Tallita Tavares: “É hora de fazer lobby científico e ciência cidadã” Coluna do Jucá

quinta-feira, 4 julho 2019
Vista do pôr do sol no barco de pesquisa Argo Equatorial da UFC

Thiago Jucá entrevista a bióloga Tallita Cruz Lopes Tavares, pesquisadora do Instituto de Ciências do Mar-Labomar

A entrevista dessa semana foi realizada com a bióloga Tallita Cruz Lopes Tavares. Ela é Doutora (2014) e Mestre (2010) em Ciências Marinhas Tropicais pelo Instituto de Ciências do Mar (Labomar), além de graduada em Ciências Biológicas (2007), todos pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atualmente é pesquisadora desse Instituto, onde atua em pesquisas na área de Ecologia Microbiana em ambientes marinhos e costeiros no Laboratório de Plâncton. Tallita foi professora efetiva do Curso de Gestão de Turismo do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará (IFCE), Campus Canindé, na área de Meio Ambiente e Sustentabilidade. Lecionou também no Curso de Ciências Biológicas do mesmo Instituto no Campus Acaraú. Entre 2010 e 2011, foi Gestora Ambiental da Superintendência Estadual do Meio Ambiente do Ceará, SEMACE.

Coluna do Jucá: Mês passado, no dia 8 de junho, comemorou-se o Dia Mundial dos Oceanos. Ao que parece, eles nunca estiveram tão ameaçados. O desastre ambiental com o petroleiro Exxon Valdez na costa do Alaska em 1989, por exemplo, completou 30 anos este ano, e à época chocou a comunidade científica. Esse desastre pareceu um divisor de águas. Hoje, contudo, não se tem a real dimensão do impacto dos microplásticos e da acidificação dos oceanos, por exemplo, sobre os ecossistemas marinhos. Há o que se comemorar?

Tallita Cruz Lopes Tavares: Sócrates dizia que quanto mais se sabe, mais você percebe que nada sabe. Os oceanos na antiguidade eram um grande desconhecido, que inspiravam pesadelos em muitos e sonhos em uns poucos aventureiros. As desventuras nos mares se iniciaram com as grandes navegações, que abriram as portas para a exploração e os estudos do mar. Essas foram as sementes das grandes expedições científicas no mar que propiciaram conhecer seus grandes mistérios e perceber que nada sabíamos. Foi preciso conhecer os oceanos para constatar que eles não eram apenas uma grande massa d’água, mas abrigavam uma enorme biodiversidade e complexidade assim como muitas riquezas. Hoje apenas sabemos dos perigos da acidificação e da difusão dos microplásticos devido à pesquisa no mar. Da mesma forma, hoje já se sabe que a Zona Econômica Exclusiva é essencial para a soberania de um país, e há inúmeros pedidos de aumento dessa zona na Comissão de Direito Marítimo da ONU. O Brasil, por exemplo, conseguiu esse ano uma extensão na sua. Contudo, o foco é sempre a exploração de recursos do mar, não a proteção. Dessa forma, o dia mundial dos oceanos, celebrado desde 2002, não vem exatamente comemorar, mas chamar atenção para os oceanos do mundo todo, sobre sua importância em nossas vidas e como podemos protegê-los. Para mim, o papel do dia mundial dos oceanos é, principalmente, chamar a atenção para seus mistérios e desvendá-los já que não podemos conservar e proteger o que não conhecemos.

A bióloga Tallita Cruz Lopes Tavares.

Coluna do Jucá: O Planeta Terra poderia se chamar Planeta Água, isso sem muitos questionamentos até mesmo do cidadão mais desinformado. O litoral brasileiro, com seus mais de 8.000 km de extensão de costa, exemplifica bem essa questão. Diante de tamanha magnitude, quais argumentos utilizar para tentar convencer o Congresso Nacional, por exemplo, sobre a relevância das comunidades microbianas que habitam essas águas?

TT: A ciência vem mostrando que os micro-organismos governam nossas vidas. Desde aspectos macro, como a fixação de carbono nos oceanos, a aspectos bem específicos, como a nossa dieta. Porém, essas informações são bem claras e acessíveis para quem faz parte do mundo científico. As pessoas que não fazem parte desse mundo, o que inclui nossos afamados políticos, não sabem disso. Já passou da hora de nós, cientistas, sairmos de nossa bolha e mostrarmos para a sociedade a importância do conhecimento que produzimos. Fazer lobby científico e ciência cidadã. Contudo, seria difícil convencer um político sobre a relevância das comunidades microbianas “apenas” com argumentos sobre sua importância no funcionamento e manutenção da vida na Terra, pois, caso valorizassem isso, dariam mais peso às ameaças do aquecimento global. Acredito que a melhor maneira é através da biotecnologia, mostrando que essa diversidade microbiana é capaz de gerar inovação tecnológica e, principalmente, lucro, que parece ser a única linguagem que muitos são capazes de entender. Fora isso, fazer ciência cidadã e educar a sociedade sobre a importância ecológica dos micro-organismos pode nos levar a um futuro onde essa pergunta possa parecer absurda.

Coluna do Jucá: O artigo de notícias publicado na prestigiada revista americana Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS) e intitulado, em tradução livre, de “Interessado em avaliar a saúde de uma população? Olhe para o esgoto”, cai como uma luva para a questão da contaminação dos ambientes marinhos. Isso porque, infelizmente, há muitos esgotos que desaguam clandestinamente nos ambientes aquáticos, sem qualquer tratamento prévio. Pode-se fazer uma associação tão direta assim, por exemplo, em relação às comunidades microbianas dos ambientes marinhos?

