Integrantes da Rede Leca durante o Simpósio de lançamento. (Foto: Luciana Miranda Costa)

Comunicação Ambiental em Rede

Olhe ao redor. Dois elementos inundarão imediatamente sua visão e seus pensamentos: o meio ambiente, ou seja, tudo que o cerca, e a linguagem, materializada pela comunicação. É sobre essa interface, que engloba temáticas como justiça ambiental e democracia, que se dedica a Comunicação Ambiental.

Não se trata apenas de transmitir informações sobre meio ambiente por meio do jornalismo, de conversas ou mídias sociais. Busca-se construir a própria compreensão do mundo de forma holística, tendo por base os elementos e as relações humanas e não humanas que compõem o meio ambiente, permeadas pela comunicação e sob uma base de direitos igualitários.

Comunicação da realidade latino-americana

Diversos grupos sociais, como comunidades indígenas, ribeirinhos, midiativistas, pesquisadores, estudantes, profissionais de diversas áreas, mulheres e adolescentes, têm buscado formas de comunicar que considerem as epistemologias e ontologias produzidas a partir do Sul Global (América Latina, África, Ásia e Oceania), capazes de orientar decisões políticas, pesquisas e práticas comunicacionais relacionadas às realidades latino-americanas.

Alguns exemplos podem ser encontrados no Brasil por meio de agências de notícias como a Rede de Notícias da Amazônia (RNA), Sumaúma, Marco Zero, Brasil de Fato e Alma Preta, além do Portal Nossa Ciência. Trata-se de uma comunicação que pretende romper com a centralidade branca/urbana, a epistemologia eurocêntrica, a natureza vista como recurso e o desenvolvimento como progresso linear.

O objetivo é atingir uma pluralidade epistêmica, incluindo saberes indígenas, quilombolas, ribeirinhos e de mulheres das periferias, além da valorização da territorialidade e da experiência vivida, no sentido de que os fatos não vêm apenas de especialistas ou do Estado, mas de comunidades que experienciam diretamente a crise ambiental, a exemplo da emergência climática.

Na Academia, nas salas de aula, em atividades de extensão ou em meio a pesquisas e artigos científicos, o enfoque é o mesmo: defender a Justiça Ambiental, combater a monopolização da fala, ampliar a esfera pública, proteger o pluralismo, enfrentar a desinformação e fortalecer a soberania comunicacional dos territórios por meio da Comunicação Ambiental.

Rede LECA

Foto: Luciana Miranda Costa

Neste sentido, foi lançada oficialmente, no início de maio deste ano, a Rede LECA – Rede Latino Americana de Estudos em Comunicação Ambiental, envolvendo estudantes, comunicadores e representantes de organizações sociais que buscam refletir a Comunicação Ambiental e seus efeitos a partir dos territórios latino-americanos. O evento aconteceu durante o II Simpósio da Rede Leca, realizado na Universidade de La Sabana, em Chía, Cundinamarca, na Colômbia, com o tema “Democracia y Comunicación Ambiental en América Latina”.

Diversas instituições se integraram à rede, como as universidades de Guadalajara, de La Sabana, Cornell, Michigan, Montevideo e Nacional Autónoma do México, as organizações Salud sin Daño (Argentina) e Quisca Producciones (Perú), o Centro Latino Americano de Ecología Social (Uruguai), o Centro Documentación Información (Bolívia), além das universidades federais de Roraima, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Norte, representando o Brasil.  

Entre os objetivos da Rede Leca estão a defesa da participação social, do diálogo, da democracia, da sustentabilidade de todas as formas de vida e da pluralidade epistemológica e ontológica. Alguns temas já aparecem nos trabalhos de seus integrantes, como mineração, mudanças climáticas, democracia, saúde, território, ciência, povos indígenas e comunidades tradicionais. A jovem e promissora Rede traz à luz, com as lentes da Comunicação Ambiental, o diálogo entre a pesquisa e as comunidades e movimentos sociais, optando, sem dúvida, por palavras que permeiam esta relação e suas atuais e futuras atividades: resistência, justiça, esperança, luta e democracia.

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Luciana Miranda Costa é professora do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Mídia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (PPgEM-UFRN) e coordenadora do Grupo de Pesquisa Preserv-Ação.