Saberes orgânicos e saberes sintéticos: um olhar quilombola sobre o colonialismo Diversidades

segunda-feira, 2 dezembro 2019

O pensamento do intelectual quilombola piauiense Antônio Bispo dos Santos sobre os processos de colonização

Para a coluna desta semana, a pesquisadora Kathleen Lopes transcreveu e editou alguns trechos de uma palestra que o intelectual quilombola piauiense Antônio Bispo dos Santos, conhecido como Nêgo Bispo, proferiu durante o II Seminário Epistemologias Subalternas e Comunicação. O evento foi organizado pelo grupo de estudos desCom em ocasião da Semana da Consciência Negra que ocorreu em 14 de novembro de 2019 no Auditório do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Em sua fala poderosa e provocadora, de alguém que pensa a partir dos rios, das plantas e dos animais, Bispo questiona consensos estabelecidos no pensamento emancipatório brasileiro e latino-americano propondo um deslocamento da compreensão do colonialismo e de seus processos de subjetivação do plano das relações econômicas para o das cosmovisões.

Saberes orgânicos e saberes sintéticos: um olhar quilombola sobre a colonialismo

Por Nêgo Bispo. Transcrição e edição: Kathleen Lopes.

“Porque mesmo que queimem a escrita, não queimarão a oralidade.

Mesmo que queimem os símbolos, não queimarão os significados.

Mesmo queimando nosso povo, não queimarão a ancestralidade.”

(SANTOS, Antônio Bispo, 2019, p. 33)

A pesquisadora Kathleen Lopes.

Antônio Bispo dos Santos chega com um chapéu de capim dourado, camisa branca e uma mochila cheia de livros. A ocasião é o lançamento de seu livro em Natal, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. “Colonização, quilombos: modos e significações” é o título da obra, que tem sua segunda edição lançada neste ano de 2019. Quilombola, lavrador, mestre de saberes tradicionais, Nêgo Bispo, como também é chamado, é morador do Quilombo Saco-Curtume, localizado no município de São João do Piauí. Tomei a liberdade de transcrever uma parte da conversa que compôs o lançamento de sua obra. Nela, Bispo parte da sua experiência no adestramento de bois para tecer reflexões sobre os processos de colonização:

“Foi nesse processo de adestramento que eu comecei a estudar a colonização. Porque colonizar é a mesma coisa de adestrar. Não tem diferença nenhuma. Para que o colonizador coloniza? Para submeter ao trabalho, para subjugar, para subalternizar. Para explorar. O adestrador também. Daí que eu fui ver a importância do nome. E aí é o nome em todas as coisas. Como nós, africanos na ancestralidade, tivemos os nossos nomes substituídos por palavras sem sentido. Por exemplo, qual é o sentido da palavra negro? Eu vejo amigos e amigas disputando quem é negro e quem não é negro como se a palavra negro tivesse algum sentido. É uma palavra sem sentido. E o colonialismo usa essa palavra sem sentido para tentar dar sentido a outras coisas. Por exemplo, eu vejo o pessoal da televisão dizer assim: ‘Olha, tem uma lista negra sobre coisa tal’. Ora, se a palavra negra não tem sentido, o que é uma lista negra? Qual o sentido de uma lista negra, qual o significado?

Eu fui cada vez mais tentando compreender isso. Tanto é que no nosso livro tem um capítulo que é chamado de ‘Guerra das denominações’. Então, eu fui pegar isso para todos os momentos da minha vida. Mas por que eu fui pegar isso para todos os sentidos da minha vida? Porque eu aprendi isso com a minha avó, com os meus mais velhos. Os meus mais velhos sempre me diziam: ‘Olhe, meu filho, pela escrita, o significado dessa palavra é isso, mas para nós, o significado é aquilo’. Então, eu fui para a escola para traduzir a escrita para a oralidade, mas o meu povo me ensinou a traduzir a oralidade para a escrita. Eu tive duas formações ao mesmo tempo. Quando eu estava na escola eu estava compreendendo a escrita, mas quando eu estava com meu povo eu estava compreendendo a oralidade.

Aí fui ver várias coisas em toda a nossa vida que tem denominações que nos afetam, denominações sem sentido ou denominações com sentido sutil para subjugar ou dominar. Por exemplo, eu fui do Partido dos Trabalhadores, eu fui do movimento sindical, eu cheguei a ser diretor da Federação dos Trabalhadores da Agricultura do Estado do Piauí. Tem algumas pessoas daqui do Rio Grande do Norte que foram meus contemporâneos no movimento sindical. Aí eu fui me dando conta de algumas palavras que me incomodavam, mas me incomodavam muito. Por exemplo, eu aprendi no partido, no sindicalismo, que nós temos no Brasil os partidos de direita e os partidos de esquerda, aí eu passei a vida inteira tentando entender o que é mesmo ser um partido de direita e um partido de esquerda. Que nós temos a classe trabalhadora e a classe patronal, aí eu fui tentar entender também qual é mesmo a diferença entre o trabalhador e o patrão, o que é mesmo a classe trabalhadora. Sempre eu fui me questionando tudo isso. […]

