Reflexão sobre a Semana da Consciência Negra, partindo do meu lugar Diversidades

segunda-feira, 9 dezembro 2019

A pesquisadora Denise Carvalho reflete sobre os significados da Consciência Negra a partir de suas vivências como mulher e intelectual negra em uma sociedade atravessada pelo racismo estrutural

Na coluna desta semana, a pesquisadora Denise Carvalho reflete sobre os significados da Consciência Negra a partir de suas vivências como mulher e intelectual negra em uma sociedade atravessada pelo racismo estrutural, rememorando os sofrimentos, as lutas, as conquistas e as resistências de seus ancestrais próximos e remotos e conectando-se com pensadoras e pensadores pretos que nos ajudam a enxergar o Brasil fora das lentes do cânone branco, eurocentrado e epistemicida de produção de conhecimento. Denise Carvalho é cientista social, com mestrado em Direitos Humanos e doutorado em Sociologia, e pesquisadora de pós-doutorado da CAPES no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

A pesquisadora Denise Carvalho. Arquivo Pessoal

Reflexão sobre a Semana da Consciência Negra, partindo do meu lugar

Por Denise Carvalho

Semana da consciência negra. É tempo de ter consciência. É tempo de, como diz o dicionário (FERREIRA, 2008), convidarmos a sociedade a desenvolver a “faculdade de estabelecer julgamentos morais dos atos realizados”.

Como posso contribuir para que esta consciência se desenvolva? Faço isso quando compreendo que é tempo de não esquecer que o dia 20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra – traz à memória a morte de Zumbi dos Palmares. Traz a resistência dos quilombos. É tempo de relembrar minhas heroínas negras, as de ontem e as de hoje. É tempo de pensar no legado de minhas matriarcas africanas. De re-montar minha ancestralidade.

É tempo para que eu desenvolva uma visão afrocentrada. É tempo para que eu estude mais sobre pan-africanismo, sobre mulherismo africana. É tempo de refletir mais sobre as interseccionalidades de gênero, raça e classe apresentadas pelo feminismo negro.

Também é tempo de trazer cada vez mais às minhas discussões questões como o mito do “africano livre” apresentado por Abdias do Nascimento (1978), a herança da violência colonial, o racismo e o preconceito socialmente estruturados, a discriminação racial, o colorismo no Brasil, o mito da democracia racial. A objetificação. A desumanização. A animalização do corpo negro. Não posso deixar de mencionar a reprodução dos estereótipos, da desqualificação, da criminalização, do estigma… da solidão.

É urgente que minhas pesquisas, mesmo quando enquadradas nos moldes ditados pela academia, denunciem em seus dados os efeitos da desigualdade racial nos mais diversos campos. Os números e as análises qualitativas têm que falar por si sobre os fenômenos observados na sociedade. E isso não me torna menos cientista ou menos acadêmica. Só reforça a potência da minha fala.

Representação de Zumbi e Dandara dos Palmares, símbolos da Consciência Negra brasileira – Foto Reprodução.

É preciso que em meus estudos eu traga a reflexão sobre a luta pela persistência da cultura africana, as recorrentes tentativas de embranquecimento desta cultura e as formas de apropriação cultural que ocorrem no cotidiano. Também é preciso que eu recorra mais a textos de mulheres e homens pretos. É imprescindível que eu renove e ressignifique meu repertório de referenciais bibliográficos. É estritamente necessário que eu contribua para a resistência contra o genocídio epistêmico de intelectuais negros… contra o epistemicídio resultante da eurocentrismo exacerbado que distorce os próprios conceitos de saber e de conhecimento.

