Deus & Darwin Coluna do Jucá

quinta-feira, 3 outubro 2019

Breve relato sobre o Argumento do Desígnio, a Memética e os Magistérios não Interferentes - Parte 1

A Coluna do Jucá inicia nesta semana uma nova fase, a qual envolve também a publicação de textos de outras pessoas (professores, pesquisadores, filósofos e poetas, para citar alguns exemplos) sobre temáticas de cunho científico. Diante do atual cenário de ataques e subvalorizarão das áreas de humanas, nada mais pertinente do que o texto do Professor Adjunto da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) Maxwell Morais de Lima Filho sobre Filosofia & Evolução publicado originalmente na Coluna Anpof, do site da Associação Nacional de Pós-Graduação de Filosofia. O mesmo será dividido em duas partes.

De acordo com o teólogo inglês William Paley, a bondade divina se reflete no modo pelo qual Ele projetou os organismos biológicos, dotados de múltiplos órgãos bem-arranjados e inter-relacionados que visam à preservação e à reprodução da vida. Nesse sentido, o propósito da Criação seria dedutível da contemplação do domínio biológico porque o intricado ajuste entre as partes do sistema – seja o corpo como um todo, seja uma de suas partes (articulação esquelética, coração, olho etc.) – apontaria para uma inteligência sobrenatural, mais especificamente para o Deus revelado na Bíblia.

Professor Maxwell Morais de Lima Filho, da UFAL.

Da mesma maneira que o exame de um relógio aponta – por conta da harmonia entre seus parafusos, engrenagens, molas e ponteiros – para o artífice que o planejou para marcar as horas, a análise atenta das estruturas biológicas aduziriam a um “Relojoeiro”, cujas infinitas sabedoria e benevolência se estampariam nas obras da natureza: as articulações esqueléticas teriam sido arquitetadas para unir ossos e possibilitar o movimento, os corações teriam sido desenhados para bombear sangue e os olhos teriam sido delineados para enxergar. Por conta disso, aquele que se dedica a estudar a criação almejaria – humildemente, porque ciente de sua finitude e de sua imperfeição – conhecer a Mente de Deus, o Projetista e o Fabricador do Universo. Paley esmiuçou essa versão do argumento do desígnio em seu famoso livro Teologia Natural (1802), que tanto cativou um jovem conterrâneo seu: Charles Darwin.

Após abandonar a pretensão de ser médico, Darwin abraçou a conveniência de se tornar pastor e foi estudar na Universidade de Cambridge, ainda no tempo em que nutria a crença ortodoxa na veracidade e na literalidade de cada palavra das sagradas escrituras. Ao finalizar seus estudos acadêmicos, ele abraçou a oportunidade de ser acompanhante de Robert FitzRoy, capitão da marinha britânica que comandou o navio HMS Beagle. Como o próprio Darwin confidenciou, esse episódio, o mais importante de sua vida, foi determinante para assentar a sua trajetória como cientista. Foi nessa viagem ao redor do mundo, com duração de quase cinco anos, que ele pôde ficar extasiado diante das matas tropicais, ver exuberantes animais, observar os povos nativos, indignar-se com a escravidão brasileira, coletar fósseis e até mesmo testemunhar um terremoto de elevada magnitude no Chile.

Entretanto, foi somente após retornar à Inglaterra que a rigorosa análise dos dados e a sua criatividade acabaram desembocando na conceitualização do mecanismo de seleção natural, o qual o levaria a ser cada vez mais crítico ao argumento de que a natureza foi planejada: o fato de que a inteligência humana é a responsável pela fabricação de uma dobradiça de modo algum nos autorizaria a presumir que uma articulação biológica seja obra do desígnio divino, tendo em conta que podemos explicar naturalmente o surgimento dessa bioestrutura.

Apesar de a descoberta da seleção natural preceder em mais de vinte anos A Origem das Espécies (1859), foi nesse livro que Darwin utilizou evidências de vários campos do saber para melhor fundamentar a sua ideia. Em resumo, ele constatou que a insuficiência dos recursos provoca a disputa entre os indivíduos; contenda essa que impossibilita explosões populacionais. Estatisticamente, os organismos portadores de características anatômicas, fisiológicas ou comportamentais vantajosas sobrevivem e se reproduzem com mais frequência, transmitindo os caracteres proveitosos (que sejam herdáveis) à prole. Com o passar do tempo, essa sobrevivência diferencial é retratada pela maior frequência daqueles indivíduos com atributos favoráveis, isto é, aqui há uma gradual mudança – Natura non facit saltum – do perfil populacional.

Maxwell Morais de Lima Filho é Professor do Instituto de Ciências Humanas, Comunicação e Artes da Universidade Federal de Alagoas, coordenador do Programa de Residência Pedagógica do Curso de Filosofia, co-coordenador do Grupo de Estudos Sobre Evolução Biológica, integrante do Grupo de Pesquisa Linguagem e Cognição, do Grupo Subjetividade no Pensamento Contemporâneo e do Grupo de Pesquisa em Filosofia da Religião.

Publicado originalmente na Coluna Anpof.

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Leia o texto anterior: “É preciso uma atenção maior ao problema ambiental”

Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

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