Setestrelo #HojeÉDiadeCiência

sexta-feira, 8 março 2019

O astrônomo José Roberto Costa fala das lendas e histórias envolvendo os aglomerados de estrelas que se destacam dentro de constelações

Ceiuci era uma índia virgem, mãe de Jurupari, índio mágico concebido pelo sumo do curara-do-mato que um dia escorreu pelo ventre da jovem. Jurupari fora incumbido por um agente do Sol para corrigir os males do mundo – em particular a dominação das índias sobre os índios.

Depois de acabar com a influência das mulheres índias, Jurupari estabeleceu uma série de rituais proibidos à participação de qualquer pessoa do sexo feminino, sob risco de morte. Mesmo sabendo do perigo, Ceiuci desobedeceu ao filho e espreitou um desses cultos – pagando com a vida pela ousadia.

Como não podia trazer a mãe de volta, Jurupari a levou para o céu, onde Ceiuci se transformou num conjunto de sete estrelas bem próximas entre si: o Setestrelo – ou Plêiades na cultura europeia.

Asterismo famoso

As Plêiades ficam na constelação do Touro. Toda vez que destacamos um grupo de estrelas dentro de uma constelação dizemos tratar-se de um asterismo. As Três Marias são um asterismo da constelação de Órion. As Plêiades, ou Setestrelo, é um dos asterismos de mais fácil identificação do céu.

Para os índios brasileiros, seu aparecimento antes do nascer do Sol indicava que a primavera estava próxima. O Setestrelo, que muitos de nossos indígenas denominavam Ceiuci, é a principal evidência do conhecimento astronômico dos habitantes originais do Brasil.

A tribo Sioux, da América do Norte, também a associavam com a história de sete garotas índias que colhiam flores tranquilamente quando foram surpreendidas por um urso gigante. Elas rapidamente subiram um grande rochedo, mas o animal pôs-se a afiar suas garras na pedra, em sinal de ameaça.

Sem saída, elas suplicaram ao Grande Espírito da floresta, que as transformou no asterismo. A montanha arranhada pelo urso é conhecida hoje como Torre do Diabo, famosa pelas aparições no filme “Contatos Imediatos do 3º Grau”, de Steven Spielberg.

Não faltam lendas sobre as Plêiades mundo afora. Essa denominação, aliás, é o mesmo que Atlântidas na mitologia grega, as sete filhas do gigante Atlas e de Pleiône. São elas: Maia, Electra, Taíget, Estérope, Mérope, Alcione e Celeno. Nomes pelos quais essas estrelas são conhecidas oficialmente na Astronomia moderna.

Jóia celeste

As Plêiades foram imortalizadas no céu por Júpiter. O deus do Olimpo apiedou-se das súplicas das Sete Irmãs (nome popular no hemisfério Norte), que já não suportavam mais a perseguição implacável do caçador Órion.

Maia, Electra e Taíget foram amadas por Júpiter. Alcione e Celeno tiveram o amor de Netuno e Estérope de Marte. Apenas Mérope só teve o amor de um mortal e por isso brilha menos que as outras.

Apesar de sempre nos referirmos a sete estrelas, esse é apenas o número visível a olho nu. O aglomerado estelar da Plêiades é formado por milhares de estrelas nascidas nos últimos 100 milhões de anos. A maioria azuis, muito quentes, das quais se conhecem entre 250 e 500.

O aglomerado está em média a 440 anos-luz (um ano-luz vale cerca de 9½ trilhões de quilômetros) da Terra. Valor cuja determinação envolveu diferentes métodos, que são considerados passos importantes para a calibração das escalas de distância usadas pelos astrônomos para medir todo o Universo.

Subaru, no Japão; Makara, para os aborígines australianos; Kimah, na China; ou a representação da deusa Neith, para os egípcios… Esse belo asterismo rodeado por intricados filamentos de luz azul é uma das muitas jóias celestes, num cantinho do céu apertado entre uma das 88 maravilhas do céu: as constelações.

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Leia o texto anterior: Os dias que nunca existiram

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José Roberto Costa

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