Pesquisador trabalha em laboratório de pesquisa
Nos laboratórios de pesquisa das universidades federais, pesquisadores desenvolvem atividades científicas.

Gestão do tempo na vida acadêmica: entre a pesquisa e a sobrecarga

Diário de Bordo - dia 8037

A semana passou tão rápido que quase não deu tempo de escrever a coluna do Portal Nossa Ciência. A sensação real é de que o tempo está passando mais rápido do que o habitual. Só parece. O dia continua tendo 24 horas como sempre teve por aqui, apesar de não ser absoluto. O que há é uma sobrecarga de conteúdos que nos leva, de forma invisível, o tempo. Já percebeu quantos minutos por dia você passa ligado no celular? Isso nos tira tempo, dando a impressão de que o dia ficou mais curto.

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Na vida do professor, o tempo é um fator que precisa ser muito bem gerenciado. Em termos de grau de importância, vêm as aulas e, delas, as correções de listas, relatórios (cada vez mais feitos por IA) e provas.

Quando o tempo não dá conta de tantas demandas

Concorrendo com as aulas, vêm as reuniões nada empolgantes, que vão de 15 minutos a 4 horas (com tendência a se tornarem cada vez mais longas). Tudo isso em meio às demandas da pesquisa (equipamento dando problema, teto caindo, lâmpada queimada), teses atrasadas, alunos desaparecidos, artigo no limite de devolução, patente com pendência e prazo para resposta, além daquele vídeo esperto para divulgar o laboratório… E brotam convites para atuar como revisor e editor…

E ainda tem a skin de pai e marido, skin de motorista que leva os filhos para a escola, para a oficina disso e daquilo… No final do dia, tem a skin de pai de pet. Se o cão não der a sua volta noturna, ele não te deixa dormir. Depois de tudo, a academia. Academia? Fala sério. O nível de energia já está em zero desde as 18 horas. Só o bom café preto fortíssimo para aliviar esta rotina.

Aprender a dizer não também faz parte

Logo podemos perceber que o problema não é o tempo, mas sim as prioridades. A depender da urgência, certas coisas vão ficando para o fim. E a semana acaba sem que as atividades terminem de fato. Então, você entra no domingo para fazer o que deveria ter sido feito na sexta até às 18 horas. E chega na segunda com o cansaço de uma sexta.

Essa bola de neve leva ao adoecimento. Como evitá-la? A resposta seria: entender os limites do corpo e aprender a dizer ‘não’ às coisas.  Não precisa aceitar todos os convites para ser revisor. Um por vez já é um bom primeiro passo. Estabelecer um limite ao número de orientandos também é fundamental. Delegar funções é também crítico.

O fato é que, com o tempo, o pesquisador vai se afastando da bancada de experimentos. A rotina nos leva a uma função administrativa, de gestão de pessoas, mas o que nos levou até aqui foi o amor pela ciência. É importante formar pessoas, não posso negar…

De volta à bancada, onde a ciência ganha sentido

Mas o experimento de bancada nos faz respirar novamente e fugir deste caos. Esta foi uma semana apertadíssima e sufocante. Porém, consegui duas horas para ficar sozinho, fechei as portas do laboratório e, em silêncio absoluto, voltei aos meus tempos de estudante. Éramos só eu e o analisador de impedância. O som dos relés, ao chavear, quase me fez chorar de emoção. Era como se eles dissessem: “Estamos aqui por você. Sentimos sua falta”. Feliz e transbordando de satisfação pelo experimento realizado com sucesso, saí para encarar o caos das rotatórias de Juazeiro e Petrolina.

Sim, o paraíso se esconde de nós para ter o seu valor.

A rotina nunca foi interessante… Nos tempos de estudante eram duas horas de pé nos ônibus e a marmita fria no almoço. Na vida profissional são outros tipos de dificuldade… No final, o que vale mesmo é a contemplação dos pequenos momentos que fazem tudo isso valer a pena. Escrever este texto, por sugestão de Mônica Costa, foi pura terapia. Obrigado, minha editora!

Uma boa semana de trabalho para todos nós. E foco no que importa.

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Helinando Oliveira é físico, professor titular da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf) e atualmente é vice presidente da Academia Pernambucana de Ciência