
Pronominais
Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro.
(Oswald de Andrade)
Outro dia, tive a falta de sorte de esbarrar com um vídeo em que um camarada depreciava o discurso de posse de Ana Maria Gonçalves na Academia Brasileira de Letras. Com aquele ethos típico dos adeptos da extrema direita – cheio de ódio e de orgulho pela própria ignorância – , o moço criticava principalmente a referência que a autora de “Um defeito de cor” fazia ao pretuguês e o suposto ataque à “velha e boa língua portuguesa”.
Que preguiça de camaradas assim…
Já se sabe há tempos que uma mulher negra empoderada incomoda muita gente, mas o que ainda é de se espantar é que, mesmo com a larga difusão da Linguística no mundo e no Brasil, discursos anacrônicos e elitistas sobre o que seja ou não seja uma língua ainda se mantenham. Tal como se expressa o moço no vídeo infeliz, reforçando velhas e nada boas concepções sem fundamento científico nenhum.
Comento rapidamente duas dessas concepções equivocadas, ambas originadas mais em preconceito do que em espírito de observação e análise.
Primeiramente, a concepção de que a Língua é uma entidade abstrata, soberana e congelada no Tempo, à qual as pessoas devem respeito. Como é que esse sapo falante não percebeu ainda que se trata exatamente do contrário? As pessoas é que são soberanas em suas formas de se expressar, de falar, de dizer e de se comunicar, e são essas formas, reais, concretas, efetivas, que vão moldando as línguas em constantes e incessantes movimentos. Assim como a própria vida e o mundo.
Em segundo lugar, por trás da aparente unidade de uma língua, o que há são muitas possibilidades, alternativas, variantes de um “mesmo” idioma. Com o português brasileiro não é diferente, afinal, há uma vasta gama de influências, incluindo as influências de outras línguas na história de sua construção. Uma dessas influências é a das línguas africanas trazidas para o Brasil com os povos sequestrados e escravizados, cerca de 4 milhões de pessoas, entre os séculos 16 e 19.
Por isso, a expressão pretuguês, cunhada sabiamente por Lélia Gonzales, remete às influências linguísticas de origem africana, especialmente do tronco etnolinguístico Bantu (de Angola, Benguela e Congo). Essas influências se manifestam em diferentes níveis da língua (na sintaxe, por exemplo, das duplas negações, ou no léxico, com termos como “caçula”, “cafuné” e outras palavras tão melodiosas de se ouvir e se dizer…), o que só reforça a ideia, já defendida por linguistas há tempos, de que cada língua é, na verdade, uma grande diversidade. Aliás, no dia 5 de maio comemora-se o Dia Mundial da Língua Portuguesa, data estabelecida em 2019 pela Unesco e pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa. Com mais de 265 milhões de falantes no mundo, não custa lembrar, especialmente nesse dia, uma obviedade ululante: o português são muitos.
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Cellina Muniz é escritora e professora do Departamento de Letras e do Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.










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