A gente se apega a umas palavras que é difícil de entender. Eu resolvi fazer isso: contrapor essas palavras. Então eu ouvia dizer assim: ‘olha, mas o povo foi escravo porque tinha um modo de trabalho que precisava, o povo foi escravo por causa do capitalismo, por causa do modo trabalho, por causa de não sei o quê, por causa do modo de produção e tal’. Aí eu comecei a entender o seguinte. Eu penso muito a partir das águas. Eu nasci no vale do Rio Belém, eu sou de rio. Eu compreendo que quem vê uma enchente de um rio não está vendo o rio, está vendo uma enchente. A enchente é um momento passageiro do rio, é fruto de uma enxurrada, de uma trovoada talvez. Você só vê o rio quando você vê a nascente dele. É a nascente do rio que diz qual é a vazão estática do rio, a vazão que permanece. Você só sabe a vazão de um rio se você conhece a nascente. Se você não conhece a nascente de um rio, você não sabe a vazão, você sabe a enchente.

Então, esse povo que faz esse discurso fatalista, que não tem coragem de saber onde é a nascente do rio, que faz um discurso a partir das enchentes, é um povo que fica usando palavras que expressam as enchentes, palavras que retratam as enchentes, mas não tem coragem de ir na nascente. Bom, então eu fui procurar qual era a nascente do processo colonialista. E para encontrar a nascente do processo colonialista, como perguntei a tanta gente e também não conseguiam, pensei: ‘Bom, uma coisa sem explicação, só quem pode explicar é Deus. Então eu vou perguntar a Deus. […]

Mas, antes de perguntar a Deus, eu pensei: ‘Deus tá muito longe, o papa tá mais perto. Vou perguntar primeiro ao papa, se não resolver eu pergunto a Deus’. Aí fui ver os escritos do papa. Segundo o eurocristianismo depois de Deus, o papa. E como é que pergunto ao papa? Lendo as bulas papais. A bula papal é o documento mais importante que o papa escreve, então fui ler. Eu encontrei na bula papal de 1455 o papa Nicolau V dizendo ao rei de Portugal que ele estava autorizado para invadir, expropriar, humilhar, subjugar, submeter a escravidão perpétua todos os inimigos de Cristo e tomar para si todos os principados e condados onde o povo fosse pagão. Nesse momento aqui, o papa disse quem poderia colonizar, quem poderia escravizar, quem deveria ser colonizado e quem deveria ser escravizado. Mas aí o papa é uma pessoa, então eu pensei assim: ‘Foi um papa, os outros pensavam diferente. Já que o papa disse, mas não resolveu, vou logo no papo reto, vou logo perguntar a Deus’.

Então fui lá em Gênesis. E lá o que Deus disse para Adão? ‘Porque tu comeu da fruta proibida, a terra será amaldiçoada por tua causa. Tu haverás de comer com a fadiga do suor do teu rosto porque as ervas são daninhas e tu só pode comer das ervas do campo, daquelas que tu plantar. Mas mesmo assim, todas as tuas gerações também serão amaldiçoadas’. O que eu entendi dessa fala de Deus (cada um entende do jeito que dá conta): se esse Deus está dizendo que eu tenho que comer com fadiga do suor do meu rosto, ele está dizendo que eu tenho que trabalhar. Então, ele inventou o trabalho, que até aqui não precisava, pois estava tudo aí. Assim, o trabalho é castigo, segundo o que eu entendi. Deus criou o trabalho como castigo.

Quando Deus disse que a terra será maldita por tua causa, ele desterritorializou esse povo. Quem quer viver numa terra maldita? Se a terra é maldita, eu não posso viver nela. Então, esse povo ficou desterritorializado, passou a ter ódio da terra, a não gostar da terra. E se ele disse que as ervas são daninhas, quem é que vai comer erva daninha? Então, o povo passou também a ter raiva das ervas. E se ele diz que as gerações sequentes serão malditas, então ele criou aqui o terror. O terrorismo foi criado por Deus lá em Gênesis. O que eu chamo, para botar um nome bonito, de cosmofobia, medo do cosmos, medo de Deus.

Feito isso, é dizer que com essas autorizações tanto de Deus como do papa, o colonialismo acontece. E quando esses povos vão atacar os pagãos, quem são os pagãos? O povo que está em África e o povo que está aqui. E qual é a primeira coisa que eles fazem? Botar um nome sem sentido. Chamar o povo de África de negro e chamar o povo daqui de índio. É assim que eu faço com os bois, botar nomes sem sentido, desconectados. Aí o nosso povo foi contra e começou a luta. Os indígenas nas suas aldeias e os africanos nos quilombos. Só que os quilombos não chamavam essa luta de outra palavra a não ser luta. Como você vai chamar luta? Luta você chama de luta, guerra você chama de guerra, enfrentamento você chama de enfrentamento. É assim que chamavam. Mas os colonialistas ficam caçando uns nomes para tirar o sentido. Então nós chamamos as coisas de um jeito e eles chamam de outro para tirar o sentido.

