Os dias que nunca existiram #HojeÉDiadeCiência

sexta-feira, 22 fevereiro 2019

Em 1582, foi necessária uma reforma no calendário para eliminar a defasagem entre o calendário e a natureza

O tempo é precioso. Alguém já disse que é o tempo – e não o dinheiro ou os bens materiais – a principal “matéria-prima” do século XXI. Não é um exagero. Bens e dinheiro podem ser recuperados. O tempo perdido simplesmente passa. Jamais recuperamos, de fato, um tempo que passou.

Os que acham que seu tempo é curto (para alguém será suficiente?) devem desejar um dia com mais de 24 horas, ainda que seja o dia marciano, com 24 horas e 37 minutos de duração. O dia em qualquer planeta corresponde ao tempo que ele gasta para completar uma volta em torno de si mesmo (sua rotação).

Dia e ano

A Terra gira sobre si mesma em 23 horas e 56 minutos. Ao fim desse tempo ela torna a fazer face a uma mesma estrela distante. Mas para fazer face ao Sol, que está muito mais perto, nosso planeta precisa girar por mais quatro minutos – e esse novo período, de 24 horas, é o chamado dia solar.

Movimento de Translação. (Fonte: Google Imagens)

A duração do ano, por outro lado, tem a ver com o tempo que um planeta leva para orbitar o Sol (a chamada translação ou, um termo mais adequado, a revolução). Isso depende de sua distância ao astro-rei. Quanto menor a extensão da órbita (e mais próximo do Sol estiver o planeta) mais rapidamente ele se move em volta da estrela.

É por isso que o ano em Mercúrio, o planeta mais próximo do Sol, demora apenas 88 dias terrestres, enquanto o ano de Netuno, o planeta mais afastado, não leva menos que o equivalente a 164 anos na Terra.

Dia e ano, contudo, não estão interligados. Isto é, um planeta com um ano curto não tem necessariamente um dia curto. Afinal rotação e revolução são movimentos distintos. Sabe-se hoje que o ano da Terra (ano solar) tem 365,242199 dias. Podemos representar esse mesmo número na forma de frações como segue.


Dessa maneira fica fácil entender que ao fim de quatro anos a primeira fração (1/4) de dia excedente soma um novo dia de 24 horas, que por convenção deve ser acrescentado ao mês de fevereiro, tendo-se então o chamado ano bissexto.

Frações importantes

Ficam faltando as frações seguintes. Ignorá-las pode criar uma enorme confusão para as gerações futuras, como aconteceu na Roma de Júlio César, quando a duração do ano era arredondada para apenas 365,25 dias.

Ao acrescentar sistematicamente um dia a cada quatro anos, durante séculos, o início da primavera acabou com 10 dias de defasagem em relação ao calendário daquela época. Foi quando o papa Gregório XIII, sob orientação do astrônomo Lélio, impôs uma reforma ao calendário.

Papa Gregório XIII. Foto: Wikipedia

Como solução imediata – e para eliminar a defasagem entre o calendário e a natureza, 10 dias do mês de outubro de 1582 foram simplesmente eliminados. Assim, quem foi dormir naquela quinta-feira, 4 de outubro de 1582, acordou na sexta-feira 21 de outubro – sem ter perdido um dia sequer, pois eles jamais existiram!

Mais que isso. Para evitar que as frações restantes gerassem novos erros com o passar dos séculos, continuaria sendo acrescentado um dia a cada quatro anos, porém os anos que fossem múltiplos de 100 deixariam de ser bissextos (daí o –1/100 da representação em frações acima), exceto se também fossem múltiplos de 400 (1/400).

Dessa forma retirava-se um dia a cada 100 anos e adicionava-se outro a cada 400 anos (por exemplo, anos centenários como 1500 e 1900 não foram bissextos, mas 2000 sim). Repare que ainda resta uma fração a corrigir: –1/3300. Fácil. Basta retirar um dia do calendário a cada 3.300 anos.

Ufa! Oxalá o universo fosse “habitado” apenas por números inteiros, desaparecendo as subdivisões do dia e do ano terrestre. Mas a natureza simplesmente ignora as vontades humanas – e ai de nós se ignorarmos as suas frações.

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Leia o texto anterior: Pequena história das constelações

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José Roberto Costa

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