Pandemia, guerra e fome Ciência Nordestina

terça-feira, 22 março 2022
Xilogravura "Fome no Nordeste" de Isa Aderne.

Embora as bombas estejam a cair a milhares de quilômetros de nós, uma outra guerra é travada no Brasil: contra os pobres, e a arma é a fome

Uma grande ilusão se mostrou para aqueles que achavam que a pandemia traria algo positivo e novo para humanidade… Nem foi transformada ainda em endemia e já estoura a guerra entre Rússia e Ucrânia, demonstrando que provavelmente não aprendemos nada em tempo algum. Os ciclos históricos são assim chamados porque a humanidade insiste em repeti-los, tornando vívidas as atrocidades que sempre retornam com outras roupas, outros rostos e outros nomes. Todavia, as suas vítimas são sempre as mesmas: os inocentes que não conseguem compreender o pano de fundo de tudo o que envolve estes conflitos.

Embora as bombas estejam a cair a milhares de quilômetros de nós, uma outra guerra é travada no Brasil. A guerra aqui é contra os pobres, e a arma é a fome. A fome que ataca nosso povo… Povo que morre à mingua sem seus direitos mínimos.

É evidente que há um laço que une todos estes nós conflituosos de nossa era. O apartheid vacinal que gerou todas gerações de nossas variantes da covid-19 e que segue matando pessoas mundo afora assim como o lucro dos mais ricos que precisa eleger nações democráticas e “ditaduras” a serem exploradas, matando a mão de obra barata pela foice da fome. Esta luta tende, infelizmente, a piorar pois os recursos naturais escassos apontam para a necessidade iminente do fim do extrativismo brutal e do modo de produção linear que entope o planeta de lixo.

Tudo está tão simploriamente e intrinsicamente conectado que para garantir o controle da situação os donos do poder optaram por alimentar a alienação. Mesmo que isto signifique lutar contra a ciência, andar de braços dados com o movimento antivacina ou ter de espalhar fake news que custem vidas.

O nível de destruição avançou a tal ponto que o último espaço verde o planeta (Amazônia – o velho pulmão verde da Terra) esteja à mercê de uma destruição sem precedentes por causa da PL 191.

E o horizonte para o povo brasileiro ainda reserva requintes de crueldade com os preços do gás, óleo e combustível que sobem à galope. Os restos de ossos e a miséria não podem ser o retrato de uma nação rica e que tem tudo para ser autossuficiente. O Brasil precisa ser ao menos uma vez uma nação em prol de tod@s e que tenha dignidade de assumir que fome e miséria não são naturais. Como definira Josué de Castro: “a fome é um projeto político”.

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Leia o texto anterior: A ciência e a fome

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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