
Professor e pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Felipe Pimentel Lopes Melo lidera estudos que propõem uma nova forma de pensar a recuperação de ambientes degradados.
Primeiro autor de artigo publicado no periódico científico People and Nature, ele defende que a restauração biocultural deve incorporar a participação efetiva das comunidades nas decisões sobre os territórios. Em entrevista ao Portal Nossa Ciência, o pesquisador explica que a restauração biocultural reconhece conhecimentos tradicionais, relações de poder e diferentes formas de interação entre sociedade e natureza.
Portal Nossa Ciência: Como ocorre a colaboração entre as instituições envolvidas na pesquisa?
Felipe Melo: Nossa colaboração foi construída inicialmente por meio de um programa de pesquisa que a Universidade de Nottingham Trent mantém com países do leste da África. Eu estava lá justamente como professor visitante, liderando uma iniciativa de restauração biocultural no leste da África, especificamente no Quênia. Então, nossa ponte inicial foi através da Universidade de Nottingham Trent.
A ideia é que as comunidades não sejam vistas apenas como mão de obra. Elas precisam participar da inteligência, do planejamento, da concepção, dos valores e da visão de mundo que orientam a restauração.
Agora estou preparando uma proposta para uma chamada bilateral entre Brasil e Quênia, promovida pelo CNPq, justamente para criar uma ponte mais direta entre os dois países e continuar essa parceria.
Além disso, existem outras cooperações em andamento com países da América Latina, como México e Argentina. Também dou aula em um Programa de Pos-Graduação em Ecologia da Restauração da Universidade de Comahue, na Argentina.
Conhecimento tradicional
Portal Nossa Ciência: No que consistem as abordagens de restauração biocultural, que vão além da participação comunitária?
Felipe Melo: É muito comum que muitos programas de restauração falem em geração de emprego, com pessoas trabalhando na coleta de sementes, produção de mudas, plantio e monitoramento. Mas trabalhar em todas essas fases não significa necessariamente que essas pessoas se empoderaram da restauração, principalmente quando ela está sendo feita em terras que não pertencem a elas.
O envolvimento comunitário precisa ir muito além da mão de obra empregada na restauração. Ele precisa estar na própria inteligência da restauração, no planejamento. Para que queremos restauração? Se eu pergunto às pessoas qual é o objetivo da restauração, vou ouvir diversas opiniões. Essas opiniões precisam ser transformadas em um consenso comunitário por meio de processos de articulação.
Os conhecimentos tradicionais locais são essenciais e, muitas vezes, muito mais eficientes do que simplesmente contratar consultorias externas. Muitas populações rurais têm plena noção de quais espécies se desenvolvem melhor em determinados ambientes, considerando quantidade de umidade, nutrientes, áreas mais abertas ou mais fechadas, além das espécies que são úteis para elas.
Elas sabem equilibrar e planejar a restauração. Mesmo que existam erros, talvez sejam erros diluídos pelos benefícios de as próprias pessoas terem planejado a recuperação do seu território.
Então, a ideia de envolver as comunidades para além da participação é justamente essa: elas não são mão de obra. Elas precisam ser inteligência, planejamento, concepção, modelo de mundo, filosofia e valores.
Portal Nossa Ciência: O que significa reforçar, mesmo sem intenção, desequilíbrios de poder e marginalizar o conhecimento local?
Felipe Melo: Na nossa sociedade existem relações de poder em todos os níveis, inclusive na relação com a natureza e também na recuperação da natureza.

Quando pensamos em restaurar um ambiente, precisamos entender que esse processo envolve mobilização, recursos e terra. É possível que decisões sobre como restaurar, onde restaurar e quem será beneficiado sejam tomadas sem considerar os conhecimentos locais, que poderiam orientar uma forma mais justa de decisão.
Esse é o problema. Quando revestimos a restauração de boas intenções de recuperação da natureza, podemos simplesmente reforçar ou reproduzir desigualdades.
Basta pensar que o campo no Brasil é desigual, que o acesso à terra é desigual, assim como o acesso a recursos e tecnologia. Quando colocamos a restauração em prática, podemos repetir essas mesmas desigualdades.
Existe o risco de os recursos, as técnicas e as assessorias chegarem principalmente aos grandes proprietários, enquanto pequenos produtores rurais recebem modelos impostos de cima para baixo, que não foram construídos com eles.
Experiências no Brasil e no mundo
Portal Nossa Ciência: Essas práticas de restauração biocultural já são aplicadas em comunidades? Existem resultados?
Felipe Melo: Sim. Existem muitos exemplos de práticas de restauração biocultural em diferentes escalas, tanto no Brasil quanto no mundo. O termo ainda está sendo desenvolvido, funcionando como uma espécie de conceito guarda-chuva que reúne diferentes experiências.
Existem outros conceitos, como restauração de base comunitária, que também carregam esses princípios. A própria ideia do que é restaurar se modifica na restauração biocultural. Uma restauração produtiva, que tecnicamente recebe esse nome, dentro da abordagem biocultural também é restauração.
Esse artigo foi realizado depois de um workshop no Quênia com diferentes populações, incluindo os povos Maasai, das savanas. Percebemos que eles próprios já tinham práticas restaurativas de manejo do gado, de drenagem e de favorecimento de espécies arbóreas nos locais onde precisavam cultivar árvores úteis para suas atividades diárias, como a obtenção de lenha para cozinhar.
O acesso à terra, aos recursos e à tecnologia é desigual. Se não houver cuidado, podemos repetir essas mesmas desigualdades nos projetos de restauração.
O conhecimento dos Maasai já era a base principal para planejar qualquer restauração em uma savana onde eles vivem, ocupam e utilizam o território.
Se formos para a Caatinga brasileira, acontece algo semelhante. Existem práticas tradicionais, como manejo de bode, fundo de pasto, cultivo rotativo e roças regenerativas, que podem ser associadas aos processos de restauração.
Elas são consideradas restauração biocultural porque reconhecem o conhecimento produzido por essas pessoas, reconhecem as estruturas de poder e fortalecem a capacidade dessas comunidades de participar das decisões.
Existem resultados em várias partes do mundo. Temos experiências na Bahia com as cabrucas, em sistemas agroflorestais na Amazônia, na América Central com café e cacau, entre outras culturas.
Em Pernambuco, instituições como o Centro Sabiá trabalham há mais de 30 anos com sistemas agroflorestais, recuperando paisagens para a biodiversidade e para os serviços ecossistêmicos.
Essas práticas já existem. Durante muito tempo, foram consideradas pela academia como práticas empíricas, não científicas. O que estamos mostrando é que elas não precisam de uma validação acadêmica para funcionar: elas já apresentam evidências na prática.
Não existe solução neutra
Portal Nossa Ciência: A solução neutra é possível?
Felipe Melo: Não existe solução neutra, nem solução meramente técnica para restauração ou conservação.

O que existe é uma restauração praticada por pessoas que têm poder de decisão, recursos e acesso à terra, e pessoas que precisam da restauração e que muitas vezes ainda estão em disputas por terra, recursos e tecnologia.
A restauração pode favorecer grupos estabelecidos, mas também pode ser usada para corrigir desequilíbrios relacionados ao poder e ao acesso à terra e à tecnologia.
Portal Nossa Ciência: A pesquisa está ligada a outros estudos?
Felipe Melo: Nossa pesquisa está ligada a muitos estudos. Venho desenvolvendo trabalhos sobre restauração em um sentido amplo, não apenas técnico, mas também político e conceitual.
Apesar de o artigo parecer muito crítico da restauração, nós reconhecemos que ela avançou muito nas últimas décadas, tanto no mundo quanto especialmente no Brasil.
Esse avanço técnico e político precisa também se transformar em benefícios sociais para as pessoas. E essa é uma parte em que acredito que a restauração ainda precisa avançar.
Estamos trabalhando na criação de uma rede de restauração biocultural que vai reunir experiências do mundo inteiro sobre esse tipo de abordagem.
Também participei da criação da Rede de Restauração da Caatinga, que tem como lema “restauração é feita de gente”. A ideia é organizar essas experiências e ajudar as pessoas a identificar se as práticas adotadas realmente seguem princípios bioculturais.
Portal Nossa Ciência: Há outros artigos em andamento?
Felipe Melo: Sim, há vários artigos em andamento. Existem pesquisas que estou orientando no Quênia, na savana, sobre as práticas de restauração biocultural dos povos Maasai.
Também existe uma parceria muito forte com pesquisadores da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), por meio do Núcleo de Monitoramento de Estudos Ambientais (NEMA). Eles são responsáveis por implementar e monitorar restaurações relacionadas à compensação ambiental gerada pela transposição do Rio São Francisco.
Eles também atuam em outros projetos, como a restauração da Área de Proteção Ambiental da Ararinha-azul.
Temos uma série de iniciativas de restauração na Caatinga nas quais participamos avaliando, monitorando e orientando os processos. Essa é uma das principais parcerias que temos atualmente.
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