O Brasil de Darcy Ribeiro Ciência Nordestina

terça-feira, 2 outubro 2018

As importantes contribuições desse inigualável educador, antropólogo, político, etnólogo e escritor brasileiro

É assustador o quão desatualizadas são algumas pessoas. Elas usam termos vencidos e mortos, como os de que somos terceiro mundo, país subdesenvolvido. Estes termos remontam um passado que vem desde o pós-segunda guerra mundial, de um eixo que (como hoje) sempre tentou estabelecer seus domínios sobre uma América Latina subserviente. A diferença para hoje é que tínhamos grandes brasileiros com uma capacidade incrível de sonhar. Entre eles, o inigualável Darcy Ribeiro.

Ele acreditou na capacidade de estabelecer políticas públicas em favor da maioria da população. E lutou contra esta mesma elite que lucra com a desigualdade social. O caminho desenhado por ele e outros grandes brasileiros da época parece ainda ser o único que dispomos até hoje: a busca da autonomia e soberania nacional em diferentes aspectos. E sua primeira grande ação veio com a interiorização da Universidade Brasileira – deslocando a concentração na produção de conhecimento do eixo sul-sudeste e criando a Universidade de Brasília (UnB) – da qual foi o primeiro reitor.

Foi ministro da educação e depois chefe da Casa Civil no governo de João Goulart, em um dos períodos mais turbulentos de nossa história – o período que antecedeu o golpe de 1964. Suas ideias de soberania levaram-no à cassação e ao exílio. E mesmo exilado, Darcy cooperou com Allende e Juan Velasco Alvarado – reforçando o eixo revolucionário que impedia o crescimento imperialista por toda a América Latina. E como todo golpe tem sua data de validade, Darcy retorna ao país e se torna vice-governador de Leonel Brizola no Rio de Janeiro, quando cria os famosos CIEPs – escolas de tempo integral que se tornaram modelos em todo o país. Na sequência de sua vida pública, Darcy entra no Senado e aprova a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) – pouco antes (3 meses) de falecer.

A biografia de Darcy Ribeiro é inspiradora e mostra o quão cíclica parece ser a história humana. Grandes retrocessos acompanham os momentos em que a soberania do povo é estabelecida como prioridade pelos governos. A subserviência é uma necessidade imposta pelo poder econômico global para a manutenção de suas fontes primárias (e baratas) de recursos naturais (recomendo a leitura do livro “Quem Manda no Mundo?” de Noam Chomsky).

Um povo pobre, submisso e sem educação entrega seus recursos por não ter tecnologia para processá-los, para transformá-los em igualdade social.

Além do que, quem manda no mundo, de fato, precisa de petróleo barato para continuar movendo esta máquina de injustiça social e destruição do meio ambiente. Máquina que aniquila inocentes por bombas e por fome.

É preciso muito mais educação para entender os porquês. Como já disse outro grande brasileiro (Paulo Freire): “Não basta saber ler que Eva viu a uva. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho”. É por isso que: “Educar é impregnar de sentido o que fazemos a cada instante”.

Sigamos lutando pela educação. Pela memória e pelo sonho de grandes brasileiros do passado.

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Leia o texto anterior: O Brasil que (ainda) faz ciência

Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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