Pé coberto por meia preta, com parte da perna coberta por calça jeans.
Tecido moldável em meias libera óxido nítrico e pode auxiliar no tratamento do pé diabético.

UFC desenvolve tecido que libera óxido nítrico para tratar pé diabético

CIÊNCIA QUE MERECE SER LEMBRADA

Formigamento, dores, perda de sensibilidade e redução da força estão entre os sintomas do chamado pé diabético, uma das complicações associadas à diabetes. Quando não tratado adequadamente, o problema pode evoluir para lesões graves e até resultar na amputação do membro. De acordo com a Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular, 85% das amputações relacionadas à doença começam com uma lesão nos pés.

Uma tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal do Ceará (UFC) busca oferecer uma nova possibilidade de tratamento para essas alterações. Trata-se de um tecido que libera óxido nítrico e que pode ser moldado em diferentes formatos, inclusive como uma meia para aplicação nos pés.

Pesquisadores dos departamentos de Química Orgânica e Inorgânica, Química Analítica e Físico-Química da UFC desenvolveram a tecnologia “tecido contendo liberador de óxido nítrico”. O invento recebeu a carta-patente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI).

Tecido pode ser transformado em meia terapêutica

A proposta utiliza fibras de carbono às quais é incorporado o nitroprussiato, composto químico capaz de liberar óxido nítrico. O processo permite que o gás seja liberado de maneira gradual e controlada sobre a pele.

Segundo os pesquisadores, o nitroprussiato pode permanecer atuando nas fibras por até 12 dias. A ideia é que o tecido seja utilizado em uma meia, permitindo o contato do óxido nítrico com a região afetada durante o tratamento do pé diabético.

Já existem no mercado produtos que utilizam o óxido nítrico como princípio ativo, inclusive em formatos como emplastros e géis tópicos para determinadas condições da pele. A tecnologia desenvolvida na UFC, no entanto, utiliza uma estratégia diferente de preparação, baseada na incorporação do nitroprussiato em fibras de carbono.

A expectativa dos pesquisadores é que esse método possa resultar em uma alternativa de menor custo e com potencial terapêutico.

Pesquisa começou com amostras de tecido de fibra de carbono

O estudo teve início em 2022, quando amostras comerciais de tecidos produzidos com fibras de carbono chegaram ao laboratório da UFC. A partir desse material, o pesquisador Pedro Martins da Silva Filho, um dos autores do invento, passou a investigar possíveis aplicações para liberadores de óxido nítrico.

O trabalho foi desenvolvido durante o doutorado de Pedro Martins no Programa de Pós-Graduação em Química (PGQUIM) da UFC.

“O estudo iniciou-se em 2022, quando chegaram ao nosso laboratório amostras comerciais de tecidos feitos de fibras de carbono. Nesse período, eu pensava em aplicações não convencionais de liberadores de óxido nítrico”, relata o pesquisador.

A partir das amostras, a equipe realizou a adsorção do nitroprussiato nas fibras e avaliou a capacidade do material de liberar óxido nítrico.

A adsorção é o processo pelo qual moléculas de um fluido se fixam à superfície de um material sólido. Nesse caso, o nitroprussiato é incorporado à superfície das fibras de carbono.

“O óxido nítrico é liberado a partir da ‘decomposição’ do nitroprussiato, que ocorre lentamente nas fibras, entregando-o sobre a pele do paciente de forma controlada”, explica Pedro Martins.

O pesquisador foi bolsista do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) durante o doutorado e atualmente é professor da rede pública do município de Redenção, no Ceará, localizado a 64 quilômetros de Fortaleza.

Material pode ser usado em outras neuropatias

Além da aplicação no pé diabético, os pesquisadores identificaram outras possibilidades para o tecido. O material pode ser moldado em diferentes formatos, como luvas e ataduras, ampliando seu potencial de uso no tratamento de neuropatias periféricas.

A neuropatia diabética ocorre quando a diabetes provoca danos nos nervos e pode atingir diferentes partes do corpo, incluindo as extremidades, como pés e mãos.

Por isso, segundo Pedro Martins, as propriedades do tecido podem permitir sua adaptação a diferentes regiões e necessidades terapêuticas.

“O tecido pode ainda ser moldado em formatos diversos para o tratamento de outras neuropatias periféricas”, explica o pesquisador.

Próxima etapa envolve novos testes

Além da concessão da carta-patente, a tecnologia foi selecionada pelo Edital Centelha, do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), programa voltado ao estímulo à criação de empreendimentos inovadores.

Com o financiamento obtido por meio do programa, os pesquisadores deverão realizar novos testes, com foco no desenvolvimento da meia destinada ao tratamento do pé diabético.

Antes de chegar ao mercado e ser utilizada por pacientes, entretanto, a tecnologia ainda precisa passar por etapas de avaliação de segurança e eficácia.

“O mercado tem carência de produtos liberadores de óxido nítrico. Porém, para chegar ao público, ainda temos um longo caminho. Precisamos confirmar a ação terapêutica através de testes pré-clínicos e clínicos”, afirma Pedro Martins.

Segundo ele, a proteção da propriedade intelectual foi considerada importante diante da variedade de possíveis aplicações do óxido nítrico.

“Chegamos à conclusão da importância de proteger a tecnologia devido à gama de aplicações do óxido nítrico, tais como: tratamento de neuropatia, de câncer de pele, de feridas crônicas, como vasodilatador e outras possibilidades”, ressalta.

A expectativa da equipe é que, futuramente, o material possa ser investigado também para outras aplicações na área da saúde, inclusive em pesquisas relacionadas ao câncer.

Patente amplia portfólio de inovação da UFC

Participaram do desenvolvimento da tecnologia os professores Elisane Longhinotti, orientadora de doutorado de Pedro Martins; Eduardo Henrique Silva de Sousa, coorientador; Luiz Gonzaga de Franca Lopes; e o bolsista do programa Empreende UFC Isaac Lucas Araujo Lopes.

A tecnologia ainda está em fase de desenvolvimento e avaliação. Os próximos testes serão importantes para verificar seu potencial terapêutico e determinar se o tecido poderá, futuramente, transformar-se em uma alternativa para pacientes com pé diabético e outras condições relacionadas a lesões e neuropatias.

CIÊNCIA QUE MERECE SER LEMBRADA: matéria publicada originalmente em 23/08/2024