Outrora tida como impossível, já se vislumbra a erradicação da Malária Coluna do Jucá

quinta-feira, 12 setembro 2019
A malária é transmitida pela picada da fêmea do mosquito Anopheles.

Relatório da Comissão Lancet para a Erradicação da Malária concluiu que a erradicação da malária será possível até 2050

Recomendo ao caro leitor a leitura da obra “O mundo é Plano”, de Thomas L. Friedman. Apesar do título sugerir, vale ressaltar que esse livro nada tem a ver com a ideia nada científica de terra plana. Tal concepção tem atraído os holofotes da mídia nos últimos tempos, diante de uma crescente parcela de pessoas que acreditam no terraplanismo, por mais indefensável e cega que seja tal entendimento do globo terrestre. Mas aí é outra história.

Na breve incursão que o autor se propõe a fazer pela incipiente história do século XXI, ele utiliza a expressão Mundo Plano para se referir ao encolhimento e ao achatamento global. Tal movimento seria decorrente dos avanços sem precedentes das comunicações e das tecnologias, para citar alguns dos exemplos apontados pelo autor. Entretanto, nem todas as pessoas estão inseridas dentro dessa aldeia globalizada. Há uma parcela majoritária da população que, na verdade, está excluída dela. Diante desta constatação, o autor defende que só se pode falar em mundo plano, na plenitude da metáfora utilizada, quando todas as pessoas estiverem incluídas em uma única aldeia, isto é, a do mundo plano.

O autor utiliza a expressão Mundo Plano para referir-se ao encolhimento e ao achatamento global. Este, por sua vez, seria decorrente dos avanços sem precedentes das comunicações e das tecnologias. Fonte Google

Caminhando no sentido de incluir aqueles que ficaram para trás no acesso a tal aldeia global, o autor cita o exemplo da Fundação Bill e Melinda Gates, instituição que tem destinado bilhões de dólares na tentativa de incluir mais pessoas no tal mundo plano. Essas populações excluídas do acesso às inovações tecnológicas geralmente têm diante de si outros problemas, como as doenças infecciosas. Muitas destas doenças causadas por parasitas são verdadeiras pragas da humanidade há milênios. De fato, elas são os maiores assassinos da história recente da humanidade, sendo motivo de grande preocupação e de protagonismo nas pautas da agenda global de saúde. Uma destas pragas mortíferas é a malária, causada pelo parasita Plasmodium falciparum.

Pensando nisso, ainda em 2007, Bill e Melinda Gates propuseram que apenas controlar a malária era uma meta modesta demais, apesar de inúmeros avanços e metas de saúde pública alcançadas ao longo do século passado. Desde então, a fundação defende que a erradicação completa da doença é o único objetivo ético e científico possível. Os esforços empreendidos têm surtido efeito. As estimativas são que os gastos com malária aumentaram de aproximadamente 1,5 bilhão de dólares em 2000 para 4,3 bilhões em 2016. Simultaneamente, o número de países com malária endêmica caiu de 106 para 86. Ainda em escala global, as taxas de incidência e de mortalidade anual de malária diminuíram 36% e 60%, respectivamente.

Ainda assim, mesmo diante de avanços notáveis, em 55 países houve aumento do número de casos de malária entre 2015 e 2017. Diante desse dado perturbador, a prestigiada revista científica da área médica The Lancet divulgou essa semana o Relatório da Comissão Lancet para a Erradicação da Malária, redigido pelos maiores especialistas do mundo no assunto. Em consórcio, também foi publicada uma série de artigos contemplando essa temática. São estas publicações de onde foi retirada grande parte das informações contidas nesse texto. Naquele relatório, os especialistas sintetizaram dados, reuniram evidências, fizeram análises epidemiológicas e financeiras acerca da erradicação da malária. Tal qual apontado pelo casal Gates, a comissão concluiu que a erradicação da malária até 2050 seria possível, sendo esta meta bastante ousada diante da resistência às drogas e inseticidas e dos custos sociais e econômicos associados.

A Fundação Bill e Melinda Gates tem destinado bilhões de dólares para que muitas pessoas participem do mundo plano

Como o livro “O mundo é Plano” data de início dos anos 2000, o autor Thomas L. Friedman não pode incluir fatos memoráveis que aconteceram posteriormente à publicação da obra, como o reconhecimento pela Academia Sueca do Nobel às pesquisas de desenvolvimento de tratamentos contra doenças parasitárias, como a malária. Esses trabalhos renderam o Prêmio Nobel de Medicina e Fisiologia de 2015 a William Campbell, Satoshi Omura e Tu Youyou. Outro evento importante remete ao início de 2019, quando a Organização Mundial de Saúde iniciou os primeiros testes em grande escala da vacina contra malária, que também contou com recursos da Fundação Bill e Melinda Gates. Apesar de a eficácia da vacina ainda ser considerada baixa − em torno de 40% −, ainda assim a expectativa é que ela salve milhares de vidas. Ou seja, a erradicação da doença durante o período que marca o surgimento de uma geração não parece em nada com obra de ficção científica, como aponta o Relatório da Comissão Lancet para a Erradicação da Malária.

Resumo da ópera: certamente, para milhares de pessoas que se beneficiaram do projeto-piloto dessa vacina, bem como dos avanços e esforços no combate à malária, o mundo ficou mais plano. Em especial, tais avanços trazem boas expectativas para as crianças que ainda estão por nascer nas áreas endêmicas dessa doença. Que seja esse o destino inevitável de todos aqueles acometidos pelas doenças infecciosas: a cura e a inserção no tal “Mundo Plano”.

Referências

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Thiago Jucá é biólogo, doutor em Bioquímica de Plantas e empregado da Petrobrás.

Thiago Jucá

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