Então, o que é que a gente foi vendo. Primeiro, tiraram nossas língua e nós tivemos que falar na língua deles, tivemos que falar as coisas na língua deles para o nome que eles querem. Depois, o que eles fazem eles dizem que é bom e o que a gente faz eles dizem que é ruim, mesmo que seja a mesma coisa. Nós não temos as nossas santidades, as nossas divindades, nós os povos não coloniais? Eu vou só fazer aqui uma observação: é bom dizer que os eurocristãos, os colonialistas primeiro colonizaram Jesus: pegaram Jesus lá de onde nasceu, trouxeram para Roma, pintaram da cor que quiseram, deram um trato nos cabelos e botaram Jesus para escrever. Jesus não escrevia nada e eles escreveram por Jesus. Tiraram Jesus da oralidade para a escrita, colonizaram logo. E aí? Mas eles tem um único Deus, onipotente, onisciente e onipresente. Um apenas. E nós temos várias divindades, aí começam as diferenças.

Por que o papa diz que é para atacar aos pagãos? Porque os pagãos têm várias divindades e eles queriam impor apenas uma. Então, logo você tem uma guerra entre um povo que é mono e um povo que é poli. Um povo de uma cosmologia monoteísta e um povo de uma cosmologia politeísta. E se você tem uma cosmologia, você pensa a partir dela. Eu penso a partir dos rios, das plantas, dos animais. Eu não penso só a partir do céu, como pensam os cristãos. Eu penso a partir da natureza como um todo. Os cristão só pensam olhando para cima, quando olham para baixo param de pensar. Então, nosso pensamento é circular e o pensamento deles é linear. Nós somos da palavra, na hora. Eles são da escrita. Nós somos do orgânico, eles são do sintético.

Lá em Gênesis, quando diz que não podemos comer das plantas como elas são, nós temos que sintetizar a planta. É assim que o colonialista faz. Então, a gente precisa pegar o umbu nativo do jeito que tem umbu em todo sertão para transformar em umbu sintético, como está sendo feito em Petrolina. Fazem assim com todas as plantas. Todas as universidades estão cheias de laboratórios. Pegam a planta nativa para sistematizar, para domesticar, para poder liberar. A mesma planta que a gente come do jeito que a natureza oferece, a universidade não pode comer daquele jeito. Os feijões, os arroz, tudo que a gente tinha de trajetória, as universidades transformam, elas não podem comer porque é daninha. Se não passou pelo sintetismo, é daninha. O curso de agronomia usam a mesma palavra: erva daninha. […] O curso de agronomia é um anexo da vida, porque está ensinando como comer com fadiga do suor do seu rosto, é a regulamentação daquela lei máxima.

Aí nesse bate-rebate, tem algumas palavras que a gente resolve dar sentido a elas e tem umas palavras que não. Por exemplo, o fato de nós termos uma relação com a natureza e a partir da nossa relação com a natureza chegar na cura. Você já viu um hospital de tatu, um hospital feito pelo tatus para cuidar dos tatus? Vocês já viram um hospital feito pelas lagartixas para cuidar das lagartixas? Eles não precisam. Os animais que nós dissemos que são selvagens não precisam. Eles se curam na natureza, na relação cosmológica com a natureza. Todos os animais na natureza vivem bem até entrar em contato conosco. Porque nós trazemos a maldição de Jeová conosco. Isso, se nós formos pela conversa dos colonialistas.

Então, nós africanos e povos indígenas, a gente compartilha, a gente se cura na natureza, sem precisar desse monstrengo. Mas aí, eles disseram que isso é feitiçaria. Então, os animais são feiticeiros, os pássaros são feiticeiros, os urubus são feiticeiros. Eu nunca vi um hospital de urubu e, para os colonialistas, o urubu come porcaria. Mas os urubus vivem mais de cem anos. Então, é feitiço, os urubus são feiticeiros. É isso mesmo, eles dizem que a nossa sabedoria é feitiço. E a gente num primeiro momento e até hoje ainda fica encolhido. Só que eu resolvi o seguinte: pois tá bom, se você acha que eu sou feiticeiro, eu sou mesmo, papo reto, e daí, qual o seu problema? Se eles dizem que eles sabem fazer milagre, então, a gente sabe fazer feitiço. Vamos ver quem é que ganha, se é o teu milagre ou o meu feitiço. O que eles chamam de saber popular, empírico, eu chamo de saber orgânico. E tudo bem. Você quer chamar o seu de acadêmico, você chame de acadêmico, mas eu chamo o meu de orgânico. Agora, o seu eu vou chamar de sintético. Agora, se você aprender a respeitar o meu como eu respeito o seu a gente faz um encontro e vai vendo como as coisas vão se dando”.

Referência:

SANTOS, Antônio Bispo. Colonização, quilombos: Modos e Significações. 2 ed. Brasília: Ayô, 2019.

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Antonino Condorelli é Professor Adjunto do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Antonino Condorelli

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