Para além de um item em uma lista: 30 anos de estudos bissexuais no Brasil Diversidades

segunda-feira, 13 dezembro 2021
Foto: Talitta Cancio

Você se lembra de já ter lido algum texto que falasse de maneira mais profunda sobre bissexualidade e não apenas mencionada como parte de uma lista - “lésbicas, gays, bissexuais, transexuais”?

Por Talitta Cancio (Instagram https://www.instagram.com/talitta_/ e https://www.instagram.com/binamidia/)

Infelizmente, essa é a realidade da grande maioria dos textos e estudos sobre gênero e sexualidade. A bissexualidade aparece em segundo plano, junto com as outras discussões ou como parte da lista de significados da sigla LGBT, além de também aparecer associada à uma fase imatura a ser superada (pelos discursos psicanalíticos) e a comportamento de risco e ISTs (pelos discursos da saúde). Até mesmo na Teoria Queer, que aponta tanto para uma desestabilização, a bissexualidade é ignorada e seu potencial de subversão também. Apesar da pouca quantidade quando comparamos com os estudos sobre outras sexualidades, existe sim produção científica voltada para a bissexualidade, inclusive no Brasil.

Talitta Cancio. Foto: Arquivo pessoal.

A pouca divulgação e grande apagamento faz com que esses estudos não sejam amplamente conhecidos e nem pautados nos debates sobre sexualidade. O atraso é tanto que o próprio significado de bissexualidade é recorrentemente colocado de forma errada, binarista, como “atração por dois gêneros”. Uma definição popular entre os estudiosos da bissexualidade é a que a coloca como o potencial de atração – romântica e/ou sexualmente – por pessoas de mais de um gênero, não necessariamente ao mesmo tempo, da mesma forma e não necessariamente no mesmo nível. É considerada a melhor definição por possibilitar que mais pessoas possam se considerar bissexuais, ao ser mais abrangente, incluindo diferentes tipos de atrações que vão além da sexual e que também podem ocorrer de diferentes formas.

Ter que colocar algo tão básico neste texto, como a definição do termo, mostra que ainda temos uma longa batalha pela frente. Mas escrevo este texto com esperança e otimismo, graças ao 1º Senabi (Seminário Nacional de Estudos Bissexuais), que aconteceu neste mês de dezembro. Foi um evento científico todo voltado para as pesquisas sobre bissexualidade, algo totalmente inédito. O seminário foi organizado por estudantes de graduação e pós de várias partes do Brasil, com o apoio do DesCom e da UFRN, tendo como tema os 30 anos de estudos sobre bissexualidade em nosso país. Dezenas de pesquisadores e ativistas reunidos para trocar conhecimento e experiências, dentre as mais diversas áreas. Seja na área da saúde, das ciências sociais, da comunicação, a bissexualidade é estudada e deve seguir sendo, de maneira crítica e interseccional.

Cartaz de divulgação do I Seminário de Estudos Bissexuais, ocorrido entre os dias 1 e 3 de dezembro de 2021.

Neste meu texto de estreia por aqui, quero levantar a reflexão sobre a falta de divulgação dos estudos sobre bissexualidade e como pessoas bissexuais são apagadas nos estudos sobre gênero e sexualidade. Nomes como Fernando Seffner, Elisabeth Lewis, Regina Facchini, Maria Leão, Ismar Inácio dos Santos Filho, Camila Cavalcanti, Helena Monaco e tantos outros pesquisam, já pesquisaram ou são ativistas sobre a bissexualidade e seus trabalhos precisam ganhar espaço e também continuidade. Aproveito este espaço para exaltá-los e te convidar a conhecer e refletir mais além dos binários de sexualidade sempre tão repetidos. Em próximas oportunidades, espero contribuir com vários temas que são pertinentes quando se fala de estudos bissexuais, como monossexismo, bifobia, apagamento, representação, saúde mental e todo potencial subversivo que a bissexualidade tem ao perturbar muitas certezas impostas. Por hoje, deixo o convite para começarem a pensar a bissexualidade como algo muito maior que um item de uma sigla.

Deixo meu agradecimento aos membros do Grupo Amazônida de Estudos sobre Bissexualidade (GAEBI), de todes que estiveram à frente do Senabi e desta linda rede de afetos e conhecimentos que estamos formando entre os pesquisadores brasileiros dos estudos bissexuais. Todas as mesas do seminário estão disponíveis no canal do Youtube do Senabi e mais informações podem ser encontradas no Instagram do evento (@sena__bi).

Talitta Cancio é ativista bissexual e comunicóloga formada pelo Decom/UFRN. Pesquisa sobre representação bi em telenovelas e integra a Frente Bissexual Brasileira. É criadora e administradora da página Bi na Mídia (@binamidia).

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Leia a coluna anterior: Mês da consciência negra e o que a branquitude ainda não conseguiu entender sobre a data

“Epistemologias Subalternas e Comunicação – desCom é um grupo de estudos e projeto de pesquisa do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte”.

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