez, de paz ou de guerra, de prosperidade ou de adversidades? Talvez. E isso, independentemente de fatos, avanços ou descobertas que a Chang’e-4, bem como outras, possa nos trazer e/ou revelar. Ou será que esses “nossos” novos viajantes toleram, apenas, o que está eternamente oculto? Talvez isso ajude a explicar essa miopia tão seletiva que nos permeia. É verdade. Viver eternamente entrincheirado, vislumbrando, apenas, o lado negro das coisas deve ser muito mais fácil. Ah, esses novos viajantes!

Já sei! Ao dessalinizar cérebros, não será mais preciso navegar. Afinal, aprisionam-se, assim, os fatos, a razão, a sensatez e as ideias. Deve ser essa a estratégia desses “nossos” novos viajantes. Só há uma coisa a dizer àqueles que estão na linha direta de Ogum: muito Axé! Ogum yê!

Ah, esses novos viajantes!

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Leia o texto anterior: A filosofia da biologia-parte 2

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

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