Os quadrinhos no Piauí a partir da perspectiva do desenhista Bernardo Aurélio Observatório de Mídia

quinta-feira, 9 setembro 2021

Acompanhe a primeira parte da entrevista com o quadrinista e desenhista piauiense

Por Layza Mourão e Nayara Venâncio

Bernardo Aurélio é um quadrinista e desenhista piauiense, criador de obras como Máscara de Ferro e Foices&Facões, baseada na Batalha do Jenipapo, uma das batalhas mais sangrentas já registradas no Brasil colônia. O comic book tem 152 páginas e é uma realização dos irmãos Caio Thiago (arte) e Bernardo Aurélio (roteiro, arte final e editoração). Formado em História, hoje ele é empresário e atua como gerente da Livraria Quinta Capa Quadrinhos, na cidade de Teresina. Bernardo conversou conosco em sua livraria, que fica localizada na Zona Leste da capital.

  1. Existe o ditado que diz “quem muito lê escreve bem”. Esse foi o seu caso? Você lia muito quando criança/adolescente?

Bernardo: Eu já tive elogios a minha escrita. Dentro do Mestrado tive um elogio que vou levar comigo, do professor Francisco, de História, e ele é bem crítico. É sempre chato você dizer se escreve bem ou não. Eu tenho alguns elogios ao Máscara de Ferro, que fiz uma versão romanceada. Pessoalmente, gosto do que escrevo, mas sinto muita dificuldade, eu escrevo pouco. Agora dentro dos quadrinhos tem uma maneira como escrevo e o que me ajudou bastante foi a minha formação em História para o Foices e Facões. Foram seis meses para escrever, porque tinha toda a parte de pesquisa, leitura, fichamento. Foi um trabalho de historiador também. Não foi só um trabalho de romancista, por assim dizer.

  1. Como se deu a produção de Foices e Facões? Pode-se dizer que foi uma conclusão de pesquisa em formato de história?

Bernardo: Eu tenho formação em História, e o primeiro contato com o Foices foi através da escrita do Monsenhor Chaves, lendo os textos dele na Universidade, lá mesmo eu já gostei da escrita dele, é bem visual, fotográfica e bem didático. E lá na Universidade, por volta de 2000 e 2001, tendo contato com esses textos, germinou a ideia de fazer algo em quadrinhos. Quando eu saí da Universidade, fui trabalhar na Fundac e vi a encenação da peça de teatro que era escrita pelo Araci Campelo, e a peça também me inspirou muito. Trabalhando na Fundac e vendo a peça retomei essa ideia de escrever o quadrinho. Fiz o projeto para o Governo do Estado e foi aprovado. E o processo todo foi em um ano: quatro meses de pré produção, seis meses de desenho e dois meses de pós produção. Eu fui a Parnaíba, Oeiras, Campo Maior e todos os lugares que eu achava interessante visitar, para ter essa experiência.

Nayara Venâncio

  1. Antes da criação do Foices e Facões em quadrinho existiu a versão em prosa, tal qual um romance. Como se deu esse processo de ter uma versão em prosa antes da versão em quadrinhos?

Bernardo: Eu não tenho o costume de escrever um romance. Já escrevi algumas coisas em prosa, mas o Foices, como eu não tinha prática de escrever um roteiro, e eu ia trabalhar com meu irmão. Normalmente faço o quadrinho fazendo o esboço direto e vou rabiscando as páginas e colocando os textos ali, os diálogos. Então a prosa em si não existe quando trabalho na construção de um roteiro de quadrinho. A primeira versão do roteiro, é uma versão romanceada, é como se fosse uma versão em prosa que, inclusive, depois serviu de base para criar o roteiro da peça de teatro da Batalha do Jenipapo. O meu quadrinho foi adaptado para o teatro. Se eu não me engano, teve quatro ou cinco adaptações, e o roteiro foi meu. Eu peguei o quadrinho, a versão romanceada, e transformei numa peça de teatro, que eu nunca tinha feito. Eu tinha de fazer isso porque eu escrevi o roteiro, mas quem desenhou o Foices e Facões foi o meu irmão Caio. Então ele precisou dessa linha para criar os desenhos do jeito que eu levei a narrativa.