É meu dever fazer tudo isso. Não só por mim. Pelo sangue dos meus antepassados. E falando em antepassados, naquelas e naqueles que me antecederam, lembro que, em um dado momento, tive uma conversa com um jurista que me aconselhava sobre quem, segundo o aparato normativo brasileiro, seria meu próximo tutor perante a lei após a morte da minha mãe. Esse jurista me fez conhecer uma expressão que me impactou. Nas palavras deste operador do Direito, o meu pai, o operador de máquinas João, se encontrava “em lugar incerto e não sabido”. Hoje compreendo que a vivência do meu pai, como homem negro que é, reflete a vida de parte do povo negro. De um povo cuja história de vida, às vezes, parece para nós muito distante. Desconhecida. Invisibilizada. Então, devo fazer tudo isso pelo meu pai.

Também devo fazer tudo isso em memória de minha mãe, a professora de História Maria da Fé. Pela luta diária que testemunhei, ao ver de perto sua solitária, abnegada e breve vivência. Desta mulher negra que sempre demonstrou muita fé de que a educação que ela transmitiria me ajudaria a alçar voos mais altos. Maria da Fé me ensinou a ter fé na educação. Em contraponto, a dureza da vida quase me fez perder a fé na educação. Muitas pessoas disseminam a citação de que “a educação muda as pessoas” (BRANDÃO, 2008, p.164). Sim. A educação me mudou. Mas essa mudança doeu! Ela doeu e ainda dói em mim porque foi por meio da educação que compreendi que determinados espaços – como os espaços de prestígio e de poder – estão longe de ser neutros e não são orientados unicamente pelo mérito, ao contrário do que se diz por aí.

Então, devo fazer tudo isso que mencionei pelos meus. Pelas minhas primas e primos que não tiveram acesso aos privilégios educacionais que tive, mas que continuam seguindo em suas jornadas e procurando se desenvolver, cada um e cada uma a seu tempo. Ao comparar nossas jornadas do alto dos meus 40 anos recém-completos, percebo que, embora com jornadas diferentes, meus familiares e eu temos um ponto em comum. Vejo que para nós, as negras e os negros da família na qual somos maioria, as conquistas dos objetivos finais parecem ser mais lentas. Nosso percurso parece mais longo. A tão sonhada estabilidade parece mais demorada de alcançar. E, sim, ainda há muito a alcançar. Muitos planos a seguir, mas não podemos desistir. Nem eles, nem eu.

A partir desta reflexão, entendo que a consciência negra não deve vir apenas para o ‘outro’, mas para mim também e para os meus. Para os nossos semelhantes, irmãos de origem, de sangue e de jornada. Quando percebo que esta consciência deve ser cada vez mais alimentada em mim, entendo que as minhas conquistas e perdas não são só minhas, mas delas e deles também. São suas também. As minhas conquistas e perdas são conquistas e perdas do nosso povo, em suas diversas matizes e ancestralidades. Cito ambos, conquistas e perdas, porque ao longo da vida as perdas são inevitáveis. Elas acontecem. Mas que elas não sejam suficientes para que nos paralisemos, nos resignemos, emudeçamos e desistamos de prosseguir em busca de nossas conquistas. Consciência gera agência. Molefi Asante (2009, p.94) nos ensina que agência é a “capacidade de dispor dos recursos psicológicos e culturais necessários para o avanço da liberdade humana”. Consciência gera resistência. Resistamos sempre!

Referências Bibliográficas:

ASANTE, Molefi. Afrocentricidade: notas sobre uma posição disciplinar. In: NASCIMENTO, Elisa Larkin (Org.). Afrocentricidade: uma abordagem epistemológica inovadora. São Paulo: Selo Negro, 2009, p. 94.

BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Minha casa, o mundo. Aparecida-SP: Ideias & Letras. 2008, p. 164.

FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Dicionário Aurélio da língua portuguesa. 4a edição revista e ampliada do mini dicionário Aurélio. 7a impressão – Rio de Janeiro, 2002.

NASCIMENTO, Abdias do. O genocídio do negro brasileiro: processo de um racismo mascarado. Paz e terra: Rio de Janeiro, 1978.

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Leia a coluna anterior: Saberes orgânicos e saberes sintéticos: um olhar quilombola sobre o colonialismo 

Antonino Condorelli é Professor Adjunto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Antonino Condorelli

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