Revolta da vacina, gripe espanhola e covid-19 Ciência Nordestina

terça-feira, 14 abril 2020
Charge publicada na revista O Malho, em 1904, mostra a população contra as vacinas de Oswaldo Cruz.

No passado, a ciência venceu as batalhas contra as pandemias e enfrentou os movimentos retrógrados

Em 1904, enquanto a varíola avançava por todo o Brasil, o então presidente Rodrigues Alves, assessorado pelo médico Oswaldo Cruz instituiu uma série de medidas para controlar o avanço desta e demais doenças, a partir da vacinação obrigatória de todos os brasileiros maiores de seis meses. A reação popular foi a pior possível, o que levou à criação da Liga contra a vacinação obrigatória. Forças políticas aproveitaram a situação para tentar dar um golpe de estado e derrubar o presidente (temos um passado recheado de golpes). As argumentações das pessoas contra as vacinas eram as mais absurdas possíveis: acreditava-se que os vacinados passassem a adquirir feições bovinas (cabe aqui lembrar que em pleno ano de 2020, o movimento antivacina ainda tem força por todo o planeta).

Voltando novamente ao passado, agora para 1918, surge outro fruto letal da primeira guerra mundial: a gripe espanhola. Gripe esta que não surgiu na Espanha – embora toda a Europa sofresse com a influenza, a imprensa espanhola era uma das únicas livre de fato (por conta da neutralidade na guerra) para descrever o drama da população com o vírus. E o Brasil iniciou sua quarentena (nos moldes de início do século XX) como mostra a nota do jornal da época.

À época, a substância da moda era o quinino acompanhada do uso da cachaça com limão e alho, o que teria feito surgir a famosa caipirinha – percebam o quanto evoluímos em 100 anos de ciência – hoje falamos em substâncias bem mais elaboradas. E até mesmo por isto, o vírus levou à morte milhões de pessoas por todo o planeta além do próprio presidente eleito Rodrigues Alves.

Um século depois, embora a ciência tenha evoluído e vencido a batalha contra as pandemias (grande peste, gripe espanhola e demais crises da saúde pública) sempre houve o retorno de movimentos retrógrados e danosos à sociedade (como o movimento antivacina, as vertentes apocalípticas e os aproveitadores de curas milagrosas). A ciência evolui ao mesmo tempo em que a sociedade e política parecem não se desapegar de vícios do passado. Isso faz com que se veja “um museu de grandes novidades” sempre que se olha para trás – já alertava o sempre atual Cazuza.

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Helinando Oliveira é Professor da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) desde 2004 e coordenador do Laboratório de Espectroscopia de Impedância e Materiais Orgânicos (LEIMO).

Helinando Oliveira

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