A pesquisa reuniu pesquisadores brasileiros, europeus e africanos, além de comunidades do Quênia

Restauração da natureza precisa reconhecer comunidades locais como protagonistas, aponta estudo

Uma nova abordagem para a restauração de ecossistemas deve ir além do plantio de árvores e da participação comunitária como simples fornecimento de mão de obra. Essa é a proposta defendida por pesquisadores em artigo publicado no periódico científico People and Nature, que apresenta o conceito de restauração biocultural como uma alternativa aos modelos tradicionais de recuperação ambiental.

O estudo “On the need for biocultural approaches to restoration foi liderado por Felipe Pimentel Lopes Melo, professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Reforçar ou combater desigualdades

Para Melo, a restauração biocultural propõe que comunidades locais deixem de ser vistas apenas como participantes de etapas operacionais dos projetos e passem a atuar na definição dos objetivos, no planejamento e nas decisões sobre os territórios. “Elas não são mão de obra, elas precisam ser inteligência, planejamento, concepção, modelo de mundo, filosofia e valores”, afirmou em entrevista ao Portal Nossa Ciência.

Povo Maasai, no Quênia, onde o pesquisador esteve.

O artigo argumenta que ações de restauração podem reforçar desigualdades quando ignoram os conhecimentos tradicionais e concentram decisões, recursos e tecnologias em grupos que já possuem maior poder. Para os autores, restaurar paisagens é também um processo social e político, pois envolve escolhas sobre onde restaurar, como restaurar e quem será beneficiado.

Felipe Melo destaca que muitos conhecimentos utilizados por comunidades tradicionais já contribuem para processos de recuperação ambiental. Ele cita experiências com povos Maasai, no Quênia, e práticas existentes na Caatinga brasileira, como sistemas agroflorestais, manejo tradicional e formas comunitárias de uso da terra.

O pesquisador explica que a proposta não é substituir a ciência acadêmica, mas ampliar as formas de conhecimento consideradas nos projetos. “A gente está propondo que essas práticas não precisam de uma validação acadêmica, elas já funcionam, já existe evidência na prática para elas”, disse.

Rede internacional

O estudo faz parte de uma agenda mais ampla de pesquisas sobre restauração biocultural, incluindo a criação de uma rede internacional para reunir experiências desse tipo de abordagem. Para Melo, o desafio é garantir que o avanço da restauração ambiental também produza benefícios sociais e reconheça as pessoas como parte central da recuperação das paisagens.

Melo é membro do corpo docente permanente do Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal (PPGBV) e do Programa de Pós-Graduação em Etnobiologia e Conservação (PPGEtno). Ele também é pesquisador colaborador do Centro de Pesquisas Ambientais do Nordeste, coordenador do Laboratório de Ecologia Aplicada e secretário da Associação Brasileira de Ecologia e Conservação (Abeco).

A pesquisa reuniu cientistas da UFPE, da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), além de pesquisadores da Universidade de Nottingham Trent, no Reino Unido, da Universidade de Wageningen, nos Países Baixos, da Universidade de Bolonha, na Itália, e de instituições do Quênia, como a Universidade de Maasai Mara, a Universidade de Monte Quênia e o Centre for Ecosystem Restoration Kenya.

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