Os ansiolíticos na saúde mental das mulheres SCIARÁ

quarta-feira, 7 fevereiro 2018

Pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará avaliam impacto do uso abusivo de ansiolíticos na vida das mulheres

Há pouco menos de um ano, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicava o relatório “Depressão e outros distúrbios mentais comuns: estimativas globais de saúde”, revelando que o que o Brasil havia se tornado o país com a maior taxa de pessoas com transtornos de ansiedade do mundo. De acordo com o documento, divulgado em fevereiro de 2017, 9,3% dos brasileiros (cerca de 18,6 milhões de habitantes) sofrem com algum distúrbio relacionado à ansiedade. O tratamento geralmente consiste em uma combinação de medicamentos e terapia cognitivo-comportamental (TCC). Entre os medicamentos mais utilizados estão os benzodiazepínicos.  Pesquisadores têm alertado, nos últimos anos, no entanto, que o uso contínuo desse tipo de medicamento tem alto poder de causar dependência.

Integrantes da equipe de pesquisadores, com professora Lia Silveira, ao centro. (Foto: Divulgação/Uece)

No Ceará, um grupo do Laboratório de Psicanálise da Universidade Estadual do Ceará (Uece) está avaliando o impacto do uso abusivo de ansiolíticos na vida das mulheres. O projeto “Uso abusivo de drogas benzodiazepínicas na atenção à saúde mental: um estudo sobre a vulnerabilidade e a subjetividade feminina”  é coordenado pela professora Lia Silveira, do curso de Psicologia, em colaboração com os professores Maria Rocineide Ferreira da Silva e Paulo César de Almeida, do Programa de Pós-Graduação Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde (PPCLIS),  e de estudantes de Mestrado e Doutorado. A iniciativa é apoiada pela Funcap.

De acordo com Lia, a partir de três meses de utilização, o risco de dependência do paciente aumenta em 10%  e, a partir de 12 meses, sobe para 40%. O grupo de pesquisadores apurou que o tempo de uso entre mulheres é muito superior a 12 meses (em média oito ou nove anos). Foram coletados dados de 520 mulheres de Fortaleza atendidas pela rede básica de saúde. Dessas, doze se dispuseram a participar da fase qualitativa do estudo, que consistia em entrevista. A equipe descobriu que entre os motivos para prescrição estavam situações de perdas familiares ou exposição à violência. Para a coordenadora do estudo, o tratamento deveria apostar em práticas terapêuticas que vão além do uso de medicamentos, como espaços pautados na circulação da palavra, onde essas mulheres pudessem falar e elaborar formas de lidar com o que as aflige”.

O perfil das mulheres mais atingidas é composto de pessoas com faixa etária entre 40 e 53 anos, solteiras, com baixo nível de escolaridade, com filhos, e sem trabalho formal. A maioria (55%) não trabalha e mais de 76% tem renda inferior a dois salários mínimos. Esse perfil, segundo Lia, dificulta o acesso a outros recursos, como terapias baseadas na escuta e/ou medicamentos de última geração com menos efeitos colaterais, que não estão disponíveis pelo Sistema Único de Saúde (SUS).  “No final das contas o que temos não é alguém com menos sofrimento, mas pessoas dependentes da substância para enfrentar a vida”, afirma.

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Leia o texto anterior: Ciência cearense ganhará R$ 1,9 bi em dez anos, da mesma autora.

Giselle Soares com informações da Funcap

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