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terça-feira, 14 setembro 2021

Sete de setembro: os ciclos históricos parecem viver de recomeços fundamentados em negações

Quando criança, em Recife, o sete de setembro era o feriado que marcava a primeira ida para a  praia (como a largada oficial de um verão de sol e mar) após uma longa estação chuvosa que por vezes teimava chegar até final de agosto. Sabíamos que chuva após o sete de setembro era difícil, bem difícil. Não comemorávamos independência alguma, afinal, entre ficar vendo desfile militar e comer uma agulha fresca não havia muito o que pensar. Lembro de certa vez que a praia se estendeu para além do meio dia e fomos assistir um show na praia de Boa Viagem. Muitos artistas famosos e todos juntos gritavam “Diretas Já”. Era período de mudanças no Brasil. As pessoas achavam estar abrindo definitivamente as portas da democracia para nunca mais fechá-la.

Anos depois e mais um sete de setembro leva pessoas às ruas com cartazes em inglês e a clara intenção de jogar terra em tudo o que fora feito lá no passado, no século passado. Sim, o museu é repleto de grandes novidades e algumas delas, por mais aterrorizantes que sejam, ainda atraem a atenção da espécie humana. Recordo das cartas escritas por Einstein prevenindo a população do mal das guerras e vejo que estas nunca foram tão atuais.

Os ciclos históricos parecem viver de recomeços fundamentados em negações, que são nuvens de fumaça apropriadas para vendar os olhos de uma população, ou ao menos a parte dela que se põe a falar todo tipo de arbitrariedade sem controle.

E a jovem e frágil democracia brasileira balança na corda bamba, sob o olhar malicioso de uma classe média que se diz elite para ver o povo sofrer um pouco mais, cada dia mais. Não bastassem os números aterrorizantes da pandemia, a inflação zomba daqueles que sobreviveram para não poder mais comprar gás e catar madeiras para cozinhar pedaços de grãos de feijão quebrados com ossos doados.

E o pior é que este povo armado se diz religioso e que planta o amor. Mas como se diz, a boca fala daquilo que o coração está cheio. Sinceramente, se isto é amor, tento não imaginar o que seja ódio. Mas, se isto serve de alento, tudo passa. O sete de setembro já passou… Sem praia, sem agulha frita e sem muita coisa para se comemorar.

Resta-nos esperar que este ciclo seja bem curto, muito menor que aqueles experimentados pela Alemanha e pela Itália…. Que essa convulsão genocida seja um delírio de uma noite de verão. Passará. Como tudo na vida. E voltará. Como tudo que não nos deixa fortalecer uma democracia criança frágil em um país complicado da América do Sul.

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Leia o texto anterior: Ciência no interior e o novo normal

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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