  1. Qual a sua opinião sobre as adaptações literárias para quadrinhos? Teria vontade de fazer alguma?

Bernardo: Eu tentei adaptar o “Noite na Taverna”, de Álvares de Azevedo, fiz todo o trabalho de adaptação, layout com quase 160 páginas de rabiscos. Só que no ano em que eu estava trabalhando com essa ideia, saiu duas adaptações por editoras grandes aqui do Brasil e aí deixei na gaveta. Também tentei adaptar “Ulisses entre o amor e a morte”, do O.G Rêgo, cheguei a ir a casa dele, ele já não conversava mais direito, balbuciava, então conversei mais com a esposa. Deixei o projeto lá, mas depois a esposa disse que ele não se interessou. Pretendo procurá-la de novo, fico triste porque não recebi o aval o próprio O.G, mas se ela, que hoje é a detentora dos direitos permitir, farei todo prazer. Tenho todo o interesse em adaptar “Ulisses entre o amor e a morte”. Por conta dessa desistência do O.G, eu fiquei interessado em “um Manicaca”, do Abdias Neves. Se você for no x da questão, vai entender que a ciência e a razão são um discurso que precisam ser levantados, e o livro bate muito nisso.

  1. Layza Mourão

    Pode nos dizer um pouco sobre a História da Feira HQ do Piauí de 1999 até 2013. Há alguma perspectiva de retorno dessa Feira?

Bernardo: A feira começou de um grupo de pessoas que se reunia numa banca de revista no centro da cidade. E a gente se reunia lá para falar de quadrinho, levar os desenhos, era uma época que não tinha internet, que não tinha redes sociais, então pra você conversar com quem gostava de quadrinhos, tinha que encontrar pessoalmente. Levar os desenhos embaixo do braço e mostrar pra eles, e fazer esse bate papo. E foi desse grupo que surgiu a ideia, com a Ana Kelma Cunha Gallas, que descobriu e tentou organizar o grupo, criou uma associação e organizou as duas primeiras feiras em 1999, ainda. Eu frequentava a banca mais como curioso, e participei das feiras, expus e vendi revistinha minha, foi um contato legal, porque lá eu descobri os primeiros fanzines, eu vi gente fazendo fanzine, tive o primeiro contato com sebo, e essa experiência de vender revista, comprar, trocar. Frequentava os sebos daqui, mas não como vendedor, e lá eu tive esse primeiro contato, que acabou reverberando a minha vida hoje, que é vender quadrinhos. Aí em 2000 não teve nada, em 2001 eu conversei com um primo, e nós começamos a fazer a partir da terceira. Os dois primeiros não se chamavam “Feira HQ e Segunda Feira HQ”, então o primeiro que eu fiz, já foi a terceira, porque quis dar continuidade. Aí a partir da terceira o grupo foi crescendo, fui conhecendo novas pessoas que foram me ajudando durante muito tempo, principalmente o Pikachu, que é o Antônio Luis; a Ana Carolina, que é a mulher dele; a Maria Luisa, e várias outras pessoas que ajudaram. Sempre cito esses três porque são os mais próximos, mas a feira tinha uns 20 apoiadores e colaboradores. Eram eventos gratuitos, e tudo era feito pela vontade de fazer o evento, de estar com o grupo. A partir da sexta edição a gente começou a ganhar uma graninha, porque começamos a participar de editais de cultura, já fomos premiados 4 vezes nos editais do BNB.

Continua

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JOII – Grupo de pesquisa em Jornalismo, Inovação e Igualdade da Universidade Federal do Piauí.

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