
Um estudo publicado na revista PalZ amplia o conhecimento sobre a fauna de mamíferos que habitou o interior da Bahia durante o final do Pleistoceno, período popularmente conhecido como a “Era do Gelo”. A pesquisa analisou fósseis encontrados na caverna Toca Fria, localizada na região de Iuiú, no sudoeste baiano (a 773 quilômetros de Salvador), e revelou a presença de 13 grupos de mamíferos, incluindo espécies extintas de grande porte e animais que ainda existem atualmente.
O artigo tem como primeira autora Thays Oliveira, que realizou o estudo durante sua graduação em Ciências Biológicas, na Universidade Federal da Bahia (UFBA). O grupo de pesquisa conta também com Evelyn Nathália da Silva Cruz, doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Conservação da Universidade Federal de Sergipe, sob orientação do professor Mário André Trindade Dantas, da UFBA.
Preguiças-gigantes e outros mamíferos
Entre os animais identificados estão preguiças-gigantes, como Eremotherium laurillardi, Valgipes bucklandi, Catonyx cuvieri e Glossotherium phoenesis; o proboscídeo Notiomastodon platensis; o toxodonte Toxodon platensis; tatus e gliptodontes extintos; além de carnívoros como o cachorro-do-mato (Cerdocyon thous) e o urso sul-americano extinto Arctotherium wingei.
Um dos destaques do estudo é o registro de Blastocerus dichotomus, o cervo-do-pantanal. Hoje, essa espécie possui distribuição reduzida e fragmentada e não ocorre mais na região de Iuiú. A presença de seus fósseis na Toca Fria indica que, há cerca de 30 mil anos, esse animal ocupava áreas muito mais amplas do Brasil do que atualmente. As peças estão catalogadas no Laboratório de Ecologia e Geociências do Instituto Multidisciplinar em Saúde da UFBA, em Vitória da Conquista, a 370 quilômetros do local onde foram encontradas.
“A nossa coleção hoje possui mais de 3.600 peças. É modesta ainda, mas todas as visitas são muito bem-vindas.” A afirmação do orientador da pesquisa e curador da coleção de fósseis, Mário Dantas, ao Portal Nossa Ciência aponta a disponibilidade do acervo para visitação de outros pesquisadores.
Vinte mil anos de história natural
A pesquisa também apresenta novas datações por radiocarbono. Os resultados indicam que o urso extinto Arctotherium wingei viveu na região há aproximadamente 39 mil anos; Glossotherium phoenesis, uma preguiça-gigante, há 35 mil anos; e Blastocerus dichotomus, há 30 mil anos. Os fósseis da Toca Fria mostram que a caverna preservou restos de diferentes momentos do Pleistoceno, reunindo evidências de pelo menos 20 mil anos de história natural.

Dantas explica a metodologia do trabalho: “Além da identificação dos fósseis, realizamos análises de isótopos estáveis de carbono e oxigênio, técnicas que ajudam a reconstruir a dieta dos animais e o ambiente em que viviam.” De acordo com o professor, os resultados sugerem que, durante o final do Pleistoceno, a região de Iuiú apresentava uma paisagem em mosaico, com áreas de floresta mais aberta e ambientes de savana mais seca, semelhantes a zonas de transição entre Cerrado e Caatinga.
Segundo o estudo, a temperatura média anual estimada para o período variou entre 20,5 °C e 22,3 °C, enquanto a precipitação média anual ficou entre 925 e 1.180 mm. Esses dados indicam que a região era ambientalmente diversa e capaz de sustentar uma fauna rica, composta tanto por grandes herbívoros quanto por carnívoros.
Papel de destaque
Na opinião do pesquisador, a Toca Fria já havia fornecido fósseis importantes em estudos anteriores, mas as novas coletas realizadas em 2023 e 2024 ampliaram significativamente a diversidade conhecida para a localidade. “Com isso”, garante, “a caverna passa a ocupar um papel ainda mais relevante para a compreensão da megafauna pleistocênica do Nordeste brasileiro.”
Para os autores, os achados reforçam a importância das cavernas baianas como arquivos naturais da biodiversidade do passado. Esses ambientes preservam não apenas ossos de animais extintos, mas também informações sobre clima, vegetação, mudanças ambientais e transformações na distribuição geográfica de espécies ao longo do tempo.
A pesquisa conta com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, por meio do INCT Paleovert.
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