Estudo identificou que a perda da escuridão natural pode afetar anuros, como a Boana raniceps.

A luz da lua revela como anfíbios do Semiárido ajustam sua reprodução ao ambiente

A lua não ilumina apenas as noites. Para muitas espécies de anfíbios, suas diferentes fases funcionam como um sinal ambiental capaz de orientar comportamentos essenciais, como a reprodução e a vocalização. Um estudo realizado no município de Floriano (a 188 quilômetros de Terezina), no Piauí, revelou que a atividade de sapos, rãs e pererecas acompanha padrões relacionados à luminosidade lunar e que a perda da escuridão natural pode afetar esses animais.

Publicado na revista científica Brazilian Journal of Biology, o artigo analisou a relação entre o ciclo lunar e a ocorrência de anuros em uma área de transição entre Cerrado e Caatinga. Os pesquisadores monitoraram os animais durante 13 meses consecutivos e registraram 1.921 indivíduos pertencentes a 12 espécies. A informação é da Agência Bori.

O trabalho é assinado pelos pesquisadores Mauro Sérgio Cruz Souza Lima, professor titular da Universidade Federal do Piauí (UFPI), Campus Amílcar Ferreira Sobral, em Floriano; Joara de Sousa Andrade, cujo Mestrado na UFPI teve Mauro Lima como orientador; e Jonas Pederassi, da ONG Bioma, coordenador da pesquisa.

Da esquerda para a direita: Jonas Pederassi, Mauro Lima e Joara Andrade. (Fotomontagem: Nossa Ciência)

Em entrevista ao Portal Nossa Ciência, Pederassi afirmou que o estudo buscou compreender se a fenologia reprodutiva dos anuros sofre influência das fases da lua, se essa resposta varia entre espécies e se padrões observados anteriormente na Mata Atlântica também aparecem em uma região ecotonal do Piauí.

“A ocorrência dos anuros não é aleatória ao longo do ciclo lunar. A maioria das espécies avaliadas apresentou maior frequência de registros em períodos de menor luminosidade lunar, especialmente entre a lua nova e o quarto crescente”, explica o pesquisador.

A análise mostrou que aproximadamente 60% das espécies avaliadas apresentaram preferência por períodos de menor luminosidade. O resultado se aproxima de um estudo anterior realizado na Mata Atlântica, no qual 78% das espécies analisadas apresentaram comportamento semelhante.

A influência da lua varia entre espécies

Embora exista uma tendência geral de maior atividade em noites mais escuras, o estudo mostrou que cada espécie responde de maneira própria ao ciclo lunar. Para os pesquisadores, essa diferença está relacionada às características ecológicas de cada animal.

“Não existe um único padrão de resposta. Mesmo espécies que convivem na mesma região podem responder de maneiras muito distintas à luminosidade lunar”, destaca Pederassi.

Espécie: Dendropsophus aff nanus.

Algumas espécies apresentaram associações específicas com determinadas fases da lua. A Scinax x-signatus, conhecida popularmente como perereca-de-banheiro, foi a única espécie analisada que apresentou associação mais forte com períodos de maior luminosidade, como a lua cheia. Já a Rhinella mirandaribeiroi apresentou forte relação com a lua nova.

A luminosidade lunar pode influenciar diferentes aspectos da vida dos anuros, incluindo atividade vocal, comportamento reprodutivo, exposição aos predadores e escolha de ambientes. O estudo, no entanto, não avaliou diretamente a relação entre a lua e a predação, mas aponta esse fator como uma possibilidade ecológica que merece investigação.

A ameaça da iluminação artificial

Apesar de o trabalho não ter medido diretamente os efeitos da iluminação urbana, os pesquisadores discutem como a luz artificial pode interferir nos ciclos naturais dos anfíbios.

“A iluminação pública intensa pode alterar os padrões naturais de atividade dos anuros”, afirma Pederassi. Segundo ele, espécies adaptadas a ambientes modificados pelo ser humano podem apresentar respostas diferentes à luminosidade.

O caso da Scinax x-signatus chama atenção. A espécie costuma ocupar construções humanas e pode ter desenvolvido uma adaptação ao ambiente urbano, onde a luz artificial atrai grandes quantidades de insetos. Essa disponibilidade de alimento pode parecer uma vantagem, mas também aumenta riscos.

A concentração de insetos próximos às fontes de luz atrai não apenas anfíbios, mas também outros predadores. Além disso, animais atraídos para áreas urbanas ficam mais expostos a atropelamentos e ao contato com animais domésticos, como cães e gatos.

Pederassi destaca que lâmpadas de LED com maior emissão de luz branca e azul podem atrair ainda mais a fauna. Como medida de redução dos impactos, ele aponta alternativas como o uso de anteparos que direcionem a iluminação apenas para as áreas necessárias, evitando que a luz alcance a vegetação próxima.

Ciência para a conservação de anfíbios

Um dos diferenciais do estudo foi o acompanhamento prolongado dos animais e o uso de estatística circular, uma metodologia adequada para analisar fenômenos cíclicos, como as fases da lua.

Espécie: Leptodactylus macrosternum.

“A amostragem durante 13 meses consecutivos, abrangendo 12 ciclos lunares completos, aumenta a confiabilidade dos padrões observados”, explica o pesquisador.

Os resultados podem contribuir para estratégias de conservação, especialmente em áreas pressionadas pela expansão urbana e agrícola. Compreender a relação entre os animais e os ciclos naturais permite planejar ações mais eficientes de manejo ambiental.

Para Pederassi, o estudo reforça a importância de considerar a luminosidade natural como parte do equilíbrio dos ecossistemas.

“A compreensão da dependência dos anuros em relação ao ciclo lunar pode auxiliar na mitigação de impactos antrópicos, principalmente aqueles relacionados à expansão urbana e à iluminação artificial”, afirma.

A pesquisa também amplia o conhecimento sobre a biodiversidade do Semiárido brasileiro, mostrando que mesmo ambientes considerados extremos possuem relações ecológicas complexas. A lua, nesse cenário, deixa de ser apenas um elemento do céu noturno e passa a ser reconhecida como um componente importante da dinâmica da vida.

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(Todas as fotos dessa reportagem foram enviadas pelo pesquisador Jonas Pederassi)