TT: A microbiota responde, sim, muito prontamente a variações ambientais. Dessa forma, é possível identificar grupos de micro-organismos que poderiam ser utilizados como indicadores de contaminação, a exemplo da Escherichia coli, utilizada há anos na avaliação de contaminação fecal. Muitos táxons são oportunistas e existem em uma comunidade microbiana em abundâncias muito baixas ou em estados de dormência. Quando ocorre uma modificação ambiental, os táxons dominantes são afetados, abrindo espaço para tais oportunistas. Contudo, precisamos conhecer bem e monitorar nossas comunidades antes da ocorrência de um distúrbio para que possamos identificar esse tipo de modificação. No Brasil, e no Nordeste principalmente, precisamos implementar projetos de longa duração em ecossistemas-chave para que possamos conhecer nossa biodiversidade, inclusive microbiana, antes da instalação de empreendimentos e como forma de monitoramento da saúde de nossos ecossistemas. Em Fortaleza (CE), nos meses de chuva, observamos uma enorme quantidade de sujeira chegando ao mar através de galerias pluviais e esgotos clandestinos, mas exceto pelo monitoramento de balneabilidade feito pela SEMACE, não temos a real dimensão de quanto isso afeta nossos ambientes marinhos. Além disso, fora os contaminantes clássicos que já foram bastante estudados, nos deparamos hoje em dia com as ameaças dos contaminantes emergentes – antibióticos, plásticos e hormônios, por exemplo – que chegam aos ecossistemas naturais e cujo impacto apenas começa a ser vislumbrado.

Coluna do Jucá: Suponha uma excursão turística – “Da metagenômica às velas do Mucuripe”  ̶   por bairros como Mucuripe, Cais do Porto e Caça e Pesca. Logo em seguida, um banho nas praias do Titanzinho, dos Crush, do Futuro e de Iracema (todas em Fortaleza). Última parada: Labomar. Que tipo de informações os microrganismos de cada localidade poderiam nos dar sobre a pressão antrópica que recai diante dos ecossistemas marinhos da cidade de Fortaleza?

TT: Os micro-organismos são reconhecidos como aqueles capazes de responder mais prontamente a qualquer modificação ambiental devido a seu rápido tempo de geração. Porém, os micro-organismos são os portadores da maior plasticidade fenotípica e metabólica da natureza. Os estudos vêm mostrando que as comunidades microbianas são muito complexas e que possuem uma redundância funcional enorme, o que quer dizer que modificações que influenciem na perda ou aparecimento de bactérias em um determinado ambiente não necessariamente acarretam modificações no funcionamento da comunidade. A região pela qual faríamos essa excursão é um verdadeiro mosaico de paisagens onde a incidência de vórtices de circulação, ondas, atividades econômicas, recreativas e drenagem pluvial e de esgoto variam bastante. Possivelmente, mesmo uma avaliação desses micro-organismos através de técnicas tradicionais de cultivo já revelaria as diferentes pressões às quais estão submetidas cada uma das diferentes áreas (como observamos semanalmente através dos boletins de balneabilidade da SEMACE). Uma avaliação mais complexa por técnicas moleculares traria muito mais informação sobre esses impactos.

Tallita e seu filho, João, visitando o barco de pesquisa Argo Equatorial da UFC.

Coluna do Jucá: Este ano, a Plataforma Lattes do CNPq passou a incluir o período de licença maternidade e paternidade no currículo Lattes, bem como a data de nascimento e de adoção de filhos. Você, por exemplo, incluiu o ano de nascimento do seu filho e a licença maternidade no seu Lattes. Qual a importância desse tipo de informação vinculada ao Lattes do pesquisador?

TT: Na academia, somos julgados pelo nosso Lattes. Ele é utilizado no nosso dia-a-dia para avaliarmos a qualidade de um pesquisador e na maioria das seleções pelas quais passamos no mundo acadêmico – da solicitação de bolsas de Iniciação Científica a de Pesquisador do CNPq. Contudo, as exigências de dedicação integral do mundo científico muitas vezes vão de encontro às necessidades de cuidado que um filho inspira e exige. Um cientista com filhos (quando de fato cuida deles) vive na corda bamba na tentativa de continuar a produzir e estar presente ativamente nos cuidados de seus filhos. Nada mais natural e importante do que isso ser considerado. Muitos cientistas (principalmente mulheres) tiveram que optar entre ser um pai/mãe presente e sua carreira. Muitos deixaram de lado a produção científica, outros a criação dos filhos. Por que não tentar conciliar ambos de maneira saudável (por mais difícil que seja)? Nós somos seres com múltiplos interesses. A imagem do cientista brilhante que vivia no laboratório sempre deixou de lado a sua esposa que muitas vezes havia abdicado da carreira para cuidar dos filhos e do marido brilhante. Contudo, se os pares não começarem a se tratar de maneira mais empática e colaborativa, essa medida não sairá do papel. Além disso, temos que considerar que atualmente a ciência brasileira está mais focada no número de linhas do Lattes do que na sua qualidade. Isso também tem que mudar.

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Leia o texto anterior: O submundo do esgoto – parte 2

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

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