Universidade: para todos, para poucos ou para ninguém? Ciência Nordestina

terça-feira, 17 agosto 2021

A universidade é a forma mais democrática de libertação e de plantio de sonhos

Para entender a importância da Universidade na história de uma nação é fundamental captar a forma com que cada povo se enxerga, o que é refletido em suas aspirações. E isso depende principalmente do quanto é permitido às pessoas verem para além de suas bolhas. Como dissera Paulo Freire: “Seria uma atitude ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que proporcionasse às classes dominadas perceber as injustiças sociais de maneira crítica”. Em uma primeira aproximação, podemos afirmar que o pensamento crítico mora nas Universidades, o que conduz à nítida observação do panorama que os tempos atuais querem criar entre ensino técnico e ensino superior.

E essa separação conveniente para as minorias não é nova. No governo de FHC, enquanto estudante da antiga Escola Técnica, tive a oportunidade de receber vários conselhos quanto ao papel dos vestibulares para estudantes de cursos técnicos. Diziam: “Nem todo mundo nasceu para ser engenheiro.” Ora, meu avô era eletricista e não havia chegado sequer a uma escola técnica. Meu pai, também eletricista, tinha parado em meio ao ensino médio. Eu sentia a necessidade de continuar esta história e ser engenheiro eletricista. E a favor deste desejo vinha uma certa estranheza com relação aos esquemas e manuais técnicos que líamos nas aulas. Eu queria projetar, fazer máquinas novas e não simplesmente consertar coisas quebradas. Porque o Brasil não poderia criar sua tecnologia?

Esse discurso de colocar o ensino médio como teto para os estudantes aprofunda uma realidade que agrada às classes dominantes na sua luta por manutenção no poder, com o aprofundamento da pobreza que se faz com o afastamento do povo da universidade. Como dissera Paulo Freire:

“Para mim é impossível existir sem sonho…”

“Quando a educação não é libertadora o sonho do oprimido é ser opressor.”

Esta última expressão explica claramente o pensamento de nossa classe média e o conceito tão nosso de “curso de pobre”.

Tudo isso aponta no sentido de fazer com que a educação seja ainda mais apedrejada, insultada e desprezada, dado o risco envolvido com o seu poder insuperável. Negar a entrada do povo na universidade é jogar um muro de concreto sobre sonhos e perspectivas dos brasileiros que precisam se contentar com a rotina de cada dia – com a profissão herdada dos pais, com uma vida severina.

Sempre que ouvirmos argumentos que buscam elitizar a universidade brasileira teremos a certeza de ser esta uma reverberação do pensamento das elites que pretendem se perpetuar na posição de opressor. Resta-nos lutar contra qualquer viés que não aponte no sentido da universidade popular, de uma universidade que seja de todos.

Como a maior fábrica de conhecimentos dos tempos modernos, a universidade é a forma mais democrática de libertação e de plantio de sonhos. E em tempos de substituição de verdades por narrativas precisamos ser cada vez mais “freireanos” e persistir na luta de educar com amor.

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Leia o texto anterior: Meritocracia e exclusão

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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