A extinção é para sempre, embora a ficção queira nos fazer acreditar que não Coluna do Jucá

quinta-feira, 26 abril 2018
Tatu bola (Tolypeutes tricinctus). Foto: Liana Sena (Programa Tatu-bola).

É difícil dizer qual sentimento melhor se adequa à extinção de uma dada espécie

Agora em abril, o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) publicou no Diário Oficial uma Portaria na qual consta a aprovação e a atualização do Plano de Ação Nacional (PAN) com vistas à conservação do Tatu-bola. Uma das espécies de tatu-bola alvo desse PAN – o qual teve início ainda no ano de 2014 – é o tatu bola do Nordeste (Tolypeutes tricinctus), espécie cuja ocorrência é predominante no bioma Caatinga. Além disso, esse animalzinho é um dos mais populares da fauna nordestina e, mesmo sendo inofensivo, integra a “lista indesejada”, ou melhor, a Lista Oficial das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção. A caça e a destruição do habitat dessa espécie são as principais atividades responsáveis por inseri-la nessa lista, na categoria “Em perigo”. Daí um dos desejos prioritários do PAN dessa espécie ser o de alçá-la à categoria de vulnerável para, logo em seguida, retirá-la dessa lista. Assim todos esperam.

Já no mês de março, outra ação também com vistas à preservação desse animalzinho ilustre da Caatinga comemorou dois anos de lançamento. Trata-se do Programa de Conservação do Tatu-bola, conduzido pela Associação Caatinga e apoiado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. O caso do tatu bola infelizmente está longe de ser um caso isolado. Em 2014, o Ministério do Meio Ambiente (MMA), publicou três portarias dando publicidade às novas listas nacionais de espécies ameaçadas de extinção, quais sejam as de nº 443/2014 (flora), 444/2014 (fauna) e 445/2014 (peixes e invertebrados aquáticos). Essas portarias revelam dados alarmantes. De acordo com dados disponibilizados no portal do ICMBio, a título de exemplo, dos 12.256 táxons da fauna avaliados, 1.173 encontram-se ameaçados.

Segundo o fotógrafo que registrou essa foto “essa cena abalou sua fé na humanidade”. Foto: Brent Stirton/WPY.

Ainda no mês de março, o processo praticamente irreversível de extinção de uma espécie voltou a ser destaque nos principais portais de notícias do mundo. O jornal EL PAÍS, por exemplo, noticiou: Morre Sudan, o último macho de rinoceronte branco do norte que restava no mundo. E logo em seguida noticiou no subtítulo: Continuam vivas apenas duas fêmeas dessa subespécie, e a única esperança contra a sua extinção passa pela reprodução assistida. É difícil dizer qual questão esse subtítulo evoca, se é de esperança, conformismo ou ficção científica. Certamente deve ser mais fácil iniciar uma grande discussão filosófica a respeito dessas questões – as quais muito provavelmente não levarão os envolvidos a lugar algum – do que tentar respondê-las.

A história do último rinoceronte branco do norte traz à tona inúmeros outros casos nos quais o final, infelizmente, foi o mesmo: a extinção. Alguns desses casos são emblemáticos, como o do Tigre da Tasmânia (Tylacinus cynocephalus), o qual foi caçado até a sua completa extinção. O último animal vivo dessa espécie morreu em 1936 no jardim zoológico de Hobart, localizado na Tasmânia, onde vivia. Em casos como esse ainda resta algo por fazer? Considerando-se o aperfeiçoamento das técnicas de isolamento de DNA antigo e de sequenciamento, é possível, por exemplo, ter acesso ao genoma de espécies extintas. Mesmo que para isso o DNA em questão tenha mais de 100 anos e esteja presente em exemplares fixados em álcool. Esse foi o caso de um estudo publicado em 2008 na revista PLOS ONE com o Tylacinus cynocephalus. Outros estudos buscam ainda entender os motivos, considerados controversos, por trás da extinção desta espécie. Pensando nisso, a criopreservação de células e tecidos representa uma ferramenta valiosa na proteção da informação genética de espécies ameaçadas de extinção. Sem sombra de dúvidas, os avanços de determinadas técnicas evocam esperança!

Tigre da tasmânia, espécie extinta na natureza. Fonte google.

Em muitos casos, porém, a adoção de estratégias como a de isolamento do DNA não foi possível. No livro A Montanha de Moluscos de Leonardo da Vinci, do memorável naturalista e professor de zoologia e geologia da Universidade de Harvard, Stephen Jay Gould, consta alguns trechos de uma clássica monografia de 1848 (H. E. Strickland) sobre o Dodô (Raphus cucullatus) – uma famosa espécie de ave extinta em meados de 1690. “Possuímos apenas as descrições grosseiras de viajantes que não eram cientistas, três ou quatro pinturas a óleo, e uns poucos fragmentos ósseos espalhados, que sobreviveram a duzentos anos de negligência. O paleontólogo em muitos casos conta com dados muito melhores para a determinação das características zoológicas de espécies que pareceram incontáveis anos atrás”. Em relação ao Dodô, por exemplo, é difícil não inseri-lo em um contexto de conformismo.

Esperança e conformismo, certamente, são sentimentos que não vem à tona quando lembramo-nos do filme O mundo Perdido: Jurassic Park do diretor Steven Spielberg. O enorme sucesso alcançado pelo filme no ano de estreia (1993) estende-se até o mais novo lançamento (2018). Nos quatro filmes produzidos, os espectadores puderam conhecer de uma maneira inimaginável, “os grandes Popstars da paleontologia”: os dinossauros. Nenhuma espécie extinta é tão famosa e está tão inserida na imaginação popular. Seja nas classes mais ricas, seja nas mais pobres. E essa inserção também independe de diferenças ideológicas, de gênero e de religião. E toda a ficção por trás dessa trama tem início com a clonagem do DNA extraído desses animais, os quais se encontravam preservados no sangue de insetos aprisionados em âmbar pré-histórico. Pode até parecer brincadeira, mas em 2013 cientistas publicaram um estudo na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), no qual descrevem a presença de sangue em um fóssil de mosquito, com 46 milhões de anos, cujo abdômen estava cheio de sangue seco.

A realidade imita a ficção ou a ficção imita a realidade? Foto: AFP Photo/Smithsonian Institution/Byline.

Nesse último parágrafo transcrevo outro trecho da clássica monografia de 1848, de H. E. Strickland sobre o Dodô e que consta no livro de Jay Gould “Com efeito, parece altamente provável que a morte seja uma lei da natureza no que diz respeito às espécies, assim como em relação ao indivíduo. Mas essa tendência interna à extinção é em ambos os casos sujeita à antecipação por meio de causas violentas ou acidentais. Numerosos agentes externos afetaram a distribuição da vida orgânica em vários períodos, e um deles operou exclusivamente durante a nossa época existente, a saber, a ação do homem”. Esse trecho escrito há quase 200 anos, mas que caberia perfeitamente nos dias de hoje revela como nos sentimos imponentes diante da extinção de uma espécie. A partir desta constatação decorre-nos então uma incumbência, a da preservação, seja qual for a espécie. Porém uma coisa é certa, mesmo a preservação do nosso animalzinho ilustre (tatu-bola) bem como do bioma Caatinga, por exemplo, exigem uma condição imprescindível: justiça social. Enquanto não houver práticas socioambientais inclusivas que tragam educação, emprego, renda, moradia e conscientização, a extinção continuará a ser manchete de jornal.

Referências Bibliográficas

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Leia o texto anterior: Um sofisticado laboratório de biomoléculas, do mesmo autor.

Thiago Jucá

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