
Há duas décadas, o cronobiologista Luiz Menna-Barreto (GMDRB-USP) lançou uma provocação que ainda ecoa nos laboratórios e salas de aula: “Relógios biológicos não existem”. A afirmação, feita durante um simpósio internacional em Natal (RN), não era um negacionismo da ritmicidade da vida, mas um convite a repensar a precisão da nossa linguagem científica.
Neste texto, retomo essa reflexão. Não pretendo encerrar o debate, mas convidar a comunidade e os curiosos a construirmos um consenso — mesmo que provisório — sobre como descrevemos os mecanismos do tempo na biologia.
A crítica à metáfora do relógio
Na época, a provocação de Menna-Barreto me levou a sugerir que deveríamos preferir termos como osciladores ou sistemas de sincronização circadiana. O argumento era claro: a ritmicidade não é ditada por um único “mestre” centralizado, mas sim por uma rede complexa de múltiplos osciladores presentes em quase todas as nossas células.
O professor Menna-Barreto argumentou que a metáfora do “relógio” — algo mecânico e rígido — tornou-se limitada para descrever a biologia atual. Ele propôs a expressão “sistema de temporização”, que reflete melhor uma rede integrada e dinâmica de coordenação do organismo.
A origem do termo
Curiosamente, a popularização do termo “relógio biológico” deve muito ao trabalho fundamental de Colin Pittendrigh e Serge Daan na década de 1970. Em sua série de artigos clássicos sobre marcapassos circadianos em roedores noturnos, no quarto artigo eles justificaram o uso da palavra “relógio” com base em duas funções essenciais que o sistema desempenha:
- Medição da passagem do tempo: O marcapasso mantém uma frequência altamente estável (homeostase de frequência), sendo inclusive compensado contra variações de temperatura. Isso permite que animais realizem tarefas precisas, como a orientação solar.
- Reconhecimento da hora local: O sistema cria um “dia interno” pré-programado que se ajusta ao ambiente externo através da sincronização (ou arrastamento) com ciclos de luz e escuridão (zeitgebers).
No entanto, o próprio Pittendrigh, considerado o “pai do relógio biológico”, revisou sua posição nos anos finais de vida. Ele passou a preferir o termo “programa temporal”, acreditando que o foco deveria estar na estrutura temporal dentro da célula e do organismo, e não na imagem de um objeto mecânico.
O dilema da comunicação
Aqui enfrentamos um desafio: ao falar com o público não especialista, termos técnicos como “osciladores” ou “sistemas de sincronização” podem ser tão metafóricos ou confusos quanto “relógio”.
- O Oscilador: Um pêndulo ou um cristal de quartzo são osciladores básicos de relógios mecânicos e eletrônicos. Chamar os núcleos supraquiasmáticos (no hipotálamo) apenas de “osciladores” pode, inclusive, simplificar demais sua função complexa.
- O Sistema: Quando olhamos para o organismo como um todo, o termo “sistema de temporização” parece ser, de fato, o mais adequado.
Um convite ao debate
Precisamos combater o uso excessivo e muitas vezes equivocado do termo “relógio” para qualquer estrutura biológica, como ocorre com as expressões “genes relógio” ou “relógios periféricos”.
A ciência é dinâmica e exige que revisemos nossos conceitos à medida que novas evidências surgem. Por isso, convido colegas cronobiologistas a levarem essa discussão para suas salas de aula e apresentações. E você, leitor? O que pensa sobre essa nomenclatura? Deixe sua opinião nos comentários ou, melhor ainda, publique suas reflexões sobre como a linguagem molda nosso entendimento da vida.
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John Fontenele Araújo é professor titular aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e professor colaborador da Universidade Federal do Delta do Parnaíba










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