Pessoa utiliza notebook que exibe o Guia de Diretrizes para Design de Interfaces com Foco em IHC Feminista.
A IHC Feminista é uma abordagem que busca compreender como relações de gênero influenciam o uso, a interação e o desenvolvimento de tecnologias. (Foto: Ribamar Neto/UFC)

Pesquisadoras transformam princípios da IHC Feminista em guia para desenvolver tecnologias mais inclusivas

Como evitar que preconceitos e estereótipos sejam incorporados aos sistemas digitais usados diariamente? Pesquisadoras da Universidade Federal do Ceará (UFC) transformaram princípios teóricos da chamada Interação Humano-Computador Feminista (IHC Feminista) em orientações práticas para profissionais envolvidos no desenvolvimento de tecnologias. O resultado é um conjunto de 15 diretrizes reunidas em um guia destinado a designers, desenvolvedores e outros profissionais da área, com recomendações para identificar vieses, ampliar a participação de diferentes grupos e criar interfaces mais inclusivas.

O trabalho foi desenvolvido por Geslâne Rodrigues de Sena, Kellen Raizy Noronha Monteiro e Maria Isabele de Oliveira Freires, sob orientação das professoras Valéria Maria da Silva Pinheiro e Anna Beatriz Marques, todas vinculadas aos cursos de Engenharia de Software ou Ciência da Computação do Campus da UFC em Russas (a 165 Quilômetros de Fortaleza). A pesquisa deu origem ao artigo “From Mapping to Practice: A Guide and Evaluation of Feminist HCI Guidelines”, publicado em 2026 no Journal on Interactive Systems, e ao “Guia de Diretrizes para Design de Interface com Foco em IHC Feminista”.

Da teoria à prática do desenvolvimento

A IHC Feminista é uma abordagem que busca compreender como relações de gênero influenciam o uso, a interação e o desenvolvimento de tecnologias. A perspectiva, teorizada a partir de 2010 pela pesquisadora Shaowen Bardzell, amplia a preocupação tradicional da Interação Humano-Computador para questões relacionadas a relações de poder, desigualdades e diferentes experiências sociais. Anteriormente a preocupação da IHC normalmente estava concentrada em aspectos como eficácia e facilidade de uso. Entre os princípios apresentados no guia estão pluralismo, participação, ativismo, ecologia, posicionamento e corporificação.

Para chegar às 15 diretrizes, as pesquisadoras realizaram um mapeamento sistemático da literatura. Segundo o artigo, após as etapas de busca e seleção, 11 estudos foram analisados para a extração dos dados e as recomendações foram posteriormente sintetizadas e organizadas de acordo com os seis critérios de qualidade de design associados à IHC Feminista. O guia reúne orientações como coletar e analisar dados sensíveis a gênero, avaliar e mitigar vieses, evitar estereótipos, adotar práticas de design inclusivo, realizar testes com amostras diversificadas e considerar as implicações éticas do design.

O desafio de superar o “usuário padrão”

A proposta parte da constatação de que escolhas aparentemente técnicas podem reproduzir desigualdades. Aplicativos direcionados a mulheres podem, por exemplo, ser sempre apresentados na cor de rosa ou recorrer automaticamente a linguagens estereotipadas, enquanto ferramentas de acompanhamento do ciclo menstrual podem pressupor que todas as usuárias sejam mulheres cisgênero, heterossexuais e interessadas em engravidar ou evitar uma gravidez. O estudo também chama atenção para assistentes virtuais com nomes e vozes femininas, que podem reforçar associações entre feminilidade e características como docilidade ou subserviência.

Duas pesquisadoras da UFC posam lado a lado em corredor de universidade.
Professoras Valéria Pinheiro e Anna Marques da Universidade Federal do Ceará orientam pesquisa sobre gênero, tecnologia e Interação Humano-Computador Feminista – IHC Feminista. (Foto: Victor Braga/UFC)

A avaliação do guia envolveu 13 profissionais, que o consideraram organizado, útil e fácil de utilizar. Nenhum dos participantes tinha conhecimento aprofundado sobre IHC Feminista antes da avaliação. Para a professora Anna Beatriz Marques, havia uma lacuna entre a identificação dos problemas e sua aplicação no cotidiano profissional: “Muitas delas (pesquisas) permaneceram concentradas em identificar vieses e problemas, sem traduzir esses princípios em orientações que pudessem ser incorporadas ao cotidiano de designers e desenvolvedores”. Kellen Monteiro acrescenta que avaliar e mitigar vieses, adotar estratégias de design inclusivo e testar interfaces com grupos diversos estão entre as orientações mais urgentes, pois permitem identificar problemas ainda durante o desenvolvimento.

Inclusão como parte do processo

A experiência dos participantes também evidencia como a ausência de diversidade pode ser percebida na prática. Deusiane Kaylane, uma das profissionais que avaliaram o material, relatou: “Tem aplicativos que entro e sinto que eles não foram feitos pensando em mim como mulher”. Para ela, situações como jogos que oferecem apenas personagens masculinos ou que não permitem alterar pronomes podem produzir a sensação de não fazer parte do público considerado no desenvolvimento. Outro participante, o designer Henrique de Souza, avaliou que incorporar essa reflexão à rotina profissional é “necessário e viável”.

As pesquisadoras agora pretendem aplicar as diretrizes em projetos reais de software, acompanhando sua utilização desde a identificação dos requisitos até a criação e avaliação das interfaces. A intenção é verificar quais recomendações são mais facilmente incorporadas, quais exigem adaptações e se a adoção do guia modifica efetivamente as decisões das equipes. Para a professora Valéria Pinheiro, essa etapa será importante para amadurecer o material e aproximar a IHC Feminista da prática profissional. “Essa aplicação em projetos reais será fundamental para amadurecer o Guia e verificar sua contribuição concreta para aproximar a IHC Feminista da prática profissional”, afirma. As entrevistas foram concedidas à Agência